Quase todos os habitantes desta cidade são vizinhos; conheça o município que cabe em um único prédio
Whittier reúne quase toda a população em um único prédio, criando uma comunidade unida que supera o isolamento e o clima rigoroso.

Imagine não precisar sair de casa para encontrar outras pessoas, já que quase todos os moradores da cidade moram no mesmo endereço. Ou então resolver burocracias do dia a dia sem nem sequer colocar os pés na rua, a apenas um elevador de distância.
Essa é a realidade do pacato município de Whittier, no Alasca, Estados Unidos, onde o complexo residencial Begich Towers abriga cerca de 95% da população local.
Apelidada de "cidade sob o mesmo teto" e conhecida, segundo o seu próprio prefeito, como "a cidade mais estranha do Alasca", Whittier tem 262 moradores distribuídos ao longo de 14 andares do mesmo edifício.
O prédio conta com uma série de serviços essenciais para os moradores, como o departamento de polícia local, os correios, loja de conveniência, igreja e até um hotel de dois andares. Além disso, túneis subterrâneos conectam o complexo à escola e à ferrovia de entrada e saída de Whittier.
Em um local onde o isolamento e o clima severo impõem desafios, os habitantes desenvolveram um modelo de convivência único, marcado por um forte espírito comunitário — ainda que ele tenha surgido mais por necessidade do que por escolha.
Mesmo assim, permanece a pergunta: o que faz tantas pessoas escolherem viver ali?
A história da "cidade sob o mesmo teto"
A história de Whittier remonta à Segunda Guerra Mundial, quando a cidade foi construída para dar suporte ao sistema ferroviário do Alasca, a Alaska Railroad, e como uma base das operações militares americanas.
Como a região era de difícil acesso e enfrenta invernos rigorosos, tornando improvável o crescimento da cidade, o Exército dos Estados Unidos construiu dois edifícios residenciais para servir de alojamento: o Edifício Hodge e o Edifício Buckner .
O mais utilizado era o Buckner Building, abrigo para mais de 1.200 pessoas e para outros serviços da "cidade". Porém, já em 1960, o Exército transferiu suas operações para longe da região, o que culminou no abandono do Edifício Buckner.
Por sua vez, a torre Hodge conseguiu se safar desse fim. Foi convertido em um prédio residencial e renomeado para Condomínio Begich Towers, em homenagem ao deputado do Alasca Nick Begich Sr, que havia desaparecido em um voo na região e foi dado como falecido.
Após a saída dos militares, a Alaska Railroad assumiu o controle de quase todos os terrenos de Whittier. Como os moradores não são proprietários da maior parte dessas terras, a construção de novas casas é limitada, o que faz o Begich Towers o principal e quase único centro residencial da cidade.
E foi naquele momento que nasceu o sonho de um pequeno grupo: criar uma cidade como nenhuma outra.
A vizinhança aprova
Sob o mesmo teto, os moradores de Whittier se veem como uma grande família. Em entrevista ao jornal americano High Country News, um deles resumiu esse sentimento uma única frase: "todos moramos na mesma casa, só temos quartos separados".
Outra moradora disse que "Whittier amplifica o que as pessoas representam", e que "certamente nem todos nos amamos aqui, mas nos ajudamos e nos conectamos por causa do que quer que te atraia aqui."
Para muitos, a experiência de morar na cidade também representa uma resistência à modernidade, frequentemente associada à estrutura de cidades maiores.
Há muito tempo, o Begich Towers deixou de ser apenas um prédio residencial. Para os moradores de Whittier, ele representa uma comunidade unida pelas mesmas adversidades e pela necessidade de convivência.
Anna Dickason, esposa do prefeito da cidade, conhece bem esse espírito. "Sinto que isso nos tornou pessoas melhores. Não importa de onde você veio ou quanto dinheiro tem. Estamos todos aqui nesta cidade tentando fazer dar certo."
*Sob supervisão de Ricardo Gozzi.
