Regras claras são o caminho para os brasileiros terem acesso ao futuro das finanças
A oportunidade agora é construir um mercado de ativos digitais em que segurança e inovação avancem juntas

Por Fábio Plein*
O dia 30 de outubro marcou um ponto de virada para o mercado de criptoativos no Brasil. Foi o prazo final para que as empresas que já atendem clientes brasileiros solicitassem autorização ao Banco Central e o momento em que o marco regulatório do país passou das regras no papel para a supervisão na prática.
A partir de agora, todas as empresas que oferecem serviços de criptoativos aos brasileiros devem cumprir os mesmos padrões e responder ao mesmo órgão regulador. Essa clareza abre caminho para a próxima geração de serviços financeiros.O marco regulatório exige que as empresas mantenham capital, separem os ativos dos clientes dos seus próprios recursos e cumpram padrões de governança, segurança cibernética e prevenção à lavagem de dinheiro. Nem todas conseguirão atender a essas exigências. Algumas já optaram por deixar o país, e o mercado provavelmente passará por uma consolidação em torno de um número menor de empresas sob supervisão regulatória.
Regras claras que permitam a competitividade global beneficiam consumidores e empresas. Por exemplo, em 2025, os Estados Unidos aprovaram o Genius Act, estabelecendo regras federais para stablecoins de pagamento. Pouco mais de um ano depois, a Coinbase e a Samsung anunciaram que o USDC se tornará a stablecoin atrelada ao dólar padrão da Samsung Wallet, alcançando mais de 82 milhões de usuários de dispositivos Galaxy nos Estados Unidos.
Institucionalização do mercado cripto brasileiro
Os bancos tradicionais também estão avançando nessa direção: sete dos dez maiores bancos americanos já testaram stablecoins ou depósitos tokenizados para liquidação de transações, enquanto os outros três anunciaram planos para isso. Grandes empresas tomam essas decisões quando as regras estão estabelecidas.
Enquanto isso, consumidores em todo o mundo também estão se beneficiando do futuro das finanças. Os ativos digitais estão oferecendo acesso a um dinheiro que nunca deixa de funcionar. Os sistemas tradicionais de pagamento ficam indisponíveis durante a noite, nos fins de semana e nos feriados, aproximadamente um terço do tempo. As stablecoins não.
Com elas, um importador brasileiro pode pagar um fornecedor na Ásia em um sábado, antes mesmo de a mercadoria ser embarcada. As stablecoins também são muito mais baratas do que os meios tradicionais de transferência de dinheiro. Uma família que envia US$ 200 para o exterior em USDC pode pagar cerca de 86% menos em taxas do que em uma transferência tradicional.
O Brasil está bem posicionado para se beneficiar de um sistema financeiro mais digital. É o maior mercado de criptoativos da América Latina e recebeu US$ 318,8 bilhões em criptoativos entre julho de 2024 e junho de 2025, quase um terço do total da região.Mais de 90% dessas movimentações envolvem stablecoins, utilizadas principalmente para pagamentos e transferências internacionais. A demanda já existe. Regras claras ampliam a oferta, permitindo que mais empresas inovadoras lancem serviços confiáveis e em conformidade com a regulamentação. É por isso que os brasileiros devem receber positivamente cada avanço em direção à clareza regulatória.
Trabalho em andamento
O avanço em direção a regras claras não deve levar à acomodação. Em todo o mundo, países como Singapura, Reino Unido e Canadá estão atualizando suas regulamentações para garantir que empresas e consumidores possam se beneficiar dos ativos digitais.
O Brasil precisa permanecer atento para que seu regime regulatório não leve os brasileiros a recorrer a prestadores de serviços estrangeiros não regulamentados nem acabe sufocando a inovação no país. Por exemplo, a abordagem atual do Brasil de tratar as stablecoins como operações de câmbio acrescenta custos justamente aos usos das stablecoins que poderiam trazer mais benefícios aos brasileiros.
A Coinbase mantém seu compromisso de longo prazo com o Brasil e já solicitou autorização no âmbito do novo marco regulatório. Pretendemos continuar investindo no país, desenvolver produtos para os clientes brasileiros dentro das regras e trabalhar em conjunto com o Banco Central à medida que o marco regulatório for implementado.
O Brasil já demonstrou sua capacidade de adotar tecnologias financeiras em larga escala. A oportunidade agora é construir um mercado de ativos digitais em que segurança e inovação avancem juntas. Isso será mais importante do que o número de empresas que operam no país.
*Fábio Plein é diretor-geral da Coinbase no Brasil
