Quem é a gigante chilena que fatura R$ 10 bilhões no Brasil e comrpou a rede paulista St. Marche

A Cencosud anunciou nesta semana a compra de 100% da St. Marche, rede paulista de supermercados premium, num movimento combinado à recuperação judicial do supermercado de São Paulo.
Para o consumidor brasileiro, o nome do grupo chileno pode não dizer muito. Já as marcas que ele controla, sim.
GBarbosa, Prezunic, Perini, Mercantil Atacado e Giga Atacado fazem parte do mesmo dono, que em 2025 faturou cerca de 10 bilhões de reais no Brasil, segundo o ranking da Associação Brasileira de Supermercados (Abras).
Fora do país, a Cencosud é ainda maior.
O grupo opera em seis países e encerrou 2025 com receita de 17,4 bilhões de dólares, segundo balanço da companhia. São mais de 117 mil funcionários e cerca de 1.400 lojas, distribuídas entre supermercados, lojas de departamento, home centers e shopping centers.
A história começou bem longe desse tamanho.
Qual é a história da Cencosud
A Cencosud nasceu das mãos de Horst Paulmann, empresário alemão que emigrou com a família para a América do Sul depois da Segunda Guerra Mundial.
Os Paulmann passaram pela Argentina e se fixaram em Temuco, no sul do Chile, em 1950. Ainda adolescente, Horst trabalhou como telefonista e ajudou o pai a fazer brinquedos de madeira.
O primeiro negócio da família foi um restaurante. Foi dele que saiu o salto para o varejo: ao expor frutas na vitrine do estabelecimento, os irmãos Paulmann perceberam a demanda e abriram um supermercado. O passo decisivo veio em 1976, quando Horst inaugurou o primeiro hipermercado Jumbo, em Santiago. Com 4 mil metros quadrados, era o maior do Chile na época.
O sucesso do Jumbo deu origem à holding, formalmente constituída em 1978. Quatro anos depois, em 1982, a Cencosud iniciou sua expansão internacional pela Argentina.
Como foi o crescimento por aquisições
A partir dos anos 2000, a Cencosud se transformou em uma das maiores varejistas da América Latina à base de compras.
O grupo adquiriu redes como Disco, Vea e Makro na Argentina; Metro e Wong no Peru; e a operação do Carrefour na Colômbia. Ao mesmo tempo, diversificou para além dos supermercados, entrando em lojas de departamento, home centers e shopping centers.
No Brasil, a chegada foi em 2007, com a compra da GBarbosa, rede forte no Nordeste.
Vieram depois Bretas, Prezunic, Perini, Mercantil Atacado e, em 2022, o Giga Atacado, rede de atacarejo em São Paulo.
A aposta mais recente fora da região foi nos Estados Unidos: em 2022, o grupo comprou o controle da The Fresh Market, rede de supermercados premium eleita mais de uma vez a melhor dos EUA. Em 2025, a Cencosud completou a compra da fatia restante e passou a deter 100% da operação americana.
A morte do fundador e a nova fase
Horst Paulmannmorreu em março de 2025, aos 89 anos. Ele já havia deixado a presidência do grupo em 2021, mas sua morte marcou o fim de uma era para a companhia que ajudou a construir do zero. O comando ficou com os executivos que conduzem a estratégia atual, sob um plano que prioriza rentabilidade em vez de expansão a qualquer custo.
Essa virada ficou clara nos números de 2025.
A Cencosud encerrou 77 lojas no ano, concentrando o ajuste no Brasil e na Argentina, e vendeu ativos considerados menos rentáveis. No Brasil, o movimento mais relevante foi a venda da operação do Bretas em Minas Gerais — 54 supermercados — para os Supermercados BH, por 716 milhões de reais.
Por que a St. Marchê entra na conta
A compra da St. Marchê faz parte exatamente dessa lógica. Segundo a Cencosud, a aquisição será financiada pela realocação de capital dos desinvestimentos recentes. Em bom português, o dinheiro que entrou com a venda do Bretas ajuda a bancar a entrada no varejo premium de São Paulo.
O grupo troca, assim, lojas de atacarejo em Minas por uma rede de alto padrão no principal mercado consumidor do país.
A St. Marche opera 32 lojas no estado de São Paulo e arredores, incluindo o tradicional empório Santa Maria, e faturou mais de 1 bilhão de reais nos 12 meses encerrados em março de 2026, segundo a Cencosud.
A conclusão do negócio ainda depende da aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), órgão antitruste brasileiro, e da finalização de um processo de recuperação judicial em curso por parte do vendedor.
O desafio, agora, é manter de pé o que faz uma rede premium valer mais de 1 bilhão de reais: a fidelidade de um público restrito e exigente, que escolhe onde faz compras menos pelo preço e mais pela experiência.
