Quem são os 2 milhões de brasileiros que trabalham por aplicativo — e quanto eles ganham
Levantamento do IBGE mostra que 2 milhões de brasileiros vivem do trabalho por plataformas digitais, a maioria homens que dirigem ou entregam por app.

O trabalho por aplicativo deixou de ser um fenômeno marginal na economia brasileira. Segundo dados da PNAD Contínua, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 2 milhões de pessoas realizavam algum tipo de trabalho por meio de plataformas digitais de serviços em 2025, seja como ocupação principal ou secundária.
O número equivale a 1,9% do total de 102,4 milhões de pessoas ocupadas no país.
Desse total, a grande maioria, 1,8 milhão, tinha o trabalho por aplicativo como sua principal fonte de renda. Outras 182 mil pessoas usavam esses apps como atividade secundária, e cerca de 28 mil conciliavam plataformas tanto no trabalho principal quanto no extra.
Olhando apenas para o trabalho principal no setor privado, os plataformizados somam 2,0% dos 89,6 milhões de trabalhadores do setor.
É uma fatia ainda pequena, mas em expansão acelerada: o contingente cresceu 36,8% em relação a 2022 e 9,1% na comparação com 2024.
Com o que trabalham?
Entre os trabalhadores que usavam aplicativos para trabalhar, a maioria atuava no transporte de passageiros: 1,2 milhão de pessoas, o equivalente a 58,9% do total. Dessas, 232 mil utilizavam aplicativos de táxi e 1,1 milhão trabalhava com aplicativos de transporte de passageiros diferentes de táxi, como Uber.
Em seguida, estavam os aplicativos de entrega de comida e produtos, usados por 585 mil pessoas (29,9%), das quais 376 mil eram entregadores. Já os aplicativos de prestação de serviços gerais ou profissionais eram usados por 313 mil trabalhadores, 16% do total de pessoas que trabalhavam por meio de plataformas digitais de serviços.
Rotina do trabalho por app
A rotina desse trabalhador também chama atenção. Em média, quem trabalha por aplicativo cumprejornada de 44,7 horas semanais, 5,4 horas a mais que os demais ocupados do setor privado, que trabalham 39,3 horas.
Apesar da carga horária mais longa, a relação com as plataformas nem sempre é exclusiva: 62,7% dos plataformizados (1,1 milhão de pessoas) trabalham só por meio de aplicativos, enquanto 37,3% conciliam essa atividade com outras formas de trabalho.
Ainda, a maioria se concentra em um único aplicativo. Entre os que trabalham para plataformas, 62,5% usam apenas um app, 30,0% recorrem a dois e só 7,5% trabalham com três ou mais.
Quando se cruzam as duas informações (exclusividade e número de plataformas), o retrato mostra dependência elevada: 38,8% do total trabalham de forma exclusiva e com um único aplicativo.
Por que essas pessoas escolhem esse tipo de trabalho? A pesquisa perguntou pela primeira vez em 2025, e a resposta mais comum foi a flexibilidade, citada por 26,8% dos entrevistados.
Logo atrás, porém, aparece um motivo menos otimista:
- 24,6% disseram recorrer aos aplicativos porque não conseguiram encontrar outro trabalho;
- 20,8% consideram o rendimento financeiro do aplicativo maior do que em outras oportunidades disponíveis;
- 16,6% buscam complementar a renda
- 4% querem ganhar experiência ou ampliar a rede de contatos profissionais.
Qual o perfil do trabalhador por app?
O trabalhador por aplicativo no Brasil tem um perfil bastante definido: é homem, jovem e com escolaridade intermediária.
Os homens são 84,4% dos plataformizados, contra apenas 15,6% de mulheres. Em relação à idade, a faixa de 25 a 39 anos concentra 47,0% dos trabalhadores por aplicativo. É, portanto, um grupo majoritariamente jovem e em início ou meio de carreira.
Já a escolaridade revela um contraste em dois sentidos. De um lado, prevalecem pessoas com nível médio completo ou superior incompleto: 62,5% de quem trabalha por meio de aplicativos estão nessa faixa, contra 45,3% entre quem não trabalha por app. De outro lado, os dois extremos da escolaridade estão sub-representados nesse grupo.
Pessoas com ensino superior completo somam só 15,2% daquelas que trabalham via app, abaixo dos 20,0% do total de ocupados do setor privado.
No outro extremo, quem não tem instrução ou possui apenas o fundamental incompleto representa apenas 8,3% dos plataformizados, uma fatia bem menor que os 20,3% observados entre os não plataformizados e os 20,0% do total da população ocupada.
Quanto ganha um entregador de app?
Em termos de renda mensal, o trabalho por aplicativo praticamente empata com o restante do mercado: o rendimento médio mensal real deles foi de R$ 3.147 em 2025, contra R$ 3.148 entre os não plataformizados.
Na comparação com 2024, porém, os entregadores ficaram estagnados, enquanto o rendimento dos demais trabalhadores do setor privado cresceu 4,1%.
O retrato muda quando a escolaridade entra na conta. Entre quem tem ensino superior completo, os entregadores/motoristas ganham R$ 5.133 em média, 20,2% menos que os R$ 6.432 recebidos por quem tem a mesma formação fora dos aplicativos.
O dado que melhor expõe a distorção real é o rendimento por hora trabalhada. Como a jornada dos plataformizados é bem mais longa, o rendimento-hora médio é de R$ 16,2, o que significa 12,0% a menos que os R$ 18,4 por hora dos demais.
Ou seja, para chegar a uma renda mensal parecida com a de quem não trabalha por app, o trabalhador de plataforma precisa trabalhar mais horas.
A proteção social é outro ponto sensível. Enquanto 62,4% dos ocupados do setor privado contribuíam para a previdência em 2025, entre os trabalhadores de app esse índice cai para 34,0%.
Entre as categorias específicas, os condutores de automóveis por aplicativo (motoristas de transporte particular e táxi) somavam 905 mil pessoas em 2025, 45,9% do total de 2,0 milhões de condutores de automóveis do país.
Eles ganhavam, em média, R$ 2.873 por mês, R$ 68 a mais que os não plataformizados (R$ 2.805), mas trabalhando 45,9 horas semanais, contra 40,4 horas dos demais.
No cálculo por hora, o rendimento dos motoristas de app (R$ 14,4) fica abaixo do demais (R$ 16,0). Apenas 25,5% desses motoristas contribuíam para a previdência, ante 59,2% dos que não usam aplicativo.
Já os condutores demotocicleta por aplicativo, entre eles motoboys e entregadores, somavam 405 mil pessoas, 34,4% de um total de 1,2 milhão de motociclistas no país. Aqui a renda mensal é 23,3% maior entre os plataformizados (R$ 2.221 contra R$ 1.802), e mesmo por hora trabalhada eles levam vantagem, R$ 11,4 contra R$ 10,1, uma diferença de 12,9%.
Ainda assim, a cobertura previdenciária é a menor entre todas as categorias analisadas: apenas 19,4% dos motociclistas que trabalham via app contribuíam, contra 37,1% dos não plataformizados.
Desafios de trabalhar em aplicativos?
Além da renda menor por hora e da baixa proteção previdenciária, o trabalhador de aplicativo enfrenta um grau relevante de dependência em relação às plataformas, que decidem desde o valor recebido até com quem ele vai trabalhar. Esta varia bastante conforme o tipo de atividade.
Motoristas de transporte particular de passageiros, exceto táxi, e entregadores são os mais dependentes: 80,2% dos motoristas e 78,3% dos entregadores afirmam que o valor recebido pelo serviço é totalmente determinado pela plataforma.
Entre os entregadores, mais de 70% também dizem que a escolha de quais clientes atender e a forma de recebimento do pagamento são definidas integralmente pelo aplicativo.
A jornada de trabalho também é influenciada pelas regras das plataformas, ainda que a liberdade de escolha de horários apareça como o fator mais citado.
Entre os motoristas de transporte particular (exceto táxi), 81,1% dizem que a jornada é influenciada pela possibilidade de escolher dias e horários livremente.
Mas 56,3% também relatam influência de incentivos, bônus ou promoções que alteram os preços, 28,1% mencionam sugestões de turnos feitas pela própria plataforma, e 25,3% dizem sofrer influência de ameaças de punição ou bloqueio da conta.
Entre taxistas, incentivos e bônus moldam a rotina de 50,1%, e entre entregadores, de 47,4%.
As ameaças de punição ou bloqueio, por sua vez, afetam mais de 20% tanto de taxistas quanto de entregadores, um lembrete de que, apesar do discurso de flexibilidade que atrai boa parte desses trabalhadores, o controle sobre a rotina de trabalho segue, em grande medida, nas mãos das plataformas.
