Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
InvestMercados
22/08/2026
5 min

Quem são as farmacêuticas que produzem 'cópias' do Mounjaro no Paraguai

Mercado paraguaio reúne ao menos seis fabricantes de tirzepatida com preços bem abaixo dos praticados no Brasil

Quem são as farmacêuticas que produzem 'cópias' do Mounjaro no Paraguai

Enquanto a Eli Lilly detém no Brasil a patente da tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, ao menos seis grupos do Paraguai fabricam e comercializam versões próprias do medicamento de forma legal, com preços que podem ficar muito abaixo dos praticados no mercado brasileiro.

A diferença entre os dois mercados está ligada ao princípio da territorialidade das patentes. Segundo o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), a proteção concedida por uma patente é limitada aos países onde ela foi solicitada e concedida.

Uma empresa pode requerer patente apenas em alguns países e, ao obter a concessão, a proteção e exclusividade da farmacêutica sobre o medicamento vale apenas nestes países. Nos outros territórios, outras companhias locais podem produzir e vender sem que isso signifique infração da patente.

Mas atenção: quando esses medicamentos atravessam a fronteira para o Brasil sem o devido registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), passam a ser classificados legalmente como contrabando. A entidade sanitária brasileira alerta, ainda, para riscos de saúde em relação ao uso de remédios sem autorização.

Quem são as farmacêuticas que vendem tirzepatida no Paraguai

No Paraguai, a produção de medicamentos é fiscalizada pela Dirección Nacional de Vigilancia Sanitaria (Dinavisa). A fabricação de versões da tirzepatida está concentrada em pelo menos seis grupos farmacêuticos, em sua maioria empresas familiares tradicionais.

Elas atuam com marcas diferentes e também apostam em apresentações que vão de frascos-ampola a canetas aplicadoras. Até o momento, a Dinavisa não respondeu aos pedidos de comentário da EXAME.

1. Indufar CISA - T.G.

Fundado em 1973, o Indufar é um dos laboratórios tradicionais do Paraguai. Com mais de 50 anos de atuação, desenvolveu a marca T.G. Os produtos lá são vendidos em frascos-ampola para fracionamento individual ou em conjuntos com seringas descartáveis.

2. Éticos Scavone - Lipoless

Integrante do Grupo Scavone, um dos grupos tradicionais da indústria farmacêutica paraguaia, a Éticos lançou o Lipoless, voltado a terapias de controle de peso e diabetes. A empresa comercializa o produto em frascos-ampola e em dispositivos de aplicação, como as canetas MD Pen e One Click.

3. Quimfa S.A. - Tirzec

Com mais de 65 anos, a Quimfa ampliou seu portfólio, que inclui medicamentos respiratórios e sintomáticos, para especialidades como cardiologia e endocrinologia. A tirzepatida é comercializada em caixas com ampola e também na versão em caneta aplicadora automatizada Tirzec Pen.

4. Laboratorios Catedral - Tirzedral

Parte do Grupo Catedral, que atua em diferentes etapas da cadeia de saúde no Paraguai, a Laboratorios Catedral comercializa a tirzepatida sob a marca Tirzedral. A apresentação inclui caixas com quatro seringas pré-preenchidas para doses semanais.

5. Vicente Scavone & Cia. - Gluconex

Outro braço histórico da família Scavone, a Vicente Scavone & Cia. foi pioneira na produção industrial de medicamentos no Paraguai. A empresa comercializa tirzepatida sob a marca Gluconex. O produto é vendido em embalagens com quatro frascos-ampola ou seringas dosadas.

6. Landerlan - Lipoland

Conhecida na América Latina por sua linha de produtos hormonais e sintéticos, a Landerlan também passou a atuar no segmento metabólico com a marca Lipoland.

Quanto custa a tirzepatida das farmacêuticas paraguaias?

O preço é um dos principais diferenciais das versões paraguaias. Uma consulta aos catálogos de redes como Farmácia Catedral, Punto Farma e Farmacia Columbia mostra que as farmacêuticas locais oferecem diferentes doses e apresentações por valores inferiores aos do Mounjaro vendido no Brasil.

Entre os produtos encontrados estão o Gluconex, da Vicente Scavone, de 2,5 miligramas (mg) por Gs. 260.000 ou R$ 223,64. Na versão de 7,5 mg, o preço é de Gs. 319.000, cerca de R$ 338,25; e 15 mg custa Gs. 539.000 ou R$ 463,62.

No caso do Tirzedral, da Catedral, 2,5 mg saem por Gs. 260.000, aproximadamente R$ 223,64. A versão de 15 mg varia de Gs. 549.450 a Gs. 999.000, algo entre R$ 472,60 e R$ 859,28.

As versões das farmacêuticas paraguaias variam de, no geral, R$ 230 a R$ 900. Na comparação com o Brasil, o Mounjaro oficial custa entre R$ 1.300 e R$ 3.000 por mês, dependendo da dose.

De acordo com dados do Itaú BBA, o tratamento alternativo importado costuma custar 45% menos que o medicamento oficial de marca. A diferença ajuda a explicar por que as versões produzidas no Paraguai ganharam espaço entre consumidores brasileiros, mesmo não sendo autorizadas no país.

Preço vira arma comercial para as farmacêuticas paraguaias

A diferença de preços também virou uma estratégia comercial para os laboratórios paraguaios. Uma fonte do setor ouvida sob condição de anonimato disse que as empresas passaram a adotar ações voltadas diretamente ao público brasileiro, explorando justamente a diferença de preço em relação ao Mounjaro.

"Entre elas estão viagens com influenciadores brasileiros, facilidades de pagamento por Pix ou por contas bancárias brasileiras e vendas na fronteira", detalhou a fonte à EXAME.

Anvisa alerta para riscos de produtos sem registro

Além da questão regulatória, a circulação de versões não registradas levanta preocupações relacionadas à segurança dos pacientes. A Anvisa e especialistas alertam que medicamentos sem certificação sanitária podem representar riscos.

O órgão ressalta que o registro de um medicamento no Brasil "não é mera formalidade, mas um processo de avaliação complexo e aprofundado que visa garantir aos usuários eficácia, segurança e qualidade." O uso sem essa avaliação 'pode acarretar desde o não efeito prometido até eventos adversos graves."

A tirzepatida é uma molécula proteica complexa, e problemas no processo de fabricação podem provocar impurezas e imunogenicidade. Um estudo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) realizado com amostras paraguaias encontrou variações de 20% a 60% na concentração do princípio ativo.

A Eli Lilly também afirmou acompanhar com preocupação a venda clandestina de produtos sem aprovação. A companhia destacou que o Mounjaro foi aprovado pela Anvisa após um programa clínico com mais de 20 estudos e 30 mil participantes.

A farmacêutica disse ainda apoiar as autoridades brasileiras no combate ao mercado ilegal, com o objetivo de proteger pacientes de potenciais danos.

AutorAna Luiza Serrão
FonteExame
Distribuído por