Quem será a ‘nova China’ do agro brasileiro quando o apetite de Pequim acabar? Para FAO, há dois caminhos
A busca da China por maior autossuficiência alimentar levanta uma questão cada vez mais presente entre produtores e investidores: quem será o próximo grande motor de demanda para o agronegócio brasileiro? Para David Laborde, diretor da Divisão de Economia Agroalimentar da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), não existe uma […]

A busca da China por maior autossuficiência alimentar levanta uma questão cada vez mais presente entre produtores e investidores: quem será o próximo grande motor de demanda para o agronegócio brasileiro?
Para David Laborde, diretor da Divisão de Economia Agroalimentar da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), não existe uma “nova China” capaz de substituir, sozinha, o papel desempenhado pelo país asiático nas últimas décadas.
A resposta, segundo ele, passa por dois caminhos: a expansão do consumo em mercados emergentes, principalmente na África e no Oriente Médio, e o avanço da bioeconomia global.
As declarações foram feitas durante painel do Brazil Climate Solutions nesta terça-feira (4), promovido pelo Itaú BBA, em conversa mediada por Marcos Jank, coordenador do Insper Agro.
Jank lembrou que a expansão do agronegócio brasileiro desde a década de 1970 foi impulsionada pelo aumento da produtividade, pela ocupação do Cerrado e pelos sistemas integrados de produção. Mas ressaltou que esse crescimento depende da demanda internacional — e que, até agora, ela teve um nome: China.
Segundo ele, o gigante asiático foi responsável por impulsionar as exportações brasileiras de proteínas animal e vegetal, açúcar, cereais, café, algodão e diversas outras commodities.
No entanto, esse cenário começa a mudar diante do menor ritmo de crescimento econômico, da redução da população e, principalmente, pela estratégia chinesa de fortalecer sua segurança alimentar, reduzindo a dependência de importações, especialmente de soja, algo indicado no seu 15º Plano Quinquenal (2026-2030).
A Índia como a nova China?
Na avaliação de Laborde, o mercado chinês ainda oferece oportunidades, mas já atingiu um estágio muito mais maduro do que no passado. “O potencial de crescimento ainda existe, mas grande parte dele já foi capturada”, afirmou.
O economista acrescentou que o Brasil também se beneficiou das tensões geopolíticas entre Estados Unidos e China, conquistando participação adicional nas importações chinesas. Porém, esse movimento, segundo ele, dificilmente continuará na mesma intensidade.
Embora o Sul da Ásia deva ganhar importância nos próximos anos, Laborde descartou a possibilidade de a Índia assumir o papel exercido pela China.
Isso porque o país possui um setor agrícola robusto e tende a proteger seus produtores rurais. Hoje, mais de 500 milhões de indianos dependem da agricultura e das atividades no campo, fator que limita a abertura comercial.
Além disso, a Índia já é uma importante exportadora de produtos agrícolas — inclusive de carne bovina, apesar de a maior parte da população não consumir a proteína. Embora possa ampliar as importações de algumas oleaginosas, dificilmente o país alcançará a escala observada no mercado chinês.
África e Oriente Médio ganham protagonismo
Para Laborde, os maiores vetores de crescimento da demanda por alimentos devem surgir no Oriente Médio e, principalmente, na África. O desafio, porém, será a capacidade financeira desses países de ampliar as importações.
“A questão para a África é se haverá dinheiro suficiente para pagar por essas compras. Isso dependerá do crescimento econômico do próprio continente”, explicou.
Ainda assim, o economista da FAO defendeu que o comércio internacional deve ser visto como uma relação de ganhos mútuos. “Quando um país cresce, seus parceiros comerciais também crescem”.
Bioeconomia pode criar um novo mercado para o agro
Além da expansão da demanda por alimentos, Laborde destacou a bioeconomia como um segundo fator que poderá transformar profundamente o agronegócio nas próximas décadas.
Segundo ele, caso o mundo avance de forma consistente na substituição dos combustíveis fósseis, haverá uma necessidade muito maior de biomassa para produzir energia, combustíveis, materiais industriais e diversos outros produtos.
Na avaliação do diretor da FAO, a produção global de biomassa precisaria ser multiplicada entre três e quatro vezes para permitir uma substituição ampla dos combustíveis fósseis.
Isso significaria uma demanda crescente por madeira, produtos agrícolas e outras fontes renováveis de biomassa, criando novos mercados para países produtores como o Brasil.
“Não produzimos biomassa o suficiente para ter um debate sério quanto a substituir os combustíveis fósseis em muitas economias. A próxima grande transformação global será como vamos usar a biomassa que vamos precisar. Mas precisamos produzir essa biomassa de maneira sustentável e não entrar em um ciclo que precisaríamos de mais combustíveis fósseis para produzir mais biomassa que substituiria os fósseis”.
Nesse processo, tecnologias como bioinsumos e outras inovações terão papel fundamental para tornar a produção mais eficiente e sustentável.
“Criar essa bioeconomia do futuro será um esforço global, que criará um mercado para produtos e produtores brasileiros. Vamos precisar de grandes ganhos de produtividades”.
Para Laborde, esse esforço deverá ser global e beneficiar agricultores em diferentes regiões do mundo, ao mesmo tempo em que abrirá novas oportunidades para o agronegócio brasileiro.
