Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
InvestOnde InvestirACS
15/08/2026
5 min

Quanto eu teria hoje se tivesse investido R$ 10 mil em ações da Localiza há 20 anos?

Após anos de forte valorização, as ações da Localiza perderam força com o aumento dos juros, a fusão com a Unidas e a queda no valor dos veículos, que reduziram o retorno sobre o capital

Quanto eu teria hoje se tivesse investido R$ 10 mil em ações da Localiza há 20 anos?

Se um investidor tivesse aplicado R$ 10 mil em ações da Localiza (RENT3) há 20 anos, o investimento teria se transformado em aproximadamente R$ 141.410, considerando a valorização acumulada dos papéis no período. Nesse caso, o retorno acumulado seria de 1.314,10%. Os dados foram compilados pela Economatica a pedido da EXAME.

Em um período de 15 anos, os mesmos R$ 10 mil teriam se transformado em aproximadamente R$ 72.208, considerando o retorno acumulado de 622,08%. O cálculo leva em consideração a valorização dos papéis, os dividendos e demais proventos distribuídos pela companhia no período, mas sem o reinvestimento desses valores.

Já no período de 10 anos, entre 2016 e 2026, o investimento teria chegado a aproximadamente R$ 34.962, o que representa um retorno acumulado de 249,62%. O desempenho, porém, muda quando são considerados períodos mais recentes. Um investimento de R$ 10 mil há cinco anos teria se transformado em R$ 7.256, com uma perda acumulada de 27,44%.

Nos últimos três anos, a queda foi ainda maior. Os mesmos R$ 10 mil teriam recuado para aproximadamente R$ 6.063, uma desvalorização acumulada de 39,37%.no período de um ano, o investimento teria chegado a R$ 10.804, com retorno acumulado de 8,04%.

O que aconteceu com Localiza?

A história de valorização da Localiza é, sobretudo, uma história de escala e reinvestimento. Em 20 anos, as ações acumulam alta de 1.314,10%; em 15 anos, 622,08%; e, em dez anos, 249,62%.

Para Alberto Friggi, sócio da Friggi & Secco, esse desempenho não veio apenas do crescimento do mercado de aluguel de carros, mas da capacidade da empresa de comprar veículos em grande escala, manter alta utilização da frota, vender os seminovos e reinvestir o capital em um negócio que, durante muitos anos, entregou retornos superiores ao custo da dívida.

“Quanto maior a companhia ficava, maior era a capacidade de reinvestimento, criando um efeito de composição”, afirma.

O modelo da Localiza funcionava como um ciclo: a companhia captava recursos, comprava carros, alugava os veículos, vendia a frota usada e usava o dinheiro para renovar e ampliar a operação. A escala ajudava em todas as etapas, desde a negociação com montadoras até a venda dos seminovos.

A abertura de capital, em 2005, e novas captações permitiram acelerar esse processo. Em 2011, por exemplo, a empresa tinha ROIC de 17,1%, contra custo da dívida após impostos de 8,6% — uma diferença de 8,5 pontos percentuais. “Mais importante que crescer era quanto esse crescimento rendia”, diz Friggi.

A equação começou a mudar nos últimos anos. Depois da pandemia, a Localiza passou por uma transformação importante, com novos negócios e, principalmente, a combinação com a Unidas, aprovada pelo Cade em 2021. A operação praticamente dobrou o tamanho da companhia: a frota passou de 289.796 carros no fim de 2021 para 591.041 em 2022 e 657.612 em 2023.

O problema foi o momento em que esse salto aconteceu. A empresa passou a carregar uma estrutura muito maior justamente quando os juros subiam e o mercado de veículos começava a se normalizar.

A base de capital investido saltou de R$ 13,2 bilhões em 2021 para R$ 25,2 bilhões em 2022, R$ 43 bilhões em 2023 e R$ 47,7 bilhões em 2024. Ao mesmo tempo, o custo da dívida após impostos subiu de 3,7% para 9,6%, enquanto o ROIC caiu de 17% para 11,6%.

Com isso, o spread entre o retorno obtido pela operação e o custo do dinheiro despencou de 13,3 pontos percentuais para 3,1 pontos. “A Localiza não deixou de crescer. O crescimento simplesmente passou a gerar menos retorno econômico para cada real de capital empregado”, afirma Friggi.

Outro problema foi a depreciação dos veículos, uma variável central para uma locadora. A Localiza precisa estimar por quanto conseguirá vender cada carro depois de utilizá-lo. Quando o valor esperado do seminovo cai, o custo econômico da frota aumenta

Em 2024, a companhia reconheceu R$ 1,386 bilhão de depreciação adicional em relação ao trimestre anterior, além de R$ 171 milhões em ajustes nos carros disponíveis para venda em Seminovos. A deterioração atingiu justamente uma das competências mais importantes do modelo: saber quanto pagar pelo carro, quanto tempo mantê-lo na frota e por quanto conseguir vendê-lo depois.

Por isso, a tese da Localiza mudou. Antes, a questão central era quanto a companhia conseguiria crescer mantendo retornos elevados. Depois da Unidas, passou a ser se uma empresa muito maior conseguiria recuperar a rentabilidade sobre todo o capital empregado.

“A pergunta deixou de ser apenas se a Localiza conseguiria integrar a concorrente e ganhar mercado. Passou a ser se conseguiria fazer essa nova escala produzir retornos compatíveis com aqueles que justificaram historicamente o prêmio de RENT3”, diz Friggi.

Os sinais mais recentes, porém, apontam para uma recuperação. No primeiro semestre de 2026, o ROIC anualizado chegou a 16,1%, contra custo da dívida após impostos de 10%, levando o spread novamente para 6,1 pontos percentuais.

No segundo trimestre, a receita de aluguel de carros cresceu 11,2%, o lucro líquido chegou a R$ 1 bilhão, alta de 30,6% sobre a base ajustada, e a venda de seminovos avançou para 92 mil veículos, contra 68 mil um ano antes. A idade média da frota de aluguel também caiu de 10,8 para 8,2 meses.

Para Friggi, portanto, a alta de 8,04% da ação nos últimos 12 meses parece refletir mais uma reconstrução da confiança na rentabilidade do que um retorno ao cenário excepcional de antes da fusão.

A base de capital continua próxima de R$ 49 bilhões e o custo da dívida ainda está em torno de 10%, bem acima do observado em 2021. “Durante muitos anos, Localiza foi uma tese de composição de capital. Depois da Unidas, tornou-se uma tese de recomposição do retorno sobre uma base de capital muito maior.”

AutorRebecca Crepaldi
FonteExame
Distribuído por