R$ 400 por arroba? A via de mão dupla que pressiona o mercado do boi — e pode impulsionar os preços no fim do ano

Os preços da arroba do boi vivem um momento de pressão desde a máxima de R$ 367,30 registrada pelo indicador Cepea/Esalq em 15 de abril. O movimento reflete o avanço da entressafra e, principalmente, a proximidade do esgotamento da cota de exportação de carne bovina estabelecida pela China para o Brasil.
O primeiro semestre foi marcado por preços mais firmes, sustentados pela baixa oferta de boi gordo pronto para abate, pela valorização do bezerro, pela menor disponibilidade de matrizes e pela forte demanda internacional pela carne bovina brasileira, especialmente da China.
No entanto, a cota anual brasileira de 1,1 milhão de toneladas para exportação de carne bovina ao mercado chinês já teve mais de 70% utilizada e deve ser esgotada em agosto. Com isso, diferentemente do observado nos últimos anos, o terceiro trimestre tende a ser marcado por preços mais fracos para a arroba.
“Estamos passando por uma pressão de preços entre junho e julho, mas desde setembro de 2024 tivemos uma valorização bastante expressiva do boi gordo, próxima de 80%, impulsionada pela virada do ciclo pecuário, que reduziu o número de matrizes e valorizou o bezerro. O melhor preço que vimos neste ano na Bolsa foi de R$ 356 por arroba, e agora o mercado opera mais próximo de R$ 330”, afirmou Jean Miranda, analista de commodities do BTG Pactual, durante o Radar das Commodities.
O momento atual do mercado
Apesar de a reposição continuar cara, alguns mercados físicos já começam a registrar recuo nos preços dos bezerros.
Ao mesmo tempo, junho foi marcado por um aumento no abate de vacas. Segundo Miranda, caso o preço do bezerro deixe de subir, parte dos pecuaristas volta a considerar economicamente vantajoso descartar matrizes, ampliando a oferta de carne e contribuindo para a pressão sobre os preços da arroba.
Outro reflexo da desaceleração da demanda externa já aparece na indústria. Segundo o analista, algumas plantas frigoríficas do Centro-Oeste passaram a conceder férias coletivas devido à redução do ritmo de abates destinados às exportações, evidenciando os efeitos do esgotamento da cota chinesa sobre toda a cadeia pecuária.
O fator China que pode levar a arroba a R$ 400
Se, por um lado, o esgotamento da cota chinesa pressiona os preços no mercado doméstico durante o terceiro trimestre, por outro, a própria dinâmica das exportações para a China pode devolver sustentação à arroba no fim de 2026.
“Em um cenário-base, não vemos fundamentos suficientes para que a arroba alcance R$ 400, até porque esse é um preço bastante esticado. No entanto, a partir de outubro, teremos um reset da cota da China. Ou seja, a partir de janeiro de 2027, toda a carne embarcada passa a contar dentro de uma nova cota”, explicou Miranda.
O analista ressalta que, embora a nova cota passe a valer oficialmente apenas em janeiro de 2027, há um intervalo de aproximadamente dois a três meses entre a compra do boi, o abate e a chegada da carne ao mercado chinês.
Na prática, isso significa que os frigoríficos devem voltar a intensificar as compras de animais já entre outubro e novembro, para embarques que serão contabilizados na nova cota. Esse movimento tende a reaquecer a demanda por boi gordo destinado à exportação e oferecer um novo suporte aos preços da arroba no último trimestre do ano.
