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Sacre Investimentos
InvestMercados
20/08/2026
5 min

Relembre o escândalo da Evergrande que levou seu fundador à prisão perpétua

Incorporadora foi maior empresa de um setor que respondia por cerca de um terço do PIB chinês e era fonte relevante de receita para governos locais

Relembre o escândalo da Evergrande que levou seu fundador à prisão perpétua

O fundador da China Evergrande Group, Hui Ka Yan, foi condenado à prisão perpétua nesta quinta-feira, 20, por um tribunal de Shenzhen, cinco anos depois de o colapso da incorporadora mais endividada do mundo abalar a economia e os mercados financeiros da China. A Corte também determinou o confisco de todos os bens pessoais do empresário, que já foi o homem mais rico da Ásia.

Conhecido também como Xu Jiayin, Hui, de 67 anos, havia se declarado culpado em abril de oito acusações, entre elas desvio de recursos, fraude na captação de recursos, captação ilegal de depósitos públicos, concessão irregular de empréstimos, emissão fraudulenta de valores mobiliários e corrupção. Não era visto em público desde 2023, quando foi detido pelas autoridades chinesas após o calote da Evergrande.

Segundo a corte, os atos criminosos do grupo Evergrande, da Hengda Real Estate e do próprio fundador envolveram valores elevados e circunstâncias graves, causaram perdas econômicas expressivas e sério dano social, e deveriam ser severamente punidos conforme a lei.

A Justiça multou a Evergrande em 8,82 bilhões de yuans (cerca de US$ 1,31 bilhão) e sua principal subsidiária, a Hengda, em 7 bilhões de yuans. Outros cinco altos executivos receberam penas de prisão que variam de seis a 18 anos, além de multas. Segundo a emissora estatal CCTV, um total de 56 pessoas ligadas à companhia foram sentenciadas nesta quinta-feira, além de Hui.

Entre os condenados estão os dois filhos do empresário, Xu Zhijian e Xu Tenghe, com penas que vão de 22 meses a 18 anos de prisão, de acordo com a imprensa estatal chinesa. Somadas, as multas aplicadas às antigas empresas de Hui chegaram a 15,82 bilhões de yuans por múltiplos crimes, incluindo falsificação de registros e ocultação de dívidas.

Do topo da lista de mais ricos da Ásia à cela

Ex-técnico siderúrgico criado pela avó em uma aldeia rural da província de Henan, no centro da China, Hui fundou a Evergrande em 1996, em Guangzhou. Transformou a empresa na maior incorporadora do país em vendas contratadas, assumindo dívidas de forma agressiva. Em 2017, tinha patrimônio de US$ 45,3 bilhões, o maior da Ásia, segundo a Forbes.

No auge, em 2018, a Evergrande foi classificada como a incorporadora mais valiosa do mundo, com valor de mercado superior a US$ 50 bilhões. Estava presente em 280 cidades chinesas e atuava em setores diversos. O modelo de expansão apoiado em empréstimos agressivos, porém, começou a ruir quando Pequim lançou, em agosto de 2020, a política das "três linhas vermelhas", que impôs limites rigorosos ao endividamento das incorporadoras.

Sem conseguir honrar os pagamentos de juros, a companhia passou a vender imóveis com descontos elevados para se manter de pé antes de dar calote em 2021, com passivos superiores a US$ 300 bilhões. O episódio detonou uma crise sistêmica que se espalhou pelo setor. Outras incorporadoras, como Kaisa, Fantasia e Shimao, também entraram em default pouco tempo depois.

Recursos de compradores desviados para novos projetos

Na audiência de abril, o tribunal ouviu que a companhia captou milhões de dólares em recursos de pré-venda de potenciais compradores de imóveis que não foram usados nas obras. O dinheiro teria sido canalizado para novos empreendimentos, o que resultou em centenas de projetos inacabados.

Investidores comuns, muitos de baixa renda, viram suas aplicações desaparecerem. Em grupos de redes sociais de mutuários da Evergrande, comentários resumiam o sentimento: "Todos os cidadãos comuns pagaram a conta".

Liquidação arrasta-se há anos

Um tribunal de Hong Kong determinou a liquidação da Evergrande em 2024, e a Bolsa de Hong Kong excluiu a companhia da negociação em agosto de 2025, após 18 meses de suspensão dos papéis, encerrando uma trajetória de ascensão e queda.

O processo de liquidação tem avançado em ritmo lento,. Até agosto do ano passado, apenas cerca de US$ 255 milhões em ativos haviam sido vendidos, enquanto reivindicações de credores que somam US$ 45 bilhões. Disputas judiciais tentam congelar os ativos offshore de Hui e de sua ex-esposa, na tentativa de recuperar US$ 6 bilhões em dividendos e remuneração pagos ao fundador e a outros ex-executivos.

Em 2024, o regulador de valores mobiliários da China já havia multado Hui em US$ 6,6 milhões e o proibido de atuar no mercado de capitais para sempre, após concluir que a unidade principal da Evergrande inflou lucros e cometeu fraude com valores mobiliários. À época, a empresa foi acusada de exagerar suas receitas em US$ 78 bilhões.

O colapso da Evergrande costuma ser apontado como estopim de uma desaceleração mais ampla do mercado imobiliário chinês, que segue pesando sobre a economia. No auge, a incorporadora era a maior empresa de um setor que respondia por cerca de um terço do Produto Interno Bruto da China e representava fonte relevante de receita para governos locais.

Os problemas persistentes do segmento continuam a afetar a segunda maior economia do mundo, à medida que outras grandes incorporadoras enfrentam dificuldades financeiras.

AutorMitchel Diniz
FonteExame
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