Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
InvestMercadosACS
31/08/2026
6 min

Quanto eu teria hoje se tivesse investido R$ 10 mil em ações da Braskem há 5 anos?

Companhia entrou com um pedido de recuperação extrajudicial na semana passada, com dívida de US$ 10,9 bilhões

Quanto eu teria hoje se tivesse investido R$ 10 mil em ações da Braskem há 5 anos?

Se um investidor tivesse aplicado R$ 10 mil em ações preferenciais da Braskem (BRKM5) há cinco anos, o investimento teria encolhido para R$ 816,85 até 28 de agosto de 2026, considerando a variação dos papéis ajustada por dividendos e outros proventos distribuídos pela companhia no período. A perda acumulada seria de 91,83%.

Os dados mostram a forte destruição de valor enfrentada pelos acionistas da petroquímica nos últimos anos. O cálculo, feito pela Economatica a pedido da EXAME, considera o desempenho da ação ajustado por proventos e outros eventos corporativos no período, mas sem o reinvestimento dos valores recebidos.

Em um horizonte ainda mais curto, o desempenho também é negativo. Quem tivesse investido R$ 10 milum ano teria R$ 4.617,83, uma perda de 53,82%. Já em três anos, o mesmo investimento teria caído para R$ 1.925,63, o equivalente a um recuo acumulado de 80,74%.

Mesmo em prazos mais longos, o investimento na Braskem não teria preservado o capital inicial. Há 10 anos, os R$ 10 mil teriam se transformado em R$ 2.751,22 uma queda de 72,49%. Em 15 anos, o valor final seria de R$ 4.023,29, o que representa uma perda acumulada de 59,77%.

Até mesmo em um horizonte de duas décadas, o retorno permanece negativo. Um investimento de R$ 10 mil realizado há 20 anos teria chegado a R$ 6.262,86 em 28 de agosto de 2026, considerando a valorização — ou, neste caso, a desvalorização — das ações ajustada pelos proventos distribuídos no período. A perda acumulada seria de 37,36%.

Os números ajudam a dimensionar o desafio enfrentado pela Braskem: a companhia não conseguiu gerar retorno positivo para o acionista em nenhuma das janelas analisadas, mesmo quando considerados os dividendos e demais proventos distribuídos ao longo dos anos.

A trajetória das ações reflete uma combinação de fatores que pressionaram a empresa em diferentes momentos, incluindo o ciclo desfavorável da indústria petroquímica, o impacto do desastre geológico em Alagoas e, mais recentemente, a deterioração da estrutura financeira que levou a companhia à recuperação extrajudicial.

O que está acontecendo com a Braskem?

A crise financeira da Braskem (BRKM5) ganhou um novo capítulo nesta semana. A petroquímica entrou em recuperação extrajudicial para tentar reorganizar uma dívida de cerca de US$ 10,9 bilhões — aproximadamente R$ 56 bilhões — e negociar novas condições de pagamento com seus credores. A Justiça de São Paulo deferiu na sexta-feira, 28, o processamento do pedido, formalizando o início da nova etapa da reestruturação financeira da companhia.

A recuperação extrajudicial é uma alternativa à recuperação judicial que permite à empresa negociar diretamente com os credores os termos para reorganizar suas dívidas. A Justiça participa do processo para homologar o acordo e conceder proteção jurídica à companhia enquanto as negociações avançam.

No caso da Braskem, o processo envolve exclusivamente dívidas financeiras sem garantias, conhecidas como obrigações quirografárias. Fornecedores, clientes e outros parceiros comerciais não estão incluídos na recuperação, e os contratos com esses grupos continuam em vigor, segundo a companhia.

Com a decisão judicial, a Braskem e algumas de suas controladas passam a contar com um período de proteção contra medidas de cobrança relacionadas às dívidas incluídas no plano. Por 120 dias — prazo que considera os 60 dias de proteção já obtidos anteriormente — ficam suspensas ações judiciais, execuções e outras medidas dos credores, como pedidos de falência e bloqueios ou apreensões de bens.

A companhia agora terá 90 dias para comprovar que obteve o apoio de credores que representem o percentual necessário para que o plano seja homologado. Quando protocolou o pedido, na segunda-feira, 24, a Braskem já contava com a adesão de credores equivalentes a 39,6% do total dos créditos abrangidos pela proposta.

A intenção é aproveitar esse período para redesenhar o perfil da dívida. Entre os mecanismos previstos estão o alongamento dos prazos de pagamento, a capitalização de juros durante um período de alívio financeiro e a possibilidade de converter parte das dívidas em participação no capital da empresa. O plano também prevê um eventual reforço de liquidez por parte dos principais acionistas e mecanismos de aporte ou garantia de capital caso determinadas metas financeiras não sejam alcançadas.

A reestruturação tem o apoio dos dois principais acionistas da petroquímica: a Petrobras e o Shine I Fundo de Investimento em Participações, ligado à gestora IG4 Capital. Antes de optar pela recuperação extrajudicial, a Braskem vinha negociando uma solução com os credores havia meses e chegou a avaliar alternativas mais drásticas, incluindo a possibilidade de recorrer à recuperação judicial, numa tentativa de preservar recursos e reorganizar os compromissos financeiros.

O movimento ocorre depois de um período de forte deterioração dos resultados da companhia. No início deste ano, a Braskem registrou prejuízo de R$ 10,3 bilhões, o dobro do resultado negativo apurado no mesmo período do ano anterior. A empresa tem enfrentado um ciclo adverso para a indústria petroquímica, além dos efeitos financeiros relacionados ao desastre geológico em Alagoas, que se tornou uma das principais fontes de pressão sobre sua estrutura financeira.

A gravidade da situação também teve reflexos diretos na Bolsa. Com a classificação das ações da companhia como papéis de uma empresa em recuperação extrajudicial, a B3 retirou a Braskem do Ibovespa e de outros índices, como IBrX, IBrX-50 e Small Caps.

A exclusão é automática pelas regras da Bolsa: ativos de empresas em situação especial, como recuperação judicial ou extrajudicial, não podem permanecer nas carteiras dos indicadores. Os papéis só poderão voltar a integrar os índices depois que a companhia for reabilitada e reconstruir um novo histórico de negociação.

Isso não significa, porém, que as ações deixem de ser negociadas. BRKM3 e BRKM5 continuam disponíveis no pregão normalmente, mas a mudança pode provocar ajustes nas carteiras de fundos e investidores que acompanham os índices como referência.

A reação inicial do mercado foi negativa. No primeiro pregão após o anúncio do pedido de recuperação extrajudicial, as ações preferenciais da Braskem, negociadas sob o código BRKM5, caíram 6,71% e fecharam cotadas a R$ 6,71, entre as maiores baixas da B3 naquele dia.

A recuperação extrajudicial, portanto, representa uma tentativa da companhia de ganhar tempo e proteção jurídica para resolver um problema financeiro que vem se acumulando em meio à crise do setor e ao elevado endividamento. O desfecho das negociações com os credores será determinante para definir não apenas o tamanho da dívida que permanecerá no balanço da Braskem, mas também a futura estrutura de capital da empresa e sua capacidade de atravessar o atual ciclo de dificuldades.

AutorRebecca Crepaldi
FonteExame
Distribuído por