Quem está com medo da inteligência artificial — e onde o Brasil entra na nova corrida tecnológica, segundo Ruy Alves

Até pouco tempo atrás, a discussão sobre inteligência artificial (IA) parecia restrita a roteiros de ficção científica. No entanto, desde que os novos modelos de linguagem chegaram ao mercado, em 2022, o cenário mudou. O que antes era uma ferramenta para responder e-mails rapidamente, agora ameaça redefinir profissões inteiras, gerando uma corrida global por produtividade que ninguém deve ignorar.
Para Ruy Alves, sócio e cogestor da Kinea, essa explosão não foi por acaso. Há anos as empresas de tecnologia vêm trabalhando nesses modelos e o que aconteceu agora foi a convergência de fatores. "A inteligência artificial é mais ou menos igual ao fogo: se você colocar madeira suficiente, oxigênio e elevar a temperatura, vai queimar".
O aspecto mais impressionante dessa evolução é a chamada janela de contexto, diz o gestor, que é a quantidade de informação que a máquina consegue "manter na cabeça" para resolver um problema.
No início, a IA se concentrava por poucos segundos. Hoje, ela já consegue carregar o equivalente a dez livros simultaneamente para tomar uma decisão — o que já significa uma janela de contexto de minutos. Para Alves, o avanço é exponencial e inevitável.
Segundo ele, em breve passaremos para semanas de concentração da IA, atingindo um nível de superinteligência que deve transformar a economia global.
Revolução do trabalho
Essa nova realidade não deve trazer o lazer prometido pelas utopias tecnológicas do passado, mas sim um mundo onde a competição será levada ao extremo.
Alves observa que indivíduos criativos e focados estão ficando de 10 a 100 vezes mais produtivos porque agora possuem o que ele chama de "escravos digitais": sistemas de IA que trabalham 24 horas por dia, sete dias por semana, sem interrupções para descanso ou café.
No novo mercado, a sobrevivência dependerá da capacidade de liderar pessoas e usar essas ferramentas para resolver problemas reais da sociedade, em vez de se perder em burocracias de escritório.
O impacto será direto em tarefas intelectualmente desinteressantes. Alves aponta que a IA tende a substituir funções em call centers, pesquisas jurídicas básicas e até a organização de depósitos logísticos. No entanto, ele vê isso como um processo positivo para o ser humano.
Até então, a tecnologia era desenvolvida com o objetivo de tirar o homem de trabalhos repetitivos e braçais. Agora, as pessoas serão liberadas para áreas onde a produtividade estagnou, como a saúde e o cuidado pessoal.
IA no Brasil
Alves é cético quanto ao Brasil se tornar um polo de IA apenas por ter energia limpa ou infraestrutura de data centers.
O gestor destaca como a bolsa de valores do país é "anti-tech", composta predominantemente por commodities e bancos, sem qualquer empresa de tecnologia relevante.
Além disso, há os desafios estruturais: segurança jurídica e questões políticas que impedem o país de ganhar nessa frente apenas com data centers. A transformação real dependeria de uma agenda profunda de educação, regulamentação e abertura comercial.
Para Alves, a velocidade da transição exigirá retreinamento e adaptação social acelerada — no Brasil e em outros países.
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Touros e Ursos
Nesta edição, um dos Touros (destaques positivos) foram as commodities agrícolas. Alves falou que espera um novo ciclo de alta para as commodities após anos de preços baixos que prejudicaram o produtor brasileiro.
Outro touro foi a bolsa da Coreia do Sul, celebrada por seus recordes na onda dos ganhos de fabricantes de chips como a Samsung, que agora integra o seleto grupo das empresas trilionárias.
No campo cultural, teve um touro especial para a produtividade de Paul McCartney. O músico de 83 anos lançou um novo disco, demonstrando um propósito de criação que a IA ainda não consegue replicar.
No lado dos Ursos (destaques negativos), o Ibovespa foi o grande vilão do mês, registrando 7% de queda enquanto o mercado global subia — reflexo de ser uma bolsa "antitecnologia" em um ano dominado por IA.
