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07/08/2026
7 min

Quanto eu teria hoje se tivesse investido R$ 10 mil em ações da Vale há 5 anos?

Preço do minério, geração de caixa, dividendos e mudanças na governança ajudaram a impulsionar as ações da Vale no longo prazo

Quanto eu teria hoje se tivesse investido R$ 10 mil em ações da Vale há 5 anos?

Se um investidor tivesse aplicado R$ 10 mil em ações ordinárias da Vale (VALE3) há cinco anos, o investimento teria se transformado em R$ 11.387 até julho de 2026, considerando a valorização dos papéis, os dividendos e demais proventos distribuídos pela companhia no período, mas sem o reinvestimento desses valores. Nesse caso, o retorno acumulado seria de 14%.

O cálculo, feito pela Economatica a pedido da EXAME, considera a valorização acumulada da ação ajustada por proventos no período entre 31 de julho de 2021 e 31 de julho de 2026. A conta considera os efeitos de dividendos, juros sobre capital próprio, desdobramentos e outros eventos corporativos que alteram a trajetória da ação.

Em prazos maiores, o desempenho da Vale é mais expressivo. Um investimento de R$ 10 mil há 15 anos, considerando o período de 31 de julho de 2011 a 31 de julho de 2026, teria se transformado em aproximadamente R$ 40.432, o que representa um retorno acumulado de 303%.

Já no período de 20 anos, entre 31 de julho de 2006 e 31 de julho de 2026, os mesmos R$ 10 mil teriam chegado a aproximadamente R$ 90.240, considerando a valorização ajustada por proventos. O retorno acumulado seria de 802%.

Por que as ações da Vale valorizaram tanto?

A forte valorização das ações da Vale em horizontes mais longos está ligada principalmente à combinação entre o ciclo favorável das commodities, a posição competitiva da companhia no minério de ferro e a capacidade de geração de caixa em períodos de preços elevados. Para Gabriel Uarian, analista-chefe da Cultura Capital, o desempenho não foi linear, mas resultado de uma sequência de ciclos positivos e de recuperação após períodos de crise.

Um dos principais fatores para o desempenho no longo prazo foi o avanço da demanda chinesa por minério de ferro, especialmente entre meados dos anos 2000 e o início da década de 2010, quando o país passou por um forte processo de urbanização e industrialização. Nesse período, os preços do minério saíram da faixa de US$ 20 a US$ 40 por tonelada no início dos anos 2000 e chegaram a superar US$ 150 a US$ 200 em alguns momentos.

A Vale estava em uma posição particularmente favorável para capturar esse movimento, segundo Uarian, por ser uma das maiores produtoras globais de minério de ferro de alta qualidade, ter custos competitivos e contar com uma estrutura logística integrada, com ferrovias e portos. A combinação permitiu à companhia ampliar os volumes produzidos enquanto os preços estavam em alta, elevando de forma significativa seus lucros e sua geração de caixa. O lucro líquido atingiu um dos maiores níveis da história em 2021, acima de R$ 120 bilhões.

A geração de caixa, por sua vez, ajudou a fortalecer o balanço e a remunerar os acionistas. Parte dos recursos foi direcionada para redução da dívida, pagamento de dividendos e investimentos, como o projeto S11D, além de projetos de cobre e níquel. “Mesmo depois do pico, a disciplina de capital se manteve: Capex controlado (orientação de longo prazo abaixo de US$ 6 bilhões), foco em retorno sobre capital investido e prioridade para remuneração ao acionista”, afirma o analista.

O histórico, porém, teve fortes interrupções. Os rompimentos das barragens de Mariana, em 2015, e principalmente de Brumadinho, em 2019, provocaram queda na produção e nas ações, além de bilhões de reais em provisões e forte pressão regulatória e judicial. O desastre de Brumadinho deixou 270 mortos e contribuiu para um prejuízo contábil da Vale em 2019.

Para Uarian, esses episódios ajudam a explicar por que o desempenho da ação pode parecer menos expressivo quando analisado em determinados períodos mais curtos.

“Esses eventos explicam por que, em janelas de 5 anos mais recentes, o retorno puro de preço às vezes fica mais modesto (ou até negativo em alguns momentos), enquanto o retorno total (com dividendos) se mantém positivo.”

A recuperação posterior, segundo ele, foi sustentada pela retomada gradual da produção, preços ainda relativamente firmes, avanço das reparações e controle de custos.

Ao longo dos anos, a estratégia da Vale também mudou. Se nos anos 2000 e no início da década de 2010 a prioridade era aumentar volumes para aproveitar o superciclo das commodities, depois dos acidentes a companhia passou a concentrar esforços em segurança de barragens, reparações e redução de estruturas de maior risco. Mais recentemente, a estratégia passou a priorizar a rentabilidade em vez de simplesmente ampliar a produção.

“Em vez de simplesmente produzir o máximo possível, a estratégia prioriza produtos de maior margem (minério de alto teor, pelotas e briquetes para siderurgia de baixo carbono), redução de custos e crescimento seletivo em cobre (energia renovável e eletrificação) e níquel. O programa Novo Carajás é um exemplo dessa visão de longo prazo”, diz Uarian. A companhia também vendeu ativos considerados não estratégicos e concentrou o portfólio em negócios nos quais possui vantagens competitivas.

Na frente de governança, a Vale também passou por mudanças importantes ao longo das últimas duas décadas, aceleradas principalmente após o rompimento da barragem de Brumadinho. Segundo Uarian, a empresa reforçou sua estrutura de governança com a criação e o fortalecimento de comitês voltados à sustentabilidade e à segurança, ampliou a participação de conselheiros independentes e assumiu o compromisso de evitar a repetição de tragédias como as de Mariana e Brumadinho.

Mesmo com episódios recentes de disputa societária, como a eleição do presidente do conselho em 2026 envolvendo a Previ, um dos principais acionistas da mineradora, o analista avalia que a companhia preservou o foco na operação e na alocação de capital.

Esse conjunto ajuda a explicar por que, apesar dos períodos de forte destruição de valor, o retorno acumulado no longo prazo foi elevado. “O crescimento abrupto em horizontes de 15-20 anos veio principalmente do superciclo de commodities + posição competitiva excepcional da Vale”, afirma o analista.

Os períodos de preços elevados geraram lucros e caixa suficientes para sustentar dividendos e valorização das ações, enquanto a recuperação operacional e a disciplina financeira ajudaram a reconstruir valor após as crises.

A característica cíclica do negócio, no entanto, continua sendo central para entender a ação. “A Vale é uma empresa cíclica de commodities de alta qualidade”, resume Uarian. “Quando o ciclo é favorável e a operação entrega, o caixa e o retorno ao acionista sobem de forma agressiva. Quando o ciclo vira ou ocorrem eventos operacionais graves, a correção também é intensa.”

Banco do Brasil, WEG, Ambev e Petrobras também tiveram saltos relevantes

Mas, antes de Vale, o melhor desempenho entre as empresas analisadas pela Economatica nos últimos cinco anos foi, em ordem, Petrobras (PETR4), +495%, Banco do Brasil (BBAS3), +103%, Weg (WEGE3), +48%, Ambev (ABEV3), +27%.

Em cinco anos, o patrimônio acumulado da Weg seria de R$ 14.832, Ambev (ABEV3) o valor final seria de R$ 12.708, e Petrobras, o investimento teria chegado a R$ 12.708.

Na outra ponta do ranking estão empresas do varejo. As ações da Lojas Renner (LREN3) acumularam queda de 51% no período, reduzindo um investimento de R$ 10 mil para R$ 4.919. O pior desempenho foi o do Magazine Luiza (MGLU3). Segundo a Economatica, um aporte de R$ 10 mil realizado há cinco anos teria encolhido para apenas R$ 268, o equivalente a uma perda de 97%.

Em horizontes mais longos, o levantamento mostra mudanças importantes no ranking. Em 20 anos, por exemplo, a Weg lidera com folga, acumulando valorização de 4.985%, suficiente para transformar R$ 10 mil em R$ 508.512. No mesmo período, Petrobras (1.005%), Ambev (1.028%), Banco do Brasil (874%) e Vale (802%) também multiplicaram diversas vezes o capital investido.

AutorRebecca Crepaldi
FonteExame
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