Recomendações de investimento avançam com IA, mas assessores esbarram em regulação
Assessorias e consultorias que operam no Brasil não precisam esperar a regulação e a fiscalização avançarem para se organizar

Por Anderson Timm*
Assessorias e consultorias de investimentos já incorporaram ferramentas de inteligência artificial à rotina de análises e recomendações a clientes, um avanço que levanta questões regulatórias relevantes. Ainda não existe uma norma brasileira dedicada especificamente à inteligência artificial (IA), mas a Resolução CVM 19 estabelece regras para o uso de sistemas automatizados e algoritmos. Na prática, isso significa que qualquer recomendação gerada por IA precisa seguir os mesmos padrões exigidos de um profissional humano.
É preciso respeitar a adequação ao perfil do cliente, obedecer às vedações aplicáveis a cada tipo de serviço e manter registros claros de todo o processo. A responsabilidade pelo aconselhamento permanece do consultor, e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) pode acessar a qualquer momento o código-fonte ou os critérios usados pelo sistema, o que garante transparência e possibilidade de auditoria.
O assunto ganha peso quando se olha para o tamanho do mercado que está em jogo. O Brasil conta hoje com 1.426 assessorias de investimento pessoa jurídica e 492 consultorias pessoa jurídica ativas, responsáveis por orientar uma base de cerca de 59 milhões de investidores que juntos aplicam aproximadamente R$ 7,9 trilhões em ativos.
Preferência por humanos
Nos Estados Unidos, a adoção da inteligência artificial pelas empresas de wealth management desperta desconfiança entre os investidores. Estudo da McKinsey, baseado em pesquisa realizada com cerca de 7 mil investidores norte-americanos de alta renda e patrimônio elevado, mostra que quase 80% desse público prefere pagar mais por aconselhamento humano do que utilizar apenas um serviço digital personalizado.
Ao mesmo tempo, a consultoria estima que, caso entre 30% e 40% dos assessores adotem ferramentas de IA generativa específicas para o setor até 2034, será possível obter ganhos de produtividade entre 6% e 12%, ampliando a capacidade de atendimento, além de liberar mais tempo para atividades de maior valor agregado, como o relacionamento e o planejamento financeiro.
A Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC, na sigla em inglês) sinalizou que a governança de IA será prioridade de fiscalização neste ano. Mesmo sem regras específicas, os examinadores já observam como as empresas documentam, supervisionam e controlam o uso dessas ferramentas.
Por lá, as empresas enfrentam exigências concretas. Precisam manter políticas claras sobre o uso da tecnologia, registros completos de supervisão humana sobre qualquer recomendação automatizada e documentação detalhada dos fornecedores envolvidos. Sem essas medidas, correm o risco de receber constatações de compliance antes mesmo de passar por uma inspeção formal. Mais do que isso, adotar essas práticas oferece um diferencial de confiança perante clientes e parceiros.
Assessorias e consultorias que operam no Brasil não precisam esperar a regulação e a fiscalização avançarem para se organizar. Mapear as ferramentas de IA em uso, formalizar políticas claras, documentar a supervisão humana sobre as recomendações e registrar os treinamentos das equipes são medidas que podem ser adotadas agora.
Essas práticas ajudam a construir confiança junto a clientes e parceiros e colocam as empresas em posição mais segura para o momento em que a fiscalização e as regras específicas para IA passarem a valer no Brasil.
*Anderson Timm é especialista em consultoria empresarial e CEO da Veritas
