Quem é a gigante americana de 153 anos que acaba de fechar sua única fábrica no Brasil
Focada em louças, a Kohler nasceu de um bebedouro de cavalos esmaltado; agora, ancerra a produção em Andradas, Minas Gerais

No dia 31 de agosto, os funcionários da fábrica de louças sanitárias Kohler, de Andradas, no Sul de Minas, se preparavam para voltar de duas semanas de férias coletivas. Em vez do retorno à linha de produção, receberam o comunicado: a unidade estava fechada.
Mais de 400 empregos diretos foram fechados, e a marca Fiori, nascida na cidade em 1978, deixou de existir.
A empresa que tomou a decisão fica a 8 mil quilômetros dali, na vila de Kohler, Wisconsin.
E não é uma multinacional qualquer: é uma das companhias privadas mais antigas e mais peculiares dos Estados Unidos, com 153 anos de história, quatro gerações da mesma família no comando, mais de 30 mil funcionários e um portfólio que vai de vaso sanitário a resort cinco estrelas na Escócia.
Qual é a história da Kohler
A Kohler começou em 1873, no auge de uma depressão econômica que duraria cinco anos.
O austríaco John Michael Kohler, então com 29 anos, comprou com um sócio a fundição Sheboygan Union Iron and Steel do próprio sogro, o industrial Jacob Vollrath, por US$ 5 mil.
O negócio era fazer implementos agrícolas de ferro fundido: bebedouros, tachos de escaldar porcos, peças ornamentais para cemitérios.
O salto veio dez anos depois. Em 1883, Kohler pegou um bebedouro de cavalos, esquentou a peça a cerca de 930 °C e polvilhou pó de esmalte sobre o ferro fundido.
Colocou a foto do resultado no centro do seu catálogo de uma página e o descreveu, mais ou menos, como: um bebedouro/escaldador de porcos que, se equipado com quatro pés, também serve de banheira.
Serviu. Em 1900, a empresa já empregava mais de 250 pessoas e tirava 98% da receita de peças esmaltadas — banheiras, pias, bebedouros. John Michael morreu naquele mesmo ano, aos 56, pouco depois de começar a erguer uma fábrica nova a alguns quilômetros de Sheboygan, num vilarejo chamado Riverside. O lugar viraria a vila de Kohler.
Uma cidade da empresa
A Kohler não construiu apenas uma fábrica: construiu uma cidade planejada em volta dela, com casas, comércio e um dormitório para operários imigrantes inaugurado em 1918, o American Club.
Até hoje a companhia mantém um comitê que precisa aprovar reformas, cercas e puxadinhos das casas da vila antes que os moradores levem os projetos à prefeitura.
Esse paternalismo industrial tem o outro lado. A Kohler é um capítulo obrigatório da história sindical americana, com quatro greves — 1934, 1954, 1983 e 2015.
A de 1954 entrou para os registros como a greve mais longa da história dos Estados Unidos. Começou em 5 de abril daquele ano, depois que os trabalhadores trocaram o sindicato de fachada mantido pela empresa pelo United Auto Workers, e se arrastou por anos de piquetes, boicote nacional e batalhas jurídicas — o caso chegou a uma comissão do Senado, onde Robert Kennedy atuou como advogado.
A disputa só foi plenamente encerrada em 1965.
O homem que transformou vaso sanitário em objeto de desejo
A Kohler moderna é obra de Herbert V. Kohler Jr., neto do fundador. Ele entrou na empresa como técnico de P&D em 1965, recém-formado em Yale, e assumiu o comando em 1972, quando o faturamento era de US$ 133 milhões. Ficou 43 anos como CEO e 61 anos na companhia.
Sob Herb, a Kohler deixou de vender encanamento e passou a vender design. Foi ele quem convenceu executivos céticos a transformar o velho dormitório de operários no American Club, um resort de luxo, no fim dos anos 1970.
Depois veio o golfe: Blackwolf Run em 1988 e Whistling Straits em 1998, este último erguido sobre um aeroporto militar abandonado, à beira do Lago Michigan, com um rebanho de ovelhas escocesas Blackface pastando entre os buracos.
Os campos já receberam seis majors e a Ryder Cup de 2021. Na Escócia, Herb comprou o hotel ao lado do Old Course de St. Andrews e um campo vizinho, o Duke's.
Quando ele passou o bastão para o filho David, em 2015, a receita beirava US$ 6 bilhões. Herb morreu em 3 de setembro de 2022, aos 83 anos.
A virada para o luxo — e o que ela custou a Andradas
David Kohler, quarta geração da família, acelerou um movimento que explica boa parte do que aconteceu em Minas Gerais.
Em maio de 2024, a Kohler concluiu a venda do controle de sua divisão de energia (geradores e motores, um negócio centenário) para o fundo americano Platinum Equity. O braço foi rebatizado de Rehlko (anagrama de Kohler) e a família ficou apenas como sócia minoritária.
O valor não foi revelado.
A justificativa de David Kohler foi explícita: a operação permitiria à empresa "focar e investir" nos negócios globais de cozinha e banho, bem-estar e hospitalidade.
Na mesma direção, a companhia comprou a Kast, de cubas e pias de concreto, e a alemã Klafs, fabricante de saunas e banhos a vapor premium, cuja aquisição foi concluída em janeiro de 2024. Ambas foram para a divisão de marcas de luxo, ao lado de Ann Sacks, Kallista e Robern.
Traduzindo: a Kohler decidiu ser cara. E a fábrica de Andradas fazia justamente o oposto. Louça sanitária padrão, de menor valor agregado, num mercado brasileiro em que a briga é de preço, com Deca, Roca, Icasa e importados asiáticos.
Há ainda a geografia. Os Estados Unidos são o maior mercado da Kohler, e a empresa vem seguindo o movimento de nearshoring, abrindo fábricas no México, perto da fronteira americana. Uma delas com capacidade para 7 milhões de peças por ano.
Parte da produção de Andradas ia para o mercado americano, e as tarifas impostas por Washington às exportações brasileiras tornaram essa rota mais cara. Com o México e a Ásia abastecendo os EUA, a planta mineira perdeu função.
Em nota, a Kohler afirmou que a decisão "segue uma revisão completa do portfólio da marca" e reflete a necessidade de alinhar o negócio brasileiro à estratégia global, "direcionando investimentos para áreas com maior potencial de crescimento e diferenciação, especificamente o mercado de luxo".
Já a operação de varejo, com 33 lojas Kohler Signature no país, segue operando. A expectativa é chegar perto de 40 até o fim do ano.
E a Fiori?
A Fiori foi fundada em 1978, em Andradas, para fazer louças artísticas.
Só em 2000 entrou na produção de louças sanitárias. Em 2014, foi comprada pela Kohler, que usou a planta como porta de entrada no Brasil e, segundo a própria empresa, dobrou a capacidade instalada. Ao longo dos anos, a unidade recebeu mais de R$ 200 milhões em investimentos e chegou a empregar cerca de mil pessoas antes da pandemia.
