Quais serão os próximos passos do Fed após a 'estreia' de Kevin Warsh?

O Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) manteve nesta semana os juros norte-americanos na faixa entre 3,50% e 3,75% em uma decisão unânime, mas a comunicação da primeira reunião sob o comando de Kevin Warsh mudou o tom esperado pelo mercado. Em vez de sinalizar estabilidade à frente, o novo presidente adotou uma postura mais dura e cautelosa, reforçando a possibilidade de manutenção de juros elevados por mais tempo e, até, de novos ajustes ao longo de 2026.
Fed mantém juros nos EUA pela quarta vez seguida
Para justificar a cautela, o banco central dos EUA mostrou que a situação no Oriente Médio ainda tem consequências incertas e que a economia norte-americana segue a todo vapor, com a criação de empregos acompanhando o crescimento da força de trabalho. A taxa de desemprego permanece em 4,3% e a inflação, que roda acima da meta de 2%, é outro ponto que centraliza as atenções.
Christopher Galvão, sócio e analista da Nord Investimentos, entende que comunicado reconheceu a atividade econômica resiliente.
"Ela vem sendo sustentada pelo segmento de inteligência artificial, enquanto o mercado de trabalho segue aquecido, inclusive com os últimos dados mostrando reaceleração. Além disso, a inflação cheia vem acelerando pela pressão de combustíveis, enquanto os núcleos seguem acima do nível compatível com a meta. O último CPI, por exemplo, mostrou o núcleo acelerando de +2,75% para +2,85% no acumulado em 12 meses", afirmou Galvão.
Fim do 'forward guidance'
Carlos Lopes, economista do Banco BV, chama a atenção parao desejo de Warsh de mudar os comunicados futuros da instituição, que passariam a conter menos explicações e sinalizações, tornando-se mais curtos. "Para evitar o comprometimento com passos futuros, Warsh retirou o forward guidance (orientação futura) do comunicado", disse Lopes.
Segundo Galvão, o novo presidente destacou, inclusive, que o gráfico de pontos (dot plot) não deve ser interpretado necessariamente como uma projeção mecânica de como será a condução da política monetária.
O estilo de Warsh em sua primeira reunião à frente do Fed também foi digno de nota. Marcos, diretor de análise da Zero Markets Brasil, observa que omandatário foi "significativamente mais duro" do que o mercado esperava. O discurso colocou a possibilidade de novas altas de juros no centro do debate, gerando forte volatilidade no final da sessão.
O impacto foi sentido nos ativos globais. A bolsa brasileira fechou em queda de 0,70%, aos 168.453,93 pontos, na quarta, enquanto o dólar avançou 0,41%, cotado a R$ 5,1077. Os pregões seguintes, de quinta e sexta, também seguiam repercutindo as decisões de juros tanto nos EUA como no Brasil.
Nas principais bolsas americanas, o movimento de aversão ao risco não foi diferente. O S&P 500 recuou 1,21% (aos 7.420,13 pontos), o Dow Jones caiu 0,97% (aos 51.493,16 pontos) e o Nasdaq cedeu 1,35% (aos 26.021,66 pontos).
Piora nas projeções (SEP)
O Resumo das Projeções Econômicas (SEP) também trouxe revisões significativas que reforçam a percepção de um cenário mais desafiador pela frente.
No que diz respeito à trajetória dos juros, o Comitê elevou as estimativas para os próximos anos. A projeção para 2026 subiu de 3,4% para 3,8%, enquanto o patamar esperado para 2027 passou de 3,1% para 3,6%. Já para 2028, a estimativa foi ajustada de 3,1% para 3,4%.
Esse movimento acompanha de perto a deterioração nas projeções para a inflação. O núcleo do PCE (Índice de Preços de Gastos com Consumo) sofreu uma revisão altista relevante para 2026, saltando de 2,7% para 3,3%.
Para os anos seguintes, as pressões também se mostram mais persistentes, com o indicador subindo de 2,2% para 2,5% em 2027, e de 2,0% para 2,1% em 2028. Em contrapartida, o mercado de trabalho deve exibir estabilidade, com a taxa de desemprego projetada em 4,3% para 2026 e 2027, recuando marginalmente para 4,2% em 2028.
Tendência global mais rígida
Bruno Komura, estrategista da S4 Consultoria, avalia que aperspectiva de uma postura mais restritiva nos EUA faz com que outros bancos centrais de economias desenvolvidas sigam uma cartilha semelhante.
Komura cita como exemplo o Banco Central Europeu (BCE) e o Banco do Japão (BOJ), que subiram suas taxas recentemente, caminho que em breve deve ser adotado pelo Banco da Inglaterra (BOE).
Essa conjuntura global deve trazer reflexos severos para o cenário doméstico. Na visão do estrategista da S4, o próprio Banco Central do Brasil não deve realizar novos cortes na taxa Selic no segundo semestre, pressionado pelo ambiente externo mais adverso.
