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20/07/2026
6 min

Rede que apostou em Trancoso quando 'tudo era mato' abre novos restaurantes mirando R$ 136 mi

Rede que apostou em Trancoso quando 'tudo era mato' abre novos restaurantes mirando R$ 136 mi

Muito antes de Trancoso, no litoral sul da Bahia, se tornar um dos destinos turísticos mais disputados — e caros — do Brasil, Sandra Marques cozinhava para quem aparecesse em sua casa. Ela e o marido, Fernando Leite, haviam chegado ao então pequeno vilarejo em 1981, em busca de uma vida mais próxima da natureza.

A comida preparada com ingredientes do quintal e peixes levados por pescadores acabou virando negócio. Em 1985, Sandra e Fernando inauguraram o restaurante Capim Santo; dois anos depois, abriram uma pousada de mesmo nome.

O empreendimento nasceu antes de Trancoso se transformar no endereço de hotéis de luxo, casas de veraneio e restaurantes sofisticados que atrai turistas brasileiros e estrangeiros atualmente.

O nome veio da planta que crescia em abundância no terreno da família. Conhecida também como capim-limão, ela ultrapassou o jardim e entrou no cardápio. Um dos símbolos da marca é o brigadeiro de capim-santo, servido nos restaurantes da rede com o café e vendido em potes no empório dos restaurantes.

Quatro décadas depois, o negócio familiar tornou-se um grupo de alimentação e hospitalidade que faturou R$ 110 milhões em 2025. A meta é crescer 24% neste ano, o que levaria a receita a R$ 136,4 milhões. Eventos e catering respondem por 43% do faturamento, enquanto a expansão de restaurantes, contratos corporativos e alimentação escolar deve sustentar a próxima etapa de crescimento.

"Queremos consolidar esse ecossistema da hospitalidade brasileira, aumentando principalmente nossa atuação em empresas e escolas", diz Mariana Fragoso, CEO do Grupo Capim Santo.

Em 2025, a empresa realizou 670 eventos e serviu mais de 2,3 milhões de pessoas, entre clientes e alunos. No portfólio estão operações para o G20, Fórmula 1, Stock Car, Cirque du Soleil, Lollapalooza, SailGP e camarotes do Carnaval.

De um pequeno restaurante a grandes eventos

O caminho para fora da Bahia começou em 1998, quando o Capim Santo abriu um restaurante na Vila Madalena, em São Paulo. A unidade foi construída ao redor de uma árvore e levou à capital paulista a cozinha brasileira que havia se desenvolvido na casa da família em Trancoso.

Morena Leite, filha dos fundadores, cresceu entre o restaurante e a pousada. Depois de estudar gastronomia no Le Cordon Bleu, em Paris, voltou ao Brasil e assumiu a cozinha do negócio. Coube a ela combinar técnicas aprendidas na França com ingredientes e receitas brasileiras e transformar o Capim Santo em uma marca conhecida para além de Trancoso.

Após a Vila Madalena, a empresa mudou seu principal restaurante paulistano para um casarão nos Jardins. Foi nessa fase que Adriana Drigo entrou na sociedade e passou a atuar na gestão e na expansão do grupo.

O serviço de eventos começou de forma orgânica, a partir de pedidos feitos ao restaurante, mas acabou se tornando o maior negócio da companhia. “Eventos começam como uma coisa orgânica e se tornam o principal pilar da empresa”, afirma Mariana.

O modelo permite que o Capim Santo atenda de jantares menores a grandes competições e festivais. Para isso, combina uma equipe fixa, responsável pela liderança das operações, com profissionais temporários. Em um único evento recente, segundo Mariana, foram mobilizadas quase 250 pessoas.

O tamanho do braço de catering também traz volatilidade. Diferentemente dos restaurantes ou dos refeitórios corporativos, boa parte das receitas não está garantida em contratos de longo prazo.

“O evento vive uma gangorra. É como se começássemos o ano com uma página em branco e tivéssemos que fazer essa construção ao longo do ano”, diz a CEO.

Uma nova mesa em Minas Gerais

A principal inauguração de 2026 ocorreu em Brumadinho, em Minas Gerais. O Capim Santo assumiu a operação gastronômica do Instituto Inhotim, museu de arte contemporânea e jardim botânico que se tornou um dos destinos turísticos mais conhecidos do estado.

O contrato envolve três espaços: a Comedoria Oiticica, dedicada à culinária mineira; o Restaurante Tamboril, com serviço à la carte e pratos de diferentes regiões brasileiras; e o Café das Flores. O grupo também passou a cuidar da alimentação dos eventos realizados no museu.

Mais do que uma nova casa, Inhotim serve como modelo da expansão pretendida pela companhia: instalar-se em locais que já recebem público e incorporar a alimentação à experiência do visitante. Em São Paulo, a marca também está no Solar Fábio Prado, no Instituto Tomie Ohtake e no Hospital Sírio-Libanês.

O grupo ainda planeja outra abertura para o fim do ano, mas não revelou o endereço. Segundo Mariana, a nova operação e a entrada em Inhotim contribuem para a meta de crescimento, mas não explicam sozinhas a projeção de 24%.

“Esse crescimento vem não só das novas operações, mas da expansão do nosso portfólio”, afirma.

Menos dependência do buffet

Contratada em 2025, Mariana Fragoso assumiu a direção executiva com a tarefa de organizar a expansão da companhia.

Morena permanece à frente da criação e da curadoria gastronômica. Adriana Drigo participa da estratégia e da gestão, enquanto Mariana conduz a operação como CEO. A estrutura busca separar funções sem afastar as sócias do cotidiano da marca.

Uma das prioridades é reduzir a dependência dos eventos sem diminuir esse braço. O plano consiste em fazer com que receitas mais recorrentes, provenientes de escolas e empresas, ganhem espaço no faturamento.

Na alimentação corporativa, o Capim Santo atende desde reuniões de diretoria para dez pessoas até refeitórios com cerca de 200 usuários. Na área educacional, mantém operações em instituições como Colégio São Luís, Beacon School e Insper.

“Os 43% referentes ao buffet vão seguir. O que temos tentado estruturar é fazer com que as outras unidades contribuam cada vez mais para esse mix”, afirma Mariana.

Quais os próximos passos do Capim Santo

Criado em 2009 por iniciativa de Morena, o Instituto Capim Santo nasceu depois que a chef percebeu que trabalhadores de fora de Trancoso eram contratados para eventos porque os moradores locais não tinham formação profissional. A organização começou como uma escola no vilarejo e hoje atua de maneira independente em diferentes regiões do país.

Outro braço da rede está nas prateleiras dos restaurantes. A linha de empório reúne produtos da marca para levar para casa, entre eles o brigadeiro de capim-santo.

Por enquanto, essas vendas representam uma parcela pequena da receita dos restaurantes. Mariana reconhece o potencial, mas diz que transformar o empório em uma nova unidade de negócio não está entre as prioridades imediatas.

Tem potência para ser algo expressivo, mas ainda não chegamos a essa estruturação”, afirma.

“Queremos estruturar melhor as outras unidades e ganhar participação de mercado antes de partir para uma quinta frente", completa.

A cautela mostra o desafio da nova gestão: crescer sem dispersar a empresa em possibilidades demais. Entre o pequeno restaurante erguido quando Trancoso ainda era uma vila de pescadores e o grupo que hoje alimenta hospitais, escolas, museus e grandes eventos, oportunidades não faltaram.

AutorGuilherme Gonçalves
FonteExame
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