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InvestMercados
08/10/2026
5 min

Rali eleitoral não tira o investidor brasileiro da ponta vendedora

Small caps lideram ganhos após o primeiro turno, mas movimento ainda parece mais ligado à queda dos juro

Rali eleitoral não tira o investidor brasileiro da ponta vendedora

A forte alta da bolsa brasileira após o primeiro turno das eleições ainda não representa uma volta do investidor local às ações. Os dados mais recentes de fluxo da B3 mostram que, no primeiro pregão após a votação, foram os estrangeiros que sustentaram a compra, enquanto pessoas físicas e investidores institucionais brasileiros ficaram na ponta vendedora.

Na segunda-feira, 5 de outubro, o investidor estrangeiro colocou R$ 10,06 bilhões líquidos em ações brasileiras, maior entrada diária de recursos estrangeiros em 2026. No mesmo dia, as pessoas físicas retiraram R$ 5,30 bilhões da bolsa, maior venda do ano, enquanto investidores institucionais, como fundos e fundos de pensão, venderam R$ 3,96 bilhões, segundo os dados da B3.

O movimento ajuda a explicar por que a bolsa disparou mesmo sem uma volta evidente do capital doméstico.

O Ibovespa subiu 7,70% na segunda-feira, 5, aos 206.911 pontos, enquantoo índice de small caps (SMLL) avançou ainda mais, 9,17%. Na terça-feira, 6, o SMLL ganhou mais 1,83%, enquanto o Ibovespa recuou 0,52%. Assim como na quarta, 7, quando o principal índice acionário da B3 caiu mais 0,74% e o SMLL subiu 0,97%.

A diferença de desempenho das small caps, porém, não significa necessariamente que o investidor local tenha voltado a comprar essas empresas. Para especialistas, a alta pode ser explicada principalmente pela forte queda das taxas de juros de longo prazo após o resultado eleitoral, que provocou uma reprecificação de ativos mais sensíveis ao custo do dinheiro.

“Não é possível dizer que o pequeno investidor voltou para as small caps olhando esse dado”, afirma Marco Aurélio de Camargos, CIO da Vault Capital. Segundo o especialista, o fluxo divulgado pela B3 reforça a leitura de que, no primeiro pregão após o 1° turno eleitoral, o comprador líquido foi o estrangeiro, enquanto os investidores locais venderam.

Small caps são uma reprecificação

As taxas longas chegaram a cair mais de 1 ponto percentual em alguns vencimentos após o primeiro turno.

O DI com vencimento em 2035, por exemplo, saiu de cerca de 14,06% para 12,82%. Esse movimento tem impacto especialmente forte sobre empresas menores, que em geral têm maior exposição ao mercado doméstico, dependem mais de crédito e apresentam maior sensibilidade às condições financeiras.

“Small caps são uma reprecificação”, diz Camargos. Na visão do CIO, a queda dos juros futuros tornou essas empresas mais atraentes, independentemente de quem tenha sido o comprador final dos papéis.

Há ainda uma limitação importante nos dados da B3. Ofluxo é divulgado por tipo de investidor, mas não mostra para quais segmentos ou índices cada grupo direcionou seus recursos. Por isso não é possível afirmar que os R$ 10,06 bilhões dos estrangeiros foram para as ações do Ibovespa, para small caps ou para uma combinação dos dois.

Ainda assim, a entrada estrangeira pode ter contribuído para a alta das empresas menores. Algumas companhias do SMLL têm porte médio, também fazem parte do Ibovespa ou aparecem em carteiras globais. Além disso, fundos passivos estrangeiros podem comprar cestas de ações para acompanhar índices de small caps.

Para Renato Reis, analista da Blue3 Investimentos, o tamanho do fluxo estrangeiro ajuda a entender a intensidade do movimento. Quando uma quantidade muito grande de dinheiro entra em um mercado relativamente pequeno e com liquidez limitada, os preços precisam subir para absorver essa demanda.

“Se uma ação negocia R$ 15 milhões por dia e um estrangeiro quer colocar R$ 50 milhões ou R$ 70 milhões, o preço precisa subir bastante para conseguir absorver essa demanda”, afirma.

Esse efeito tende a ser ainda maior em empresas menores, justamente porque há menos liquidez. Por isso, Reis considera possível que o capital estrangeiro tenha participado também do rali das small caps, ainda que os dados públicos não permitam medir quanto.

A venda dos investidores locais, por outro lado, não significa necessariamente falta de confiança na bolsa. Segundo Reis, parte dos investidores pode ter aproveitado a forte alta para realizar prejuízos ou colocar dinheiro no bolso depois de meses de desempenho ruim. Na base de clientes das corretoras, ele observa com frequência um comportamento de venda durante as altas e compra durante as quedas.

No caso dos investidores institucionais, Camargos vê um padrão semelhante ao observado ao longo de 2026: vendas concentradas em dias de forte valorização. Uma possível explicação são resgates de fundos, que obrigam gestores a vender mesmo quando o mercado está subindo.

O comportamento também mostra por que é preciso separar a ideia de que assmall caps são, estruturalmente, mais associadas ao investidor doméstico, mas isso não significa que sejam compradas apenas por brasileiros. A composição de acionistas de uma empresa e quem está determinando os preços em um determinado pregão são coisas diferentes.

Além disso, o rali do pós-eleição parece ter sido menos uma migração de ações grandes para pequenas e mais uma mudança na percepção sobre o Brasil doméstico. No próprio Ibovespa, Itaú, B3, Petrobras, BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME) e Bradesco responderam por 46% dos pontos ganhos no índice na segunda-feira, segundo o Itaú BBA.

A diferença está na sensibilidade de cada empresa ao cenário doméstico. Enquanto exportadoras tendem a se beneficiar mais do câmbio e dos preços internacionais, empresas voltadas ao consumo, crédito, infraestrutura e atividade econômica brasileira ganham quando caem os juros e diminui o prêmio de risco exigido pelo mercado.

Nesse cenário, as small caps também se beneficiam. O movimento mostra uma disposição maior do mercado para assumir risco, mas ainda não permite concluir que o investidor local esteja retornando, de acordo com os especialistas.

AutorClara Assunção
FonteExame
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