Quem é o casal que investiu R$ 28 milhões para criar hotel em Gramado que virou um dos melhores do mundo

Quando investiram R$ 28 milhões na construção de um hotel em Gramado (RS), Ana Clara Grings Tomazi e Jonas Caliari Tomazi não tinham experiência na operação hoteleira. Ainda assim, apostaram em um projeto altamente personalizado, inspirado na cultura francesa e centrado na experiência dos hóspedes. A aposta deu resultado.
Inaugurado em novembro de 2018, o Colline de France rapidamente passou a liderar os rankings de avaliação do TripAdvisor em Gramado. Em 2021, tornou-se o melhor hotel do mundo na plataforma e, na edição de 2026 do prêmio Travellers' Choice: Best of the Best Hotels, voltou a aparecer entre os destaques, sendo eleito o melhor hotel do Brasil, da América do Sul e o segundo melhor do planeta.
Agora, o casal prepara uma nova fase do negócio, com projetos em diferentes estados brasileiros e um modelo de expansão que busca preservar o padrão de atendimento que tornou o hotel conhecido.
Colline de France: uma mudança de vida
Antes de empreender na hotelaria, Clara construiu uma carreira bastante diferente. Biomédica de formação, com mestrado e trajetória voltada à pesquisa científica, ela acabou ingressando na empresa da família, a Calçados Piccadilly, fundada pelo avô.
Durante seis anos, atuou como diretora comercial, liderando uma equipe de mais de 100 pessoas e acompanhando operações internacionais da fabricante de calçados.
Segundo a empreendedora, o desgaste culminou em um burnout e despertou o desejo de construir uma rotina diferente, na qual pudesse trabalhar ao lado do marido.
Jonas, por sua vez, atuava como corretor de imóveis e captador de investidores. Além disso, já conhecia o setor hoteleiro por influência da família, que havia administrado hotéis quando ele era criança.
A oportunidade surgiu a partir de um terreno pertencente ao pai de Jonas, em Gramado. O casal percebeu que a área reunia boas condições para construção e decidiu investir no projeto. Outro potencial era que a cidade já é bastante reconhecida pelo turismo e pela qualidade de sua rede hoteleira, tornando o segmento atrativo para novos empreendimentos.
Mas havia uma condição: o novo negócio precisava ser financeiramente viável para substituir duas carreiras consolidadas.
“Eu também tinha a vontade de criar uma empresa que refletisse um propósito mais humano, focado no acolhimento e na construção de experiências memoráveis para os hóspedes”, conta a empreendedora em entrevista ao Seu Dinheiro.
Um hotel inspirado na França
O conceito do Colline de France nasceu da paixão do casal pela arquitetura clássica.
“Embora Gramado tenha forte influência europeia, percebi que predominavam hotéis inspirados nas culturas alemã, italiana e suíça. A temática francesa, por outro lado, ainda não havia sido explorada”, afirma.
A escolha também dialogava com a proposta do empreendimento.
Como o casal queria construir um hotel associado ao romantismo e ao acolhimento, Paris e a cultura francesa acabaram servindo como referências naturais para o projeto.
O investimento, porém, ficou bem acima do previsto inicialmente. A estimativa era gastar entre R$ 12 milhões e R$ 14 milhões, mas a obra foi concluída com um aporte total de R$ 28 milhões.
Mesmo sem experiência prática na operação de um hotel, Clara reconheceu desde o início a necessidade de formar uma equipe especializada.
Antes mesmo da inauguração, o casal contratou um gerente experiente para estruturar a operação e garantir que áreas técnicas, como governança, funcionassem dentro do padrão esperado.
“Outro princípio definido desde o começo foi que todos os hóspedes receberiam exatamente o mesmo nível de atendimento, independentemente da categoria da suíte escolhida”, diz a empreendedora.
A ideia surgiu da insatisfação de Clara com experiências vividas em outros hotéis, onde percebia diferenças no tratamento oferecido conforme o valor pago pela hospedagem.
A ciência por trás da experiência
Se a ideia era criar um hotel diferente, Clara buscou inspiração em uma área que conhecia bem: a ciência.
A experiência como biomédica e pesquisadora fez com que ela levasse para a hotelaria conceitos relacionados ao comportamento humano e à formação de memórias.
"Existem milhares de estudos que comprovam que nós só memorizamos de fato algum momento da nossa vida se ele nos gerou alguma emoção, seja positiva ou negativa. Então, se eu quero ser inesquecível, eu tenho que gerar emoção na pessoa."
Essa filosofia orientou a criação de experiências sensoriais ao longo da hospedagem, explorando elementos visuais, auditivos, olfativos e afetivos.
Segundo Clara, a inspiração também veio das inúmeras viagens que fez quando trabalhava na Piccadilly. Ao visitar hotéis ao redor do mundo, ela e Jonas passaram a observar o setor pela perspectiva do cliente, identificando o que funcionava — e, principalmente, o que não funcionava — para aplicar no próprio empreendimento.
Outro aprendizado veio da própria experiência no mercado corporativo. Acostumada a uma rotina focada em metas e negociações, Clara afirma que encontrou na hotelaria uma dinâmica completamente diferente.
"No hotel, quando o hóspede chega, ele já pagou a hospedagem. A equipe não precisa vender nada. Ela só precisa fazer o melhor atendimento possível."
Essa mudança de mentalidade também influenciou a cultura interna do Colline de France, que passou a priorizar relações mais próximas entre funcionários e hóspedes.
O reconhecimento veio rápido
O Colline de France foi inaugurado em 15 de novembro de 2018.
Pouco mais de dois meses depois, em janeiro de 2019, já ocupava a primeira posição entre os hotéis mais bem avaliados de Gramado no TripAdvisor.
Apesar do desempenho, o empreendimento ainda não podia disputar as principais premiações da plataforma, já que uma das regras do TripAdvisor impedia que hotéis com menos de dois anos de funcionamento fossem elegíveis ao prêmio, como forma de reduzir o risco de fraudes.
Assim que cumpriu esse período mínimo, o Colline de France conquistou o principal reconhecimento da plataforma. Em 2021, foi eleito o melhor hotel do mundo pelo TripAdvisor — um resultado que, segundo Clara, surpreendeu até os próprios fundadores.
O desempenho se manteve nos anos seguintes. Na edição de 2026 do Travellers' Choice: Best of the Best Hotels, o hotel apareceu novamente entre os destaques, sendo eleito o melhor do Brasil, o melhor da América do Sul e o segundo melhor hotel do mundo.
Expansão com foco em exclusividade
Com a operação consolidada em Gramado, o casal decidiu dar início à expansão da marca Colline de France. A ideia é manter empreendimentos de pequeno porte, voltados ao público de alto padrão e inspirados na cultura francesa, mas com uma identidade própria em cada destino.
Em vez de repetir o mesmo projeto, cada unidade fará referência a uma época ou região diferente da França.
Ao mesmo tempo, a empresa pretende crescer de forma seletiva, priorizando mercados considerados estratégicos e preservando o padrão de atendimento que tornou o hotel conhecido.
Segundo Clara, as oportunidades surgiram de maneira natural, a partir de parceiros interessados em levar a marca para outras cidades.
Outro diferencial da estratégia é o modelo de negócios adotado em parte dos novos empreendimentos.
Em alguns projetos, a construção do hotel será viabilizada pela venda de apartamentos de uma torre residencial integrada ao complexo. Os moradores poderão utilizar alguns serviços do hotel, como governança e café da manhã, no sistema pay-per-use.
"A construção do hotel se dá através da venda do residencial. Ou seja, o hotel vai ser construído com o dinheiro da venda do residencial. É uma estratégia inteligente para a gente não tirar dinheiro do bolso para construir o hotel."
Os próximos destinos
O primeiro projeto fora do Rio Grande do Sul está em Miguel Pereira (RJ). O empreendimento terá um hotel com 40 apartamentos inspirado na arquitetura Art Déco da década de 1920. Ao lado dele serão construídas duas torres residenciais, com 30 apartamentos cada, além de duas mansões suspensas nas coberturas. A previsão aproximada de conclusão é 2028.
Em Balneário Camboriú (SC), o plano é construir um hotel de cerca de 12 mil metros quadrados, também integrado a uma torre residencial. Inspirado no período neoclássico francês, o projeto tem investimento estimado em R$ 350 milhões e deve passar pelo processo de aprovação entre o fim de 2026 e o início de 2027.
A marca também chegará a São Joaquim (SC) por meio do licenciamento do nome Colline de France para um condomínio fechado voltado à enologia, desenvolvido em parceria com a vinícola Quinta da Neve.
Inspirado na região francesa da Borgonha, o empreendimento não terá operação hoteleira. Segundo Clara, a decisão foi tomada porque a cidade ainda não dispõe da mão de obra necessária para oferecer o padrão de atendimento que a marca considera essencial.
Outro projeto previsto é um hotel de pequeno porte em Araçoiaba da Serra (SP), inspirado na Provence. Diferentemente dos empreendimentos de Miguel Pereira e Balneário Camboriú, esse projeto não contará com uma torre residencial.
Embora os formatos sejam diferentes, todos os empreendimentos seguirão o mesmo princípio que norteou a criação do Colline de France em Gramado: oferecer uma experiência centrada no atendimento e na criação de memórias.
Para Clara, esse continuará sendo o principal diferencial da marca, mesmo com a expansão.
"Nós estamos caminhando no sentido oposto [da inteligência artificial]. Estamos trazendo essa parte humana de volta, porque percebemos que essa lacuna ficou realmente na vida da maioria das pessoas."
