Quais são as principais apostas para comandar a Fazenda?
A forte reação dos mercados à reeleição surpreendente de Luiz Inácio Lula da Silva fez aumentar a expectativa de que o presidente escolherá um ministro da Fazenda para o seu próximo mandato capaz de enviar um sinal mais firme de disciplina fiscal e contribuir para tranquilizar investidores. Pessoas próximas a Lula afirmam que ele provavelmente […]

A forte reação dos mercados à reeleição surpreendente de Luiz Inácio Lula da Silva fez aumentar a expectativa de que o presidente escolherá um ministro da Fazenda para o seu próximo mandato capaz de enviar um sinal mais firme de disciplina fiscal e contribuir para tranquilizar investidores.
Pessoas próximas a Lula afirmam que ele provavelmente levará algum tempo para tomar uma decisão, mas três fontes disseram que dois nomes têm se destacado para o cargo: o vice-presidente Geraldo Alckmin e Rafael Fonteles, governador do Piauí reeleito.
O matemático Fonteles, de 41 anos, é visto como um tecnocrata afeito à disciplina fiscal, capaz de fazer a ponte entre o governo de Lula e investidores desconfiados. Ele tem mestrado em economia matemática e atuou como secretário de Fazenda do Piauí de 2015 a 2022. Também cumpriu dois mandatos como presidente da Comsefaz, que representa os secretários estaduais de Fazenda.
Alckmin, de 73 anos, é do PSB e já foi o rival de centro-direita do presidente, tendo sido derrotado por Lula na eleição presidencial de 2006. Também foi governador de São Paulo por dois mandatos e ex-ministro do Comércio e Desenvolvimento.
A Reuters informou no início deste mês que Lula estava considerando Alckmin para o cargo de ministro da Fazenda a fim de reforçar sua credibilidade fiscal e conquistar eleitores centristas.
Fonteles ganhou destaque na campanha de Lula com a reorganização que se seguiu ao resultado do primeiro turno, liderado por Flávio, da qual foi peça importante.
Membro do PT, ele é um aliado próximo do ex-ministro da Educação de Lula e senador eleito Camilo Santana. Os dois trabalharam juntos na campanha de Lula no Nordeste do Brasil, onde o presidente garantiu uma vantagem confortável.
Em seu discurso de vitória, Lula agradeceu a Fonteles por seu papel na campanha, mas observou que o governador ainda tinha uma “missão a cumprir no Piauí”, o que alguns aliados interpretaram como um sinal de que ele pode estar relutante em incluí-lo no gabinete tão cedo.
No mesmo discurso, Lula elogiou efusivamente a lealdade de Alckmin e chegou a passar o microfone a ele antes de falar.
Lula quer um ministro da Fazenda em quem confie plenamente, disse uma das fontes. Alckmin é alguém em quem Lula confia “100%”, observou outra fonte.
“Hoje em dia, há pouquíssimas pessoas fora do PT que tenham esse tipo de relação com Lula”, disse uma delas.
Nessa linha, as três fontes não descartaram a possibilidade de Lula eventualmente acabar decidindo manter o atual ministro da Fazenda, Dario Durigan, que não é filiado a nenhum partido. Embora Durigan não tenha o peso político de alguns rivais, Lula o valoriza muito e o considera “jeitoso”, segundo uma quarta fonte.
Pesam a favor de Alckmin e Durigan o fato de não serem filiados ao PT — duas fontes afirmaram que Lula entende que um nome do partido teria mais dificuldade em conter o mau humor dos investidores ao longo do tempo.
A segunda-feira pós-eleição foi de derrocada para os ativos brasileiros e de pessimismo nas mesas de operação, com muitos investidores realizando prejuízos e ajustando apostas para o futuro das políticas monetária e fiscal no Brasil. O dolar sofreu a maior alta em 23 anos e o Ibovespa despencou quase 14%. Nessa terça-feira, os mercados estavam mais comportados, mas a bolsa paulista ainda operava com queda.
Haddad
As três fontes afirmaram que a escolha de Lula para o cargo de ministro da Fazenda está cada vez mais ligada à decisão do presidente sobre eventual nomeação do ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad ao comando da Casa Civil.
Haddad, membro do PT, deixou o Ministério da Fazenda no início deste ano para concorrer ao cargo de governador de São Paulo a pedido de Lula — apesar de as pesquisas indicarem uma provável derrota —, a fim de fortalecer a base do presidente no Estado mais populoso do Brasil. Ele foi derrotado pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) no primeiro turno.
A avaliação é que com Haddad na Casa Civil, e Durigan ou Alckmin na Fazenda, estaria assegurado o maior alinhamento da equipe econômica com a Presidência da República, já que Haddad tem laços estreitos com ambos.
Já a eventual indicação de Fonteles à Fazenda é vista pelas fontes como possível dobradinha à ida de Camilo para a Casa Civil, outra possibilidade em jogo.
