Raízen (RAIZ4) vende operações na Argentina por R$ 7,2 bilhões

A Raízen (RAIZ4) anunciou, na manhã desta quinta-feira (4), a venda de suas operações de downstream na Argentina por um valor total de US$ 1,42 bilhão, aproximadamente R$ 7,21 bilhões na cotação atual.
A transação foi firmada por meio de sua subsidiária Raízen Energia com a Latam Downstream Holdings e a Silver Projects I, empresas controladas pela Mercuria, grupo suíço de energia e commodities.
Segundo fato relevante divulgado ao mercado, o montante inclui o pagamento em dinheiro a ser realizado na conclusão da operação, sujeito aos ajustes usuais desse tipo de negócio, além da assunção, pelo comprador, das dívidas da operação argentina.
A venda abrange os ativos e participações societárias ligados às atividades de downstream da Raízen no país vizinho, segmento que engloba distribuição, comercialização e logística de combustíveis.
De acordo com a companhia, os recursos líquidos obtidos com a transação serão destinados à gestão da estrutura de capital, reforçando o processo de redução do endividamento que vem sendo perseguido pela empresa.
“A assinatura deste acordo representa mais um importante passo na execução da estratégia da Raízen de simplificação de portfólio, ao mesmo tempo em que fortalece nossa estrutura de capital e aumenta a flexibilidade financeira”, afirmou Nelson Gomes, CEO da Raízen, em nota enviada ao Money Times.
O fechamento do negócio ainda depende de aprovações regulatórias e judiciais. A expectativa é que a conclusão ocorra ainda no atual ano-safra.
O caso Raízen
A Raízen estreou na bolsa de valores (B3) em meio ao boom de IPOs de 2021, avaliada em R$ 76 bilhões e com a promessa de liderar uma revolução dos combustíveis verdes, impulsionada pelo etanol de segunda geração (E2G).
No entanto, a tese encontrou obstáculos relevantes: o arrefecimento do apetite global por investimentos ESG, o avanço do etanol de milho — alternativa mais barata e escalável — e um cenário de preços pressionados para açúcar e etanol.
Quase cinco anos após o IPO, realizado em 5 de agosto de 2021, a joint venture entre Cosan e Shell perdeu valor de mercado e se transformou em uma penny stock, quando uma ação negocia na casa dos centavos. Ao mesmo tempo, a companhia acumulou uma dívida bilionária após um ciclo agressivo de aquisições e expansão de ativos.
Na tentativa de reverter essa trajetória, a Raízen iniciou, no fim de 2024, um processo de reestruturação focado na redução da alavancagem. O movimento incluiu uma ampla troca no comando executivo, com a chegada de Nelson Gomes ao cargo de CEO, após passagens por ExxonMobil, Cosan, Compass, Comgás e Moove.
Até fevereiro de 2026, a companhia já havia levantado cerca de US$ 5 bilhões com iniciativas de desinvestimento, incluindo a venda de usinas e outros ativos.
No terceiro trimestre da safra 2025/2026, porém, veio outra pancada: a companhia reportou prejuízo de R$ 15,65 bilhões. A dívida líquida saltou de R$ 38,6 bilhões no 3T25 para R$ 55,3 bilhões no 3T26, enquanto a alavancagem medida pela relação dívida líquida/Ebitda passou de 3 vezes para 5,3 vezes no mesmo intervalo.
O cenário desencadeou rumores, negociações e promessas de aporte por parte de Cosan e Shell, em discussões que se arrastaram por semanas. Até que, em 11 de março, a Raízen protocolou um pedido de recuperação extrajudicial para suspender, por 90 dias, o pagamento de dívidas que somam cerca de R$ 65 bilhões.
O movimento levou à exclusão da companhia do Ibovespa e outros índices da bolsa brasileira.
