Protestos na Itália param fábricas de macarrão e levam tomate a apodrecer no campo
Alta do diesel leva caminhoneiros a bloquear estradas e portos, afetando fábricas, mercados e produtores rurais

A Itália corre o risco de ficar sem um de seus alimentos mais tradicionais: o macarrão. Um protesto de caminhoneiros no sul do país, motivado pela alta dos combustíveis e do custo de vida, bloqueia estradas, impede a chegada de matérias-primas às fábricas de massas e ameaça o abastecimento de alimentos.
Nesta terça-feira, 20, a Rummo, uma das marcas mais tradicionais de massas da Itália, suspendeu a produção por falta de ingredientes. Os bloqueios atingem um setor que movimentou 13,5 bilhões de euros em 2025, segundo dados da European House-Ambrosetti (Grupo TEHA).
Ao jornal La Repubblica, o CEO da companhia, Cosimo Rummo, afirmou que o problema não é isolado. Segundo ele, quase todos os grandes fabricantes da Puglia, região que, ao lado da Campânia e da Sicília, concentra parte importante da produção italiana de massas, enfrentam dificuldades semelhantes.
Na avaliação do executivo, a maior parte da produção de macarrão do país “parou completamente ou está prestes a parar”.
A La Molisana, fabricante localizada na região de Molise, também registrou uma queda significativa na produção e começou a utilizar seus estoques de farinha de trigo e sêmola para manter as operações.
Os efeitos dos protestos já são sentidos no abastecimento de frutas e verduras. O Centro Agroalimentare Roma (CAR), maior mercado atacadista do setor na Itália, informou que os bloqueios rodoviários e o aumento dos custos de frete estão provocando escassez de tomate, pimentão e uva na capital.
Com a redução da oferta, os preços desses produtos estão subindo, enquanto o mercado italiano amplia sua dependência de importações de países como Espanha e Albânia.
No campo, organizações agrícolas alertam que alimentos perecíveis estão apodrecendo diante das dificuldades para transportar a produção.
Entre os produtos afetados estão os tomates Pachino, cultivados na Sicília e conhecidos por sua indicação geográfica. Na Calábria, produtores de kiwi também relatam dificuldades e cobram uma solução para os bloqueios.
A Confagricoltura, entidade que representa produtores rurais italianos, alertou que agricultores da Sicília poderão ser obrigados a destruir grandes volumes de alimentos perecíveis caso o transporte não seja restabelecido.
O protesto dos caminhoneiros começou na semana passada, com bloqueios em estradas, rodovias e portos da Sicília e de outras regiões do sul da Itália.
A paralisação já provoca desabastecimento em supermercados e filas em postos de combustíveis, afetando a rotina dos moradores.
Os impactos ultrapassam o agronegócio. Em aproximadamente uma dúzia de cidades da região de Messina, na Sicília, a coleta de lixo doméstico também foi interrompida.
Alta dos combustíveis e preço dos alimentos
A interrupção do transporte ocorre em um momento de aceleração da inflação italiana, impulsionada principalmente pelos custos de energia.
Segundo o Instituto Nacional de Estatística da Itália (Istat), a alta anual dos preços dos produtos energéticos passou de 17,1% para 22,3% em setembro.
Entre os componentes do setor, a energia regulada registrou aceleração de 18,6% para 25,9% em 12 meses, com aumento de 5,9% somente em setembro. Já a energia não regulada passou de 17% para 22,2% na comparação anual, com avanço de 4,4% em relação a agosto.
A pressão também chegou aos alimentos frescos. A inflação de produtos não processados, como frutas e verduras, acelerou de 3,8% para 5,5% em setembro, com aumento mensal de 2,2%.
O dieselestá cerca de um terço mais caro do que antes daguerra com o Irã, mesmo após medidas adotadas pelo governo italiano para conter os preços nos postos. Um desconto temporário sobre o imposto incidente no combustível expirou no início de outubro, aumentando a pressão sobre os custos das transportadoras.
Para tentar encerrar os bloqueios, o governo italiano anunciou medidas de apoio financeiro às transportadoras.
Após uma reunião com representantes do setor nesta terça-feira, o vice-ministro da Infraestrutura, Edoardo Rixi, afirmou que um pacote de mais de 150 milhões de euros será liberado em breve.
Segundo a agência italiana LaPresse, Paolo Uggè, presidente da Unatras, entidade que reúne associações de caminhoneiros, afirmou que o ministro Matteo Salvini prometeu iniciar os pagamentos nesta quarta-feira, 21, e apresentar medidas legislativas para enfrentar os custos operacionais do setor.
Uma nova reunião entre governo e transportadoras está prevista para a próxima semana.
Paralelamente, a primeira-ministra Giorgia Meloni aprovou nesta terça-feira um decreto que endurece as medidas contra adolescentes envolvidos em distúrbios, após confrontos entre manifestantes e policiais em Milão, no fim de semana.
Dos 271 detidos, 80% eram menores de idade. O pacote também prevê o envio de 500 militares à cidade até o fim do ano, a redução para 14 anos da idade de responsabilização penal e a retenção de menores suspeitos por até 24 horas antes de manifestações públicas.
Ao anunciar as medidas, a primeira-ministra Giorgia Meloni afirmou: “Protestar é um direito, incendiar nossas cidades não é”.
