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10/08/2026
5 min

Remédios na Shopee? Agora pode, mas quem realmente ganha com isso é um dos concorrentes

Mudança regulatória abre espaço para Shopee, iFood e Mercado Livre avançarem sobre o mercado farmacêutico, mas grandes redes ainda mantêm vantagens

Remédios na Shopee? Agora pode, mas quem realmente ganha com isso é um dos concorrentes

Nesta segunda-feira (10), as portas para a Shopee realizar um sonho antigo se abriram: entrar no mercado de medicamentos. Segundo uma decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a plataforma agora pode comercializar remédios de farmácias e drogarias devidamente licenciadas.

A decisão revoga uma proibição em com a qual a asiática convivia desde março de 2022, que impedia a comercialização e a propaganda de medicamentos no seu marketplace. Embora a decisão desta manhã trate especificamente da Shopee, a mudança no ambiente regulatório alcança também outras plataformas digitais, como iFood, Rappi e Mercado Livre (MELI34).

A mudança ocorre após a entrada Lei nº 15.357, de março de 2026, que alterou as regras para o comércio de medicamentos no país. A nova legislação passou a permitir expressamente que farmácias e drogarias licenciadas contratem plataformas de comércio eletrônico para a logística e a entrega de medicamentos aos consumidores, desde que cumpridas as normas sanitárias aplicáveis.

Ou seja, as plataformas não podem comprar e/ou estocar medicamentos para venda. A autorização permite que atuem como intermediárias entre farmácias e compradores, no chamado modelo 3P, já predominante na operação desses marketplaces em outros segmentos.

Na visão do BTG Pactual, o anúncio funciona mais como eliminação da incerteza regulatória que pairava esse modelo de intermediação, não como uma mudança fundamental sobre quem está autorizado a vender medicamentos.

"Ainda assim, a medida deve acelerar o desenvolvimento das ofertas de produtos farmacêuticos por empresas digitais e aumentar a pressão competitiva sobre as redes de drogarias já estabelecidas", diz o banco em relatório.

iFood tem a maior vantagem (e vira a maior ameaça), mas...

Considerando a elevada frequência de uso do aplicativo e a infraestrutura já estabelecida para entregas rápidas, o banco vê o iFood como principal ameaça às redes de drogarias no momento. Segundo o time de análise, a empresa já está recrutando ativamente farmácias, oferecendo integração de estoques, acesso à sua rede de entregas e ferramentas promocionais e de marketing.

Hoje, as farmácias podem contar com 400 mil entregadores parceiros, e a plataforma desenvolve funcionalidades como descontos de programas de benefícios e integração com programas de fidelidade. A comissão é de 6% quando a entrega é realizada pelo próprio estabelecimento e de 12% quando é utilizada a entrega do iFood.

"Em nossa visão, portanto, a principal vantagem competitiva do iFood não está no sortimento ou na expertise farmacêutica, mas na combinação de tráfego com conveniência na última milha: a plataforma consegue colocar uma vitrine de farmácia diante de consumidores que já estão acostumados a pedir produtos para entrega rápida", dizem os analistas do BTG.

No entanto, para o banco, essa vantagem torna o iFood uma ameaça maior nas compras urgentes ou motivadas por necessidades específicas — sobretudo de medicamentos isentos de prescrição (OTC) e produtos de higiene e cuidados pessoais (HPC) — do que na disputa pela totalidade dos gastos dos consumidores em farmácias.

Outro ponto que o banco levanta é que o modelo do iFood continua dependente das farmácias parceiras para o sortimento, informações sobre estoque e qualidade do atendimento dos pedidos.

Isso cria uma diferença importante em relação à entrega de alimentos: a compra de medicamentos costuma exigir molécula, dosagem, marca ou apresentação específicas, o que torna a disponibilidade de cada SKU — isto é, de cada item específico em estoque — e a variedade do sortimento fatores consideravelmente mais relevantes.

"Redes independentes menores podem proporcionar ao iFood capilaridade geográfica, mas não necessariamente reproduzem a amplitude do sortimento, a profundidade dos estoques, a escala de compras, os dados sobre consumidores e o nível padronizado de serviço das maiores redes", diz o relatório.

Drogarias ainda têm vantagens sobre Shopee, Meli, iFood e companhia

"Continuamos acreditando que a vantagem competitiva das grandes redes de drogarias já estabelecidas, particularmente empresas como Raia Drogasil (RADL3), vai muito além da proximidade física", diz o BTG Pactual.

O time de análise destaca que o sucesso do comércio eletrônico farmacêutico depende da combinação de tráfego qualificado, profundidade de sortimento, disponibilidade de estoque e níveis de serviço, áreas nas quais as grandes redes omnichannel possuem vantagens estruturais relevantes.

Uma rede densa de lojas funciona simultaneamente como infraestrutura para aquisição de clientes, estoque distribuído e rede descentralizada de atendimento de pedidos, permitindo que uma empresa já estabelecida combine um amplo sortimento com entrega rápida e retirada em loja.

Além disso, plataformas de terceiros podem acabar se tornando canais adicionais de geração de demanda para as próprias redes tradicionais, desde que a relação econômica seja atraente e seja possível administrar adequadamente o controle sobre o relacionamento com o cliente.

"Em nossa visão, portanto, o modelo vencedor provavelmente não será uma disputa entre plataformas digitais e farmácias físicas, mas uma batalha entre diferentes ecossistemas omnichannel", dizem os analistas do BTG.

AutorBia Azevedo
FonteSeu Dinheiro
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