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Sacre Investimentos
EXAME AgroCMDT
09/08/2026
3 min

'Produtor vai ter que se reinventar', diz diretor do Sicredi sobre novo ciclo do agro

Com carteira de crédito rural superior a R$ 140 bilhões, cooperativa diz que continuará financiando o agro, mas com mais rigor na análise de risco

'Produtor vai ter que se reinventar', diz diretor do Sicredi sobre novo ciclo do agro

PORTO ALEGRE* — Com uma carteira superior a R$ 140 bilhões em crédito rural e posição de segundo maior financiador privado do agronegócio brasileiro, o Sicredi avalia que o setor atravessa um período de margens mais apertadas, aumento da inadimplência e maior necessidade de gestão por parte dos produtores. Apesar do cenário desafiador, a cooperativa afirma que continuará ampliando sua atuação no campo, mas com critérios mais rigorosos na concessão de crédito.

“Acho que temos que ser mais criteriosos, mas também é uma oportunidade de qualificar a gestão do produtor rural e do seu negócio. A margem é mais apertada e o produtor vai ter que se reinventar”, diz César Bochi, diretor-presidente do Sicredi, em entrevista à EXAME.

Dados da Serasa Experian mostram que a inadimplência entre produtores rurais chegou a 8,8% no primeiro trimestre de 2026, alta de 1,2 ponto percentual em relação ao mesmo período do ano anterior e de 0,6 ponto sobre o trimestre anterior. O avanço reflete a combinação de custos financeiros elevados, preços mais pressionados para algumas commodities e problemas climáticos enfrentados em diferentes regiões do país.

Na carteira rural do Sicredi, a inadimplência também aumentou, mas em menor proporção. O índice passou de 0,3% há três anos para cerca de 2,9%, mas ainda permanece abaixo da média do sistema financeiro, segundo Bochi.

A expectativa é liberar aproximadamente R$ 72 bilhões para a safra 2026/27, acima dos R$ 69 bilhões desembolsados no ciclo anterior. O crescimento, porém, será acompanhado por uma análise de risco mais rigorosa e maior atenção à capacidade de pagamento dos produtores.

Na avaliação de Bochi, o desafio não é apenas conceder financiamento, mas ajudar o produtor a tomar decisões mais sustentáveis para o negócio. “Temos que ajudar cada vez mais o produtor a fazer conta e trabalhar com cenários”, afirma.

Segundo ele, a análise do crédito precisa considerar diferentes possibilidades de produção e renda, especialmente diante da maior frequência de eventos climáticos extremos.

“Nos últimos cinco anos, quantas vezes o produtor colheu uma safra cheia? E, se a safra for menor, como ele atravessa? Vai caber esse novo investimento ou não?”, diz.

Bochi afirma que, em alguns casos, a orientação da cooperativa poderá ser inclusive adiar investimentos quando a capacidade de pagamento não justificar uma nova operação.

“Às vezes, é necessário limitar o crédito, porque o produtor não vai conseguir atravessar aquela safra”, disse.

Seguro rural no agro

Para reduzir a exposição aos riscos, o presidente do Sicredi defende o fortalecimento de ferramentas de gestão, como o seguro rural, a trava de preços e a diversificação das atividades nas propriedades.

“Tem que fortalecer o processo de seguro rural. Para médios e grandes produtores, tem que ter trava de preço. Tem que ter incentivos à diversificação de culturas”, afirmou.

Segundo Bochi, propriedades com diferentes fontes de renda costumam atravessar períodos de crise com mais facilidade do que aquelas dependentes de uma única cultura.

Ele também diz que a realidade do campo é bastante heterogênea. Enquanto algumas cadeias enfrentam forte pressão sobre as margens, outras, como café e pecuária, vivem momentos mais favoráveis. “Não dá para ter uma leitura única para o agro brasileiro”, diz.

Na avaliação do executivo, o cenário de juros elevados, volatilidade cambial, eventos climáticos e incertezas geopolíticas pressiona a rentabilidade do setor, mas não muda a perspectiva de longo prazo para o agronegócio brasileiro.

"Estruturalmente, o Brasil é uma fortaleza no agronegócio”afirma.

*O repórter viajou a convite do Sicredi

AutorCésar H. S. Rezende
FonteExame
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