Quanto a TotalEnergies deve pagar para ampliar sua fatia na Casa dos Ventos
Francesa negocia a compra de mais 15% da joint venture; fatia deve sair por pelo menos R$ 2 bilhões

A francesa TotalEnergies está em negociações avançadas para ampliar sua participação na Casa dos Ventos, empresa de energia renovável fundada pelo empresário Mário Araripe. A operação envolve uma fatia adicional de 15% e decorre de uma opção de compra (call) prevista no acordo firmado entre as companhias em 2022. Na ocasião, a TotalEnergies adquiriu 34% da joint venture que reuniu os ativos de geração da Casa dos Ventos, em uma transação de R$ 4,2 bilhões, considerando pagamento em dinheiro e assunção de dívidas.
Por contrato, a TotalEnergies tem até o fim deste ano para concluir a operação, mas o closing deve acontecer antes. A presença da multinacional francesa traz à Casa dos Ventos garantias para os projetos e, sobretudo, ajuda a reduzir a necessidade de capital próprio para sustentar a expansão. Com escala global, poder de compra e acesso a uma cadeia internacional de fornecedores e diferentes verticais do setor de energia, a TotalEnergies permite dividir investimentos e diluir parte do custo de desenvolvimento dos projetos.
As companhias estão agora na fase de discussão de valuation. Pessoas que acompanham a operação avaliam que a fatia adicional não deve sair por menos de R$ 2 bilhões. Quando a parceria foi fechada, em 2022, a joint venture foi avaliada em cerca de R$ 12 bilhões — referência pela qual 15% valeriam aproximadamente R$ 1,8 bilhão. De lá para cá, porém, a Casa dos Ventos ampliou a operação e o portfólio de ativos, o que tende a elevar o preço da nova participação.
A companhia passou dos 1,7 GW em operação e construção que integravam a parceria em 2022 para um portfólio que hoje soma 7,8 GW em operação e construção, distribuído por mais de 30 ativos. No período, também avançou em energia solar, ampliou a atuação para além do Nordeste e chegou a R$ 31,6 bilhões em investimentos, enquanto seu portfólio de projetos desenvolvidos ou em desenvolvimento alcançou 60 GW.
Desafio da transição
Parte dessa expansão passa pelo Complexo Industrial e Portuário do Pecém, no Ceará, que se tornou uma das principais plataformas da Casa dos Ventos para avançar além da geração e comercialização de energia. A companhia desenvolve na região projetos de hidrogênio e amônia verdes, voltados tanto a consumidores industriais quanto ao mercado de exportação, e mais recentemente passou a explorar outra fonte de demanda intensiva por eletricidade: os data centers.
O Pecém reúne condições que ajudam a explicar essa aposta. O complexo abriga a ZPE Ceará, regime que oferece benefícios tributários, cambiais e administrativos e pode reduzir o custo de implantação de projetos intensivos em equipamentos importados. Soma-se a isso a disponibilidade de energia renovável: o Ceará tem cerca de 4,5 GW de capacidade de geração eólica e solar, diante de um consumo médio de 1,65 GW. Há ainda a conectividade. Fortaleza concentra 16 cabos submarinos, que ligam o estado a grandes rotas internacionais de dados e ajudam a reduzir a latência. A combinação de energia, incentivos e conectividade transformou uma região historicamente associada à indústria pesada — e, mais recentemente, ao hidrogênio verde — em candidata a polo de infraestrutura digital.
Foi nesse ambiente que a Casa dos Ventos participou do desenvolvimento inicial do data center que atenderá a ByteDance, dona do TikTok, antes de vender sua participação no projeto para a Omnia, do Pátria. A companhia permaneceu, porém, ligada ao empreendimento pelo fornecimento de energia: fechou um contrato de cerca de US$ 2 bilhões por 20 anos para entregar até 300 MW médios ao complexo. A estratégia já avançou para além do Ceará. Com a Ascenty, a Casa dos Ventos assinou um acordo superior a US$ 500 milhões para fornecer 110 MW médios, apoiado por dois novos projetos de geração eólica e solar.
Oásis no deserto
A ambição da Casa dos Ventos é ajudar a transformar o Pecém em uma espécie de Johor brasileiro. O estado da Malásia virou em poucos anos um dos principais polos de data centers da Ásia ao combinar disponibilidade de terra e energia, infraestrutura e conectividade internacional. Hoje, Johor já soma 1,1 GW de capacidade em operação e outros 3,1 GW em desenvolvimento, segundo a Cushman & Wakefield, que o coloca como o maior mercado da Ásia-Pacífico quando consideradas as capacidades existente e futura.
“Data center é tese para puxar demanda para nós”, diz Lucas Araripe, diretor-executivo da Casa dos Ventos. A lógica é criar novos consumidores capazes de contratar grandes volumes de energia por longos períodos e, com isso, viabilizar a construção de novos projetos eólicos e solares. “Se dependesse da demanda do setor elétrico brasileiro, cresceríamos pouco”, diz Araripe.
A aposta não termina na ByteDance. A Casa dos Ventos já negocia uma segunda fase de aproximadamente 300 MW no Pecém, de porte semelhante ao primeiro projeto, e trabalha para fechar o acordo até o fim deste ano. Há conversas com companhias americanas e chinesas. A empresa estima que, no total, a região tenha potencial para receber até R$ 450 bilhões em investimentos em infraestrutura de data centers.
A mesma estratégia de criar grandes consumidores para sua energia está por trás de outra aposta no Pecém. A Casa dos Ventos discute a construção de uma planta de amônia verde, em um investimento superior a US$ 1 bilhão. O projeto está em fase final de elaboração, mas a decisão definitiva de investimento ficou para o próximo ano. Se sair do papel, parte da eletricidade renovável será transformada em amônia, produto que pode abastecer a indústria ou ser exportado.
A conta do crescimento
Transformar esse portfólio em capacidade instalada exige capital. Projetos de geração renovável demandam grandes investimentos e são financiados, em boa parte, com dívida estruturada no nível de cada empreendimento. A Casa dos Ventos recorre a linhas de instituições como BNDES e BNB e, há dois meses, captou US$ 1,1 bilhão com 23 investidores institucionais. A demanda chegou a aproximadamente US$ 3 bilhões, quase três vezes o volume levantado.
Capitalizada, a companhia pretende acelerar a expansão para alcançar 11 GW de capacidade até 2030, ante os 7,8 GW atualmente em operação e construção. O desafio passa a ser fazer as duas pontas crescerem juntas: de um lado, levantar capital para construir novos parques; de outro, encontrar consumidores capazes de absorver a energia produzida. Data centers, hidrogênio e amônia são parte da resposta da Casa dos Ventos para essa segunda equação.
