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Sacre Investimentos
Renda FixaACS
25/08/2026
5 min

Recuperação extrajudicial da Braskem deixa quase 10 mil investidores de renda fixa em compasso de espera: vou receber meu dinheiro?

A petroquímica ainda não informou quais papéis serão incluídos na renegociação, mas dois CRAs já vivem uma disputa sobre vencimento antecipado

Recuperação extrajudicial da Braskem deixa quase 10 mil investidores de renda fixa em compasso de espera: vou receber meu dinheiro?

A recuperação extrajudicial apresentada pela Braskem (BRKM5) na segunda-feira (24) não preocupa apenas bancos e grandes fundos de investimento. Ela também coloca sob pressão quase 10 mil investidores pessoas físicas que compraram títulos de dívida da petroquímica.

Um levantamento da Vitrify, plataforma de dados e inteligência para o mercado de crédito privado, mostra que a Braskem tem seis títulos de crédito privado ainda ativos no mercado, com saldo total de R$ 3,21 bilhões. O volume é pequeno quando comparado aos mais de R$ 50 bilhões da dívida total da companhia que deve ser renegociada na recuperação extrajudicial.

Entretanto, trata-se de um saldo significativo diante da quantidade de recuperações de empresas brasileiras nos últimos meses.

Pelo menos R$ 914,1 milhões estão concentrados em dois Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) distribuídos principalmente para investidores de varejo.

Na emissão original, as pessoas físicas ficaram com 95,5% da primeira série e 91,8% da segunda, segundo a Vitrify. Foram 6.969 investidores em uma série e 2.915 na outra, somando quase 10 mil credores.

Além disso, pelo menos R$ 2,3 bilhões do saldo devedor da Braskem estão distribuídos em quatro debêntures: BRKMA6, BRKMB6, BRKMA8 e BRKMB8.

A recuperação extrajudicial e a renda fixa

Afinal, as debêntures e CRAs da Braskem entram na renegociação das dívidas?

Ninguém sabe ao certo ainda.

O próprio relatório da Vitrify aponta essa como uma das principais informações que precisam de esclarecimento aos investidores.

A petroquímica informou o valor total das dívidas sujeitas à recuperação, mas não listou individualmente quais instrumentos financeiros entrarão na renegociação.

A maior parte (74%) dos credores da Braskem são bancos e grandes fundos de investimento internacionais, chamados bondholders, que compraram as dívidas em dólar da companhia. Mais de US$ 7 bilhões (cerca de R$ 36 bilhões) estão nas carteiras dessas instituições.

Desde as emissões, a Braskem já desembolsou R$ 1,35 bilhão em juros para os investidores das dívidas locais. Mas nenhum dos seis instrumentos registrou amortização do principal até agora.

Ou seja, a maior parte do dinheiro originalmente emprestado continua em aberto.

As debêntures

A incerteza em relação à dívida local afeta especialmente os investidores das debêntures.

As quatro emissões (BRKMA6, BRKMB6, BRKMA8 e BRKMB8) aparecem cadastradas sem garantia, segundo a Vitrify.

Os papéis da 16ª emissão são descritos formalmente como quirografários, que é a categoria em negociação conforme o comunicado pela empresa no pedido de recuperação.

A expectativa é que nas próximas semanas mais informações confirmem se esses papéis entrarão ou não na renegociação das dívidas.

Os CRAs

Os investidores dos CRAs estão em uma situação ainda mais delicada.

Em 26 de junho, a Eco Securitizadora declarou o vencimento antecipado automático dos dois CRAs da Braskem após a petroquímica pedir uma tutela cautelar à Justiça para se proteger da execução das dívidas e preservar seu caixa.

Naquele momento, os investidores tentaram acelerar a cobrança da dívida inteira antes do vencimento original dos títulos para não ficar sem os pagamentos diante do possível bloqueio pela Justiça.

Mas o processo continua em aberto.

A própria securitizadora informou que a medida ainda depende de ratificação pelos investidores e pode até ser revogada.

Reunir os detentores dos CRAs é uma dificuldade à parte.

As assembleias já fracassaram duas vezes por falta de quórum antes de finalmente acontecerem em 19 de agosto.

Foi apenas nessa reunião que os investidores aprovaram a contratação de assessores jurídicos e financeiros para representá-los nas negociações com a companhia. A Felsberg e a Journey Capital representam os credores.

Pessimismo nos preços

Os preços dos títulos negociados no mercado secundário, em que investidores negociam com investidores, mostram que o mercado já prevê um cenário de reestruturação da dívida com maior risco de perdas e atrasos nos pagamentos.

Segundo a Vitrify, os seis papéis da Braskem eram negociados, em mediana, a 92,9% do valor de referência para pagamento no vencimento no primeiro semestre de 2025. Em 2026, esse percentual despencou para 42,9%.

Na prática, esses números significam que um papel que originalmente representava R$ 1.000 de valor nominal chegou a trocar de mãos por pouco mais de R$ 400 em algumas negociações.

Mas em agosto, o preço despencou mesmo.

Dos 120 negócios registrados no mês, 106 aconteceram abaixo de 30% do valor de referência. Isso mostra que parte dos investidores já aceitou realizar perdas expressivas para passar esses títulos adiante.

O que acontece agora?

Para o investidor pessoa física, existem quatro eventos que realmente importam daqui para frente:

  1. Descobrir quais títulos entram oficialmente na recuperação extrajudicial. Essa informação ainda não foi divulgada pela companhia.
  2. Entender o destino dos CRAs. O vencimento antecipado já foi declarado, mas ainda depende de desdobramentos das deliberações dos investidores.
  3. Acompanhar as assembleias das debêntures. Os detentores já aprovaram assessores financeiros e jurídicos para conduzir negociações e continuam discutindo estratégias de defesa.
  4. Esperar a proposta de reestruturação. É nela que aparecerão eventuais alongamentos de prazo, alterações nos fluxos de pagamento ou outras condições para os credores.
AutorMonique Lima
FonteSeu Dinheiro
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