Quem paga a conta? Para diretor da FAO, esse é o principal desafio da transição climática no campo
Com mais de duas décadas dedicadas a políticas agrícolas, David Laborde destaca à EXAME que “não dá para ser verde se está no vermelho” e que a sustentabilidade depende de renda no curto prazo

Quando fala com produtores rurais e empresas sobre como avançar na transição climática, David Laborde, diretor da Divisão de Economia Agroalimentar e Políticas da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), ouve sempre o mesmo contraponto: não dá para ser verde se está no vermelho.
"Se você não ganha dinheiro, pensar em sustentabilidade de longo prazo não é prioridade", disse Laborde em entrevista exclusiva à EXAME, durante a SP Climate Week, em evento da World Climate Foundation.
Há três anos no braço da ONU e com mais de 20 anos de experiência em políticas agrícolas, alimentares e de comércio, o economista francês conta que participou de sua primeira COP do clima nos anos 2000, mas só voltou em 2023, quando a pauta de alimentação e agricultura ganhou mais espaço nas discussões. "Finalmente entramos na conversa", destacou.
Hoje, ele entende que o setor ocupa um lugar central e ainda pouco compreendido na geopolítica global: segurança energética, hídrica, alimentar e nacional passam, de alguma forma, pelo campo. "Você não produz sem água, não move comida sem energia", exemplificou.
É a tensão financeira entre o hoje e o amanhã, segundo ele, que trava o avanço da agenda climática. De um lado, produtores precisam sustentar a família e sobreviver à próxima safra. Do outro, o custo de não agir se acumula silenciosamente, e será cobrado, mais cedo ou mais tarde, de todo mundo. No fim do dia, o maior desafio é "quem paga a conta", defendeu.
"Se você foca só no curto prazo, especialmente com um modelo muito extrativista que destrói o solo, a floresta e contamina a água, você ganha dinheiro agora, mas vai perder muito mais lá na frente", exemplificou.
Para Laborde, resolver essa equação passa por mudar o momento em que o retorno de práticas sustentáveis e regenerativas aparece no bolso de quem produz.
"O que queremos resolver é encontrar uma forma de pagar as pessoas hoje para proteger o amanhã", afirmou.
Ele cita dois caminhos concretos. O primeiro é o pagamento por serviços ecossistêmicos: como esquemas ligados à água, em que manter a floresta em pé passa a gerar renda direta, porque ela funciona como infraestrutura hídrica.
O segundo é o custo do crédito: para Laborde, a taxa de juros é, na prática, "o preço do futuro", e propriedades com boas práticas deveriam ser tratadas pelo sistema financeiro como menos arriscadas — o que se traduziria em juros mais baixos.
É o caso da experiência de países que já usam finanças concessionais, com empréstimos subsidiados pelo governo para quem adota e investe na agricultura regenerativa.
Mas nada disso substitui a urgência do curto prazo, pondera o diretor da FAO. "Precisamos garantir que as pessoas ganhem dinheiro suficiente hoje para se importar com o futuro. Caso contrário, elas só querem sustentar a família e sobreviver à próxima safra."
O Brasil como exemplo de agricultura regenerativa
Questionado sobre a liderança do Brasil em soluções baseadas na natureza e conservação, Laborde destacou que o país está bastante avançado. Ele lembra que, desde a Rio-92, o país acumulou avanços em políticas ambientais e destaca o Código Florestal brasileiro como uma tentativa de equilibrar produção e proteção ambiental. Mas reconhece que parte do desafio ainda está na implementação e nos recursos para fazer a lei funcionar na prática.
"De modo geral, o Brasil consegue manter floresta, biodiversidade e ainda assim produzir mais. Isso mostra que é possível", disse.
Sobre biocombustíveis, área em que é referência global, Laborde pondera que a inovação brasileira ainda representa uma fatia pequena diante do total das opções energéticas disponíveis. Para ele, o próximo passo é provar que essas soluções reduzem o custo de produção.
Um dos exemplos bem-sucedidos citado por ele é o uso de inoculantes no campo, que reduz a necessidade de fertilizantes.
O preço da inação e quem paga a conta
Se a transição tem custo, a inação cobra um preço ainda maior — e mais difícil de calcular, porque aparece anos depois de a decisão ter sido tomada.
Segundo um relatório recente da FAO, os custos ocultos dos sistemas agroalimentares mundiais chegam a US$ 15 trilhões por ano.
O argumento se conecta a outro dado: mais de um terço da população mundial não consegue pagar por uma dieta saudável, uma situação que custa 8,2 trilhões de dólares por ano ao mundo e está associada a quase 12% de todas as mortes anuais.
"O preço da comida é visível hoje. O custo de dietas não saudáveis costuma se materializar anos depois, por meio de menos oportunidades econômicas", disse Laborde.
Esse descompasso entre o custo visível hoje e o impacto que se acumula no futuro também aparece no estudo mais recente da FAO sobre segurança alimentar, divulgado em julho em parceria com FIDA, OMS, PMA e Unicef.
O levantamento estima que 645 milhões de pessoas passaram fome em 2025, o que representa 7,8% da população mundial. É a terceira queda anual consecutiva, mas ainda distante da meta de Fome Zero até 2030.
A África concentra hoje o maior número absoluto de pessoas em situação de fome, com 309 milhões, seguida pela Ásia, com 292 milhões, em um cenário de crescimento populacional acelerado.
Outro dado do estudo mostra que o custo de uma dieta saudável subiu para US$ 4,28 por pessoa por dia em paridade de poder de compra em 2025, ante US$ 3,44 em 2021. Entre 70% e 75% desse valor vem de etapas pós-produção, como processamento, logística e distribuição, e não da produção agrícola em si.
Os números reforçam uma conclusão que atravessa a análise de Laborde: parte da solução está menos em simplesmente produzir mais e mais em tornar as cadeias de valor mais eficientes e sustentáveis.
É essa combinação de soluções que compensam no longo prazo e custam caro no curto prazo, que Laborde considera o principal obstáculo à transição climática hoje.
"Ninguém vai pagar a conta inteira sozinho. O consumidor não vai pagar, nem as empresas ou governos", sustentou. "Precisamos reunir todos esses atores para dividir a conta."
Na visão do diretor da FAO, isso significa bancos reduzindo taxas de juros para práticas sustentáveis, governos oferecendo subsídios, empresas investindo capital próprio e consumidores mais ricos pagando um pouco mais por determinados produtos.
"Quando algo é novo, é mais caro. Depois de dez anos, fica mais barato. Precisamos colocar a máquina para funcionar", frisou.
A alternativa, segundo ele, é adiar um custo que só cresce com o tempo. "Se você não paga agora para proteger a natureza, a conta no futuro vai ser muito maior. Vai ter empresa que vai à falência, parte do país que não vai conseguir produzir mais nada", disse Laborde.
No fim, a conta da inação não desaparece: apenas muda de mãos. E, para o economista, quem mais paga por ela é a próxima geração.
