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InvestMercados
18/08/2026
6 min

Recuperação judicial vira 'indústria' e atrai dezenas de fundos no Brasil

Entrada de fundos especializados, administradoras judiciais e mercado secundário de crédito transformou o setor de reestruturação no país, dizem especialistas

Recuperação judicial vira 'indústria' e atrai dezenas de fundos no Brasil

Um dia depois de oGrupo Casas Bahia (BHIA3) pedir recuperação judicial na Justiça de São Paulo, executivos que atuam diretamente no mercado de reestruturação de empresas discutiram nesta terça-feira, 18, os desafios para preservar valor em companhias em crise.

Durante o painel "NPLs, recuperação e valor: como navegar a nova fronteira do crédito”, realizado na 27ª Conferência Anual do Santander, em São Paulo,  o sócio fundador da TWK Advogados, Ivo Waisberg, responsável pela assessoria jurídica da varejista, que buscareorganizar uma dívida sujeita ao processo de R$ 17,3 bilhões, afirmou que a RJ deixou de ser vista como o “patinho feio” do mercado e passou por um processo de profissionalização que transformou o setor em uma indústria de crédito, fundos e investidores especializados.

"Eu era o patinho feio. Hoje eu sou o príncipe do mercado", brincou Waisberg. Segundo o advogado, o mercado brasileiro de recuperação e ativos estressados se desenvolveu de forma significativa nas últimas duas décadas, com a entrada de fundos especializados, empresas de administração judicial e investidores dedicados à compra de créditos.

"Hoje você tem dezenas [de fundos]. A coisa que mais acontece hoje em dia é um cara sair de um banco e abrir um fundo de stress", disse. Para o responsável pela assessoria jurídica da Casas Bahia, o avanço também aparece na existência de um mercado secundário de crédito e na atuação de investidores que compram créditos e podem, em determinadas estruturas, converter essas posições em participação nas companhias.

"Você tem uma pujança de mercado secundário de crédito e de RJ que você não tinha", afirmou.

Caixa antes da solução definitiva

Para Waisberg, porém, antes de discutir o desenho de longo prazo de uma recuperação, o foco precisa estar na sobrevivência financeira imediata da companhia. "Recuperação judicial é caixa, caixa, caixa", disse. "Eu sempre falo assim: ficamos preocupados na solução definitiva. E claro que isso tem que ser resolvido, mas o primeiro ponto é estabilizar o paciente", afirmou.

Na avaliação do advogado, a prioridade é entender o fluxo de caixa de curto e médio prazo antes de partir para decisões estruturais. "O segredo nosso é a gente focar no caixa. E, por outro lado, a gente tem que olhar muito esse tema de tomar decisões baseadas no fluxo de caixa de médio e curto prazo. O que acaba com a empresa é caixa e não todo o resto", disse.

O raciocínio foi reforçado por Thiago Franco, responsável pelo time de Reestruturação de Crédito do Atacado Santander. "No final do dia, o que acaba quebrando a companhia não é excesso de alavancagem, mas é caixa", afirmou.

Waisberg acrescentou que a recuperação judicial não deve ser confundida com a solução do problema. "RJ não é a solução, é um ambiente negocial para isso", disse. Entre os mecanismos que podem ajudar a enfrentar a falta de liquidez, ele destacou o financiamento DIP, Debtor-in-Possession Financing, que segundo os especialistas permite a entrada de dinheiro novo durante o processo.

A lógica também apareceu na análise de Marcelo Mifano, sócio da Vinci Partners. Segundo o gestor, fundos especializados podem atuar em empresas que têm valor, mas enfrentam problemas na estrutura de capital. Nesse contexto,a recuperação judicial pode permitir a venda de ativos não essenciais e a reorganização da companhia.

"Você consegue vender ativos com uma unidade produtiva isolada", afirmou Mifano. O gestor explicou que uma empresa pode utilizar novo financiamento para recuperar o capital de giro e, posteriormente, vender ativos não essenciais dentro de uma estrutura que permita ao comprador adquirir esses ativos sem carregar determinados passivos.

"Bomba-relógio" no crédito

O cenário econômico descrito pela economista-chefe do Serasa Experian, Camila Abdelmalack, ajuda a contextualizar o aumento da pressão sobre as empresas. Segundo a especialista, o país combina custo financeiro elevado, desaceleração da atividade econômica e impactos sobre a capacidade de geração de caixa das companhias.

"Basicamente a gente pode resumir num custo financeiro bastante elevado, uma atividade econômica em desaceleração e isso tudo impactando a capacidade de geração de caixa das empresas", afirmou.

A economista-chefe do Serasa Experian também citou fatores adicionais de pressão, como as taxações internacionais, os efeitos sobre exportadores e cadeias produtivas, o ambiente burocrático, as adaptações relacionadas à reforma tributária e discussões sobre a jornada de trabalho no Congresso.

Para Abdelmalack, o problema do crédito pode se aprofundar mesmo após a mudança de rota da política monetária. "Estamos navegando aqui na economia brasileira com uma taxa de juros bastante elevada por um período prolongado e isso traz consequências no balanço da população, no balanço das empresas", disse.

A economista afirmou que a desaceleração da atividade econômica representa uma segunda etapa de deterioração do crédito, depois do impacto provocado pelo período prolongado de juros elevados. Com a perspectiva de juros ainda altos nos próximos anos, ela vê pouco espaço para uma melhora significativa das condições de crédito no curto prazo.

"Eu diria que a gente tem aí um cenário econômico que é bastante preocupante e uma bomba-relógio que está sendo armada aí do lado do crédito e que sem uma expectativa de um juro menor à frente, dificilmente a gente vai conseguir desarmar essa bomba", afirmou.

Segundo dados da Serasa Experian citados no painel, 2.600 CNPJs entraram com pedido de recuperação judicial no ano passado. Entre janeiro e abril, já foram cerca de 602 CNPJs.

O movimento, segundo ela, está disseminado entre diferentes setores, com destaque para serviços, agro e varejo. Camila ponderou, porém, que não é possível atribuir todos os pedidos de recuperação judicial ao cenário macroeconômico.

Nem toda a empresa entra com uma recuperação judicial por conta de um problema do cenário macroeconômico", afirmou. Para a economista, também é preciso analisar problemas relacionados ao plano de negócios de cada companhia.

Demora para reagir agrava crise

Renato Carvalho, fundador da Laplace e presidente do Conselho de Administração do Grupo Casas Bahia, também chamou atenção para o momento em que a empresa reconhece que está em crise. De acordo com o executivo, um dos principais erros é esperar demais para reagir aos primeiros sinais de deterioração.

"O primeiro grande problema é demorar a entender o problema", afirmou. Segundo Carvalho, empresários frequentemente apostam que uma solução futura, seja um novo comprador, produto ou estratégia, e que isso será suficiente para reverter a situação.

"É muito mais fácil você lidar com problema de balanço do que com problema de geração de caixa operacional que se depende de um turnaround", disse.

Na avaliação de Carvalho, governança também tem papel central na velocidade de resposta. "Um tema que falta muito no Brasil é boa governança. Governança faz uma diferença incrível", afirmou. De acordo com o executivo, estruturas de decisão mais organizadas podem ajudar empresas em dificuldades a reagir mais rapidamente. "É uma pessoa decide muito pior do que um processo", disse.

AutorClara Assunção
FonteExame
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