'RAMageddon': a crise que vai encarecer seu computador e Xbox por causa da IA

Existe um motivo comum por trás dos aumentos de preço que a Apple, a Microsoft e quase todo o setor de eletrônicos anunciaram nas últimas semanas — e ele tem nome de filme catástrofe: RAMageddon. É como a imprensa de tecnologia apelidou a escassez global de chips de memória que atingiu o mercado em 2026, provocada pela demanda voraz dos data centers de inteligência artificial (IA).
O resultado é um cenário curioso: a memória ficou tão cara e tão disputada que aparelhos como notebooks, celulares e consoles estão subindo de preço. E, em alguns casos, vindo com a mesma quantidade de memória do ano anterior, ou até menos.
O que é o RAMageddon?
RAMageddon é o apelido dado à crise de oferta de memória que começou em 2025 e se intensificou neste ano.
Diferente da escassez de chips de 2020 a 2023, causada pela pandemia, esta tem uma origem estrutural: os fabricantes de memória redirecionaram suas fábricas para atender à IA, deixando o resto do mercado a ver navios.
As memórias afetadas são a DRAM (a memória de trabalho de qualquer computador ou celular) e a NAND flash (usada para armazenamento, como em SSDs). Segundo a consultoria TrendForce, os preços da DRAM subiram entre 90% e 95% no primeiro trimestre, com nova alta projetada de até 63% no trimestre seguinte.
Por que a IA causou a escassez?
A explicação está em uma escolha de negócios. Os três fabricantes que controlam mais de 95% da produção mundial de DRAM — Samsung, SK Hynixe Micron — passaram a priorizar a memória de alta largura de banda (HBM), usada nos servidores de IA, onde as margens de lucro são muito maiores.
Cada chip de HBM consome mais capacidade de fábrica do que a memória comum, o que reduz ainda mais a oferta para o consumo.
A demanda, por sua vez, é gigantesca. As gigantes Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft devem gastar, juntas, cerca de US$ 650 bilhões em investimentos em 2026 — alta de aproximadamente 67% sobre o ano anterior —, a maior parte em equipamentos de data center. Hoje, estima-se que os data centers consumam até 70% de toda a memória produzida no mundo, contra os 20% a 30% de poucos anos atrás.
Quais produtos estão ficando mais caros?
Praticamente todos os que usam memória. Nas últimas semanas, a lista cresceu:
- Apple — aumentou os preços de Macs, iPads e do Vision Pro, dizendo nunca ter visto um aumento de componentes "tão grande e tão rápido"
- Xbox — a Microsoft elevou os preços dos consoles em até US$ 150 a partir de 1º de agosto, o terceiro reajuste em menos de dois anos
- PlayStation — a Sony aumentou o preço do PS5 mais cedo neste ano
- Notebooks e PCs — fabricantes como Dell, HP, Lenovo, Acer e Asus já sinalizaram altas de 15% a 30%
O efeito vai além do preço. Para não encarecer demais, alguns fabricantes estão reduzindo a memória dos aparelhos: segundo a consultoria IDC, os celulares topo de linha de 2026 devem manter 12 GB de RAM, em vez de subir para 16 GB, interrompendo o aumento anual que era praxe no setor.
A crise também atrasa lançamentos
O RAMageddon não encarece apenas o que já existe — ele também trava o que está por vir.
O caso mais emblemático é o da Valve, dona da plataforma Steam: o lançamento de seu novo console híbrido, o Steam Machine, previsto para 2026, foi adiado por causa da escassez e do preço da memória.
A pressão é tão grande que mudou até a estratégia de produto das fabricantes de memória. A Micron, por exemplo, anunciou que vai abandonar a Crucial, sua marca de memória para consumidores, para focar nas oportunidades mais lucrativas da IA.
Quando o RAMageddon vai acabar?
Não tão cedo. Construir uma nova fábrica de memória leva anos, e a TrendForce não espera capacidade nova relevante antes do fim de 2027 ou de 2028.
A própria Micron, que anunciou a construção de uma nova unidade ao custo de quase US$ 10 bilhões, só deve abri-la em 2028, e uma análise da consultoria Kearney projeta que a escassez pode durar até 2030.
Para o consumidor, a recomendação que se repete entre analistas é desconfortável: se precisa de um aparelho novo, comprar mais cedo tende a fazer mais sentido do que esperar, já que a tendência dos preços, enquanto a IA não desacelerar, é de alta — não de queda.
