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Mundo
04/11/2026
6 min

Raio-X das eleições dos EUA: o que estava em jogo, quem fez história e o recado a Trump

Com vitórias inéditas, democratas assumem o controle do Congresso e transformam a eleição em um plebiscito contra a economia de Donald Trump

Raio-X das eleições dos EUA: o que estava em jogo, quem fez história e o recado a Trump

Durante os meses de campanha para as eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, o presidente Donald Trump pediu por várias vezes a eleitores que considerassem que ele estava na cédula de votação. O eleitorado americano atendeu ao pedido, mas o veredito não foi o esperado pela Casa Branca.

Transformando a ida às urnas em um referendo sobre a administração republicana e a disparada do custo de vida no país, os eleitores entregaram o controle da Câmara e do Senado ao Partido Democrata. Mais do que uma mudança no equilíbrio de poder em Washington, os resultados também são marcados por vitórias históricas e por viradas em locais até então considerados seguros pelos governistas.

Trump "reprovado"

Todas as 435 cadeiras da Casa dos Representantes e um terço do Senado estavam em disputa nas midterms de 2026. Entre os senadores, a oposição conseguiu reconquistar sete cadeiras, incluindo em estados antes considerados grandes domínios republicanos, como o Texas e o Kansas. Já na Câmara, 27 assentos viraram a favor dos democratas.

Desde a 2ª Guerra Mundial, a Câmara e o Senado passaram juntos de um partido para o outro quatro vezes: 1946, 1994, 2006 e agora em 2026.

Apesar de as midterms serem consideradas um termômetro da presidência americana, Donald Trump disse que não vê a "onda azul" como uma rejeição ao governo dele e sinalizou que pode usar seus poderes de veto para controlar a oposição no Legislativo. Conhecido por negar resultados (desfavoráveis a ele) nas eleições, desta vez, Trump confirmou que pretende aceitar o cenário.

"É uma reprovação à política econômica desse governo, que não conseguiu oferecer soluções a temas muito delicados como inflação, por exemplo, a questão da dificuldade de se alcançar o sonho americano. É a troca de carro com facilidade, o sonho da casa própria, o emprego alinhado com aquilo que foi estudado na universidade, bons salários, tudo isso continua sendo algo mais difícil de se alcançar", afirma o professor Lucas de Souza Martins, professor da Temple University e consultor do Washington Office on Latin America.

O tema do custo de vida já era ponto de debate na eleição anterior, a que reconduziu Trump ao Salão Oval, mas o tema continuou latente, considerando também a disparada do preço do combustível por causa da guerra iniciada pelo presidente contra o Irã, neste ano.

O presidente dos EUA, Donald Trump, participa de uma sessão de trabalho dos líderes da OTAN durante a Cúpula da OTAN no Complexo Presidencial Bestepe, em Ancara, Turquia, em 8 de julho de 2026. A cúpula ocorre em um momento delicado para a aliança transatlântica de 77 anos, com o presidente dos EUA exigindo que os membros cumpram a promessa de aumentar os gastos com defesa, enquanto Washington se distancia da Europa. (Foto de Alexis Jumeau / POOL / AFP)

Índices em baixa

O presidente chegou às eleições com uma das piores aprovações da história moderna dos Estados Unidos. Os números o colocavam no mesmo patamar — ou até ligeiramente abaixo — dos piores momentos de Joe Biden em 2022 e do seu próprio primeiro mandato em 2018. Em muitas pesquisas, os índices ficavam em torno dos 30%.

Às vésperas do "Election Day", um outro levantamento apontava que mais de 70% dos americanos entendiam que o presidente precisava ter mais fiscalização por parte do Legislativo.

Uma pesquisa da Associated Press e do NORC Center for Public Affairs Research, deste mês, aponta que apenas 26% dos americanos aprovam a gestão de Trump na economia — uma nova mínima que consegue ser dois pontos percentuais inferior aos piores índices de Biden no mesmo quesito.

Jovens, latinos e negros

A vitória democrata pode ser explicada, entre outros fatores, pelo movimento de grupos que em 2024 apoiaram o então candidato republicano, mas que agora migraram para o lado democrata. Por exemplo, eleitores abaixo de 30 anos estavam divididos igualmente entre Trump e Kamala dois anos atrás. Na eleição desta semana, cerca de 7 a cada 10 pessoas nessa mesma faixa etária disseram que apoiariam os democratas, segundo uma pesquisa conduzida pela Associated Press (AP).

O mesmo levantamento também apontou um movimento semelhante com a comunidade latina nos Estados Unidos. Cerca de um terço dos hispânicos dizem que votariam vermelho para Câmara, enquanto quatro em cada dez disseram que escolheriam Trump em 2024.

Lucas de Souza Martins afirma que o tema da imigração teve um papel nessa virada. "Os latinos estão agora mudando seu foco e apoiando democratas, que até então tinham dado a vitória ao Trump dois anos atrás. Foi prometido que o alvo de deportações seriam os criminosos [...] e isso se expandiu um pouco mais para além daquilo que havia sido prometido, e obviamente que isso gera essa reação por parte da comunidade latina, que voltou em peso nos democratas", diz o professor.

Entre grupos que se afastaram dos republicanos, aparece o eleitor negro. Segundo os dados da AP, apenas um em cada dez homens negros apoiou candidatos de Trump nesta eleição. Em 2024, um quarto votou para eleger o bilionário para o segundo mandato.

Todas essas mudanças são acompanhadas de perto por estrategistas dos dois partidos porque podem influenciar a distribuição de votos para a disputa presidencial em 2028. 

"Negros e latinos são dois eleitorados demográficos muito importantes porque geralmente são eleitorados que nacionalmente tendem a ser mais independentes, não necessariamente vinculados a um partido, e que são muito sensíveis à política econômica. Ou seja, se a inflação, se o custo de vida, se nada disso melhora, eles tendem a votar em quem é oposição, e os democratas se beneficiaram bastante disso", afirma Lucas de Souza Martins.

Os "flips" históricos

Quando a TV americana cobre a eleições no país, âncoras, repórteres e analistas frequentemente usam o termo "flip" para destacar quando um estado altera um longo padrão de votação partidária. A disputa deste ano contou com várias vitórias deste tipo.

Os democratas conquistaram vantagem em praticamente todos os locais de disputa, consolidando uma varredura classificada como histórica. A sigla conquistou corridas para o Senado e para governos estaduais na Geórgia, em Ohio, em Iowa e no Texas. O avanço chama a atenção pelo fato de que os três últimos estados haviam sido vencidos por Donald Trump com vantagens expressivas de 11, 13 e 14 pontos percentuais, respectivamente.

O avanço seguiu com força no estado do Michigan, onde o candidato Abdul El-Sayed saiu vitorioso da disputa, apesar de uma dura briga interna na sigla nos últimos dias. Com o resultado, ele se tornará, em breve, o primeiro senador muçulmano do país.

No estado do Kansas, os eleitores escolheram o democrata Adam Hamilton, um candidato estreante que lidera a maior igreja Metodista Unida dos Estados Unidos. Ele superou o atual senador republicano, Roger Marshall.

O triunfo representa um marco histórico: é a primeira vez em quase um século que um democrata conquista uma cadeira no Senado pelo estado.

O Texas, que há muito tempo é um objeto de desejo para os democratas, também registrou vitórias significativas para o partido. O deputado estadual James Talarico, de 37 anos, foi eleito para o Senado.

Na disputa pelo governo estadual, o cenário também foi de mudança, com Gina Hinojosa derrotando o atual governador Greg Abbott, que acumulava três mandatos no cargo. Ela vai se tornar a primeira latina a comandar o estado.

O democrata James Talarico conquistou uma vaga para o Senado pelo Texas, em uma vitória histórica (jamestalarico.com)

AutorDiego Pavão
FonteExame
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