Puxado pelo agro, Brasil pode ganhar duas Suíças em floresta até 2035

Durante anos, uma das tensões mais persistentes do debate sobre florestas no Brasil opôs, de um lado, a conservação; de outro, a produção agropecuária, como se proteger e produzir ocupassem territórios separados. A geografia da conservação, porém, conta uma história menos binária.
Segundo a análise O Protagonismo das Florestas Brasileiras na Agenda Climática Global, produzido por uma coalizão de dez instituições de pesquisa, filantropia e setor produtivo, cerca de 42% das áreas protegidas do país estão dentro de propriedades rurais privadas na forma de Reservas Legais e Áreas de Preservação Permanente exigidas pelo Código Florestal.
O maior detentor de capital natural do Brasil é, portanto, o agronegócio. "Mas parte deste setor ainda vê a responsabilidade de manter áreas de conservação como um peso", diz Roberto Waack, presidente do Conselho do Instituto Arapyaú e um dos coordenadores do trabalho.
"O que o estudo enfatiza, com bastante força, é que isso é muito mais uma oportunidade do que um desafio." E a principal aposta, segundo Waack, está na valoração desse capital que hoje pertence ao setor.
O documento, que será apresentado nas três COPs da ONU deste ano (clima, biodiversidade e desertificação), recebeu apoio formal da presidência da COP30 e serviu de insumo técnico para o Mapa do Caminho para Parar e Reverter o Desmatamento até 2030, proposto pela presidência brasileira em Belém.
A coalizão responsável reúne Instituto Arapyaú, Instituto Itaúsa, Agroicone, Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, Instituto Clima e Sociedade (iCS), Imazon, Amazônia 2030, CEBDS e Uma Concertação para a Amazônia — mais de cem colaboradores, segundo os autores.
Água é próxima discussão
A primeira edição do estudo, lançada durante a COP30, concentrou-se na Amazônia e na Mata Atlântica e trouxe a projeção que dá a medida da ambição.
Depois de décadas perdendo cobertura vegetal, a análise apontou que o Brasil teria condições de passar a ganhar floresta já nos próximos dez anos, saindo dos atuais 517 milhões de hectares para 525 milhões até 2035; um acréscimo de 8 milhões de hectares, ou o equivalente a duas vezes o território da Suíça.
A nova versão se estende a todos os biomas terrestres, incorporando Cerrado, Caatinga, Pantanal, Pampa e Zona Costeira. "A gente às vezes esquece da importância das florestas no Cerrado, na Caatinga, no Pantanal", observa Waack. "Esta edição cobre o território brasileiro inteiro."
Contudo, a mudança mais profunda desta edição não é geográfica, é conceitual. Nos últimos anos, o debate florestal global orbitou em torno da captura de carbono e da geração de créditos negociáveis.
Agora, com secas prolongadas, incêndios e crises hídricas já afetando cadeias produtivas, infraestrutura e finanças públicas, o estudo desloca o eixo do valor das florestas para a água e a adaptação climática.
E passa a tratá-las como uma espécie de "infraestrutura natural", capaz de regular o regime de chuvas, proteger solos e dar estabilidade à produção agrícola, energética e logística.
"Os recursos hídricos são a próxima grande discussão mundial", afirma Waack."E o agro brasileiro detém um patrimônio imenso de serviços ecossistêmicos nessa área."
A dependência é mensurável. Conforme uma pesquisa divulgada em 2026 na Communications Earth & Environment, do grupo Nature, citada em O Protagonismo das Florestas, os "rios voadores" da Amazônia Legal geram precipitações avaliadas em cerca de US$ 20 bilhões anuais para a agricultura.
E para ilustrar, Waack oferece um exemplo concreto da outra ponta: no Matopiba, fronteira agrícola entre Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, cresce ano a ano o número de perfurações necessárias para acesso à água.
"Por isso a agenda das florestas para a manutenção desse regime hídrico não é mais ambiental, mas econômica. Quase de sobrevivência de uma parte muito relevante do agronegócio."
Beto Veríssimo, cofundador do Imazon e enviado especial da COP30, amplia o argumento para a matriz energética: "Quase 75% da matriz hidrelétrica do Brasil está ligada à floresta.
Isso vale das usinas da Amazônia às da bacia do Paraná, como Itaipu, alimentadas em grande parte pela evaporação da própria floresta. Se levarmos a Amazônia ao ponto de não retorno, perdemos essa fonte de energia renovável."
E acrescenta um dado que raramente entra na conta. Menos de 10% da produção agrícola brasileira é irrigada. "O que nos dá uma vantagem econômica grande, porque permite a segunda safra. Migrar para a irrigação por colapso hídrico é um custo muito alto", explica.
Do mosaico da celulose ao etanol de milho
Parte da expansão florestal projetada pelo estudo deve vir de dentro das próprias cadeias produtivas.
É a coexistência entre produção e floresta que o conceito de "contínuo florestal", adotado internacionalmente, descreve como um gradiente: de matas primárias intocadas a áreas em regeneração, mosaicos de nativa com plantada e sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta.
Em vez de dois mundos apartados, "há muita coisa no meio, convivendo", diz Veríssimo. O caso mais maduro é o da celulose, da qual o Brasil é o segundo maior produtor e o principal exportador, com a indústria mais competitiva do mundo.
Nas fazendas do setor, explica Waack, o desenho extrapola as exigências do Código Florestal por meio dos chamados mosaicos, que combinam o plantio intenso com áreas de conservação.
A expansão, por sua vez, acontece tipicamente sobre pastagens degradadas, não sobre vegetação nativa. E as exigências de certificações internacionais de manejo responsável, como o FSC, fazem com que cada novo plantio recupere também área de floresta natural no caminho.
A fronteira nova são os biocombustíveis. O etanol de milho, que respondeu por 22% da produção nacional de etanol na safra 2024/2025 (8,2 milhões de metros cúbicos, com projeção do Imea de 22,55 milhões até 2034/2035), depende de biomassa florestal, sobretudo eucalipto, para a secagem do grão.
"É uma revolução no campo da transição energética", diz Waack. "O agro passa a ser um ator relevante de investimentos em floresta."
O mesmo processo produz o DDG, farelo proteico que resta da destilação do grão. "Embora chamado de subproduto, na realidade não é. Trata-se de uma das principais fontes de alimentação para animais. A produção de etanol de milho gera energia e alimento ao mesmo tempo", afirma Waack.
Assim, o executivo completa, o Brasil indica que a competição entre energia e alimento, tema central do debate europeu, não é relevante aqui. O país tem área para expandir o agronegócio e a atividade florestal sem essa disputa, uma exceção entre as grandes economias agrícolas.
Depois da celulose e dos biocombustíveis, a terceira frente mapeada pelo estudo não nasce de uma cadeia produtiva, mas do que fica à margem delas: a restauração como tese de investimento.
Um levantamento preliminar da Agroicone com o movimento Floraz identificou, em cenário conservador, 2,6 milhões de hectares aptos em cerca de 8 mil propriedades, em geral áreas degradadas ou de baixa aptidão agrícola que hoje ficam abandonadas dentro das fazendas.
Essas terras viraram objeto de parcerias com empresas do setor, financiadas por investidores como Itaú, Rabobank, Santander e Pátria - este último lançou um fundo de cacau, abacate e café em sistemas agroflorestais.
Segundo projeção do WRI, a restauração pode gerar US$ 141 bilhões no Brasil até 2050, entre carbono, alimentos, biomateriais e bioenergia.
O gargalo: medir antes de monetizar
Se a oportunidade é tão evidente, por que o capital privado ainda não flui? O diagnóstico do próprio relatório é de um financiamento muito aquém da necessidade, concentrado em mercados percebidos como menos arriscados.
Entre as saídas propostas estão instrumentos de blended finance, garantias e estruturas de project finance. Na visão de Waack, porém, o obstáculo de fundo é anterior à engenharia financeira.
"Ainda não conseguimos caracterizar de maneira tangível o que são esses serviços ecossistêmicos. O carbono já é mensurado; a água é mais fácil; a biodiversidade tem desafios muito grandes", constata. E sua formulação ordena o problema.
"Caracterização, mensuração e valoração são os três elementos críticos antes de falarmos de monetização e comercialização. Essa discussão ficou um pouco invertida. Partiu-se para criar o crédito sem esses três elementos."
Medir, diz ele, tornará tangível "o quanto uma cidade depende das nascentes que estão nas propriedades rurais do seu entorno" ou quanto uma rodovia deve às florestas de suas margens pela redução dos gastos de manutenção com estragos de chuva e erosão.
O mercado, de todo modo, já sinaliza o caminho. Créditos de carbono de alta integridade, ligados a biodiversidade e outros serviços, recebem preço maior, um delta que funciona como precificação implícita.
Compradoras como a Nestlé, cita Waack, já aceitam pagar mais pelo crédito que carrega esses atributos. O estudo mapeou 32 iniciativas de valoração de capital natural no mundo e mais de cem metodologias em desenvolvimento, de Stanford (a plataforma InVEST) a Harvard e Oxford.
Para Veríssimo, a biodiversidade é justamente o atributo que funciona como seguro. Uma floresta mais diversa resiste melhor a pragas, doenças e até ao fogo, argumenta, lembrando a devastação que avança sobre a citricultura brasileira.
Um vetor geopolítico inesperado se soma ao movimento. A China, por meio de seu banco de infraestrutura, lidera o reconhecimento de serviços ecossistêmicos e é o país que mais refloresta.
"A gente costumava dizer: se não vender para a Europa, vendo para a China. Não é mais assim, esse jogo mudou", conta Waack. Do outro lado, o desmatamento ilegal já aparece entre as justificativas das tarifas norte-americanas contra o Brasil.
A condição de partida
Nada disso dispensa o básico. Waack e Veríssimo são taxativos quanto à tolerância zero ao desmatamento ilegal: "É para ontem", diz o cofundador do Imazon.
Ambos reconhecem que a implementação do Código Florestal anda mais devagar do que o desejado, com o passivo de validação do Cadastro Ambiental Rural (CAR) ainda em equacionamento.
Restrição de crédito a quem desmata, pagamento por serviços ambientais regulado e incentivos fiscais a municípios com menor desmatamento compõem o arsenal proposto.
Cumprir a regra, argumenta Veríssimo, passa também por uma mudança na contabilidade da floresta que o setor já mantém. "Temos que transitar do ônus para o bônus. Para o país, claramente é um ativo. Agora tem que ser um ativo também para o proprietário rural", explica.
Waack traduz o raciocínio que o estudo espera despertar no agro: "Vou encarar o fim do desmatamento porque vou ganhar com isso. Vou surfar numa onda de valoração do capital natural."
Há sinais de que o básico avança. Dados recentes do próprio Imazon apontam queda do desmatamento no país inteiro, e Veríssimo enxerga no histórico uma espécie de "blindagem". Mesmo nos piores momentos políticos, observa, a devastação não voltou ao pico de 2003 e 2004.
Veríssimo recorre à literatura da "transição florestal" para situar o momento brasileiro: Europa, Estados Unidos e Japão derrubaram suas florestas para industrializar-se e depois as recuperaram. Contudo, o Japão, hoje, tem 69% de cobertura florestal.
"É uma trajetória em forma de U, na qual a cobertura vegetal cai até um fundo e volta a crescer. E o Brasil já passou pelo vale, agora segue na curva ascendente", ilustra o executivo.
Há ainda um argumento de custo, que torna a transição brasileira única. Para cortar emissões, os países desenvolvidos precisam trocar a base de sua energia, desativando usinas que sustentam suas economias, um ajuste caro e politicamente doloroso.
No Brasil, a principal fonte de emissões é o desmatamento, atividade que não gera riqueza nem qualidade de vida, e eliminá-la não sacrificaa economia.
"Entre as economias do G20, somos o único país que pode fazer uma transição ganha-ganha. O desmatamento é o nosso câncer", afirma. Resolvido o problema, completa Veríssimo, o Brasil cumpriria com folga sua NDC, a meta climática nacional assumida no Acordo de Paris.
O aval político ao estudo veio em nota de André Corrêa do Lago, presidente da COP30, afirmando que o trabalho materializa o conceito de "mutirão" proposto pela presidência brasileira, uma agenda construída com cooperação e responsabilidade compartilhada, em que diferentes atores avançam juntos.
Para o diplomata, é esse espírito que deve guiar o Mapa do Caminho contra o desmatamento, ao qual o documento serviu de insumo.
A aposta de fundo, porém, é a que Waack resume. "Quem tem o maior patrimônio de recurso natural no Brasil é quem tem o maior interesse em que esses serviços sejam reconhecidos, e quem tem o poder político para fazer isso acontecer. Ele será o maior beneficiário."
