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Sacre Investimentos
Economia
03/08/2026
4 min

Renda real na América Latina cresceu 18% em 30 anos, metade do ritmo da OCDE

Brasil está acima da média regional em formalização, mas ainda enfrenta os mesmos desafios estruturais da região, aponta relatório do BID

Renda real na América Latina cresceu 18% em 30 anos, metade do ritmo da OCDE

As condições de trabalho na América Latina melhoraram nas últimas três décadas, mas em um ritmo insuficiente para reduzir a distância em relação às economias mais desenvolvidas. É o que mostra o relatório "Fazer os mercados de trabalho funcionarem", divulgado nesta segunda-feira, 3, pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Segundo o estudo, a renda real dos trabalhadores da região cresceu apenas 18% nos últimos 30 anos, cerca de metade do ritmo observado nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), formada majoritariamente por nações desenvolvidas. Embora mais mulheres tenham ingressado no mercado formal de trabalho e a cobertura de proteção social tenha avançado, a produtividade continua praticamente estagnada.

Hoje, aprodutividade média da América Latina corresponde a apenas 26% da registrada nos Estados Unidos. Na prática, isso significa que são necessários quase quatro trabalhadores latino-americanos para produzir o equivalente a um trabalhador americano.

O relatório também chama atenção para a estrutura do mercado de trabalho da região. Em 2024, 46% dos trabalhadores ainda atuavam como autônomos ou em microempresas. Apenas 28% ocupavam um emprego considerado "padrão", ou seja, um posto assalariado em empresa privada com cobertura de seguridade social.

Brasil melhorou mais que a média regional

Embora compartilhe os problemas estruturais da América Latina, o Brasil aparece entre os países que mais avançaram na formalização do mercado de trabalho nas últimas duas décadas.

Segundo o BID, a proporção de trabalhadores formais passou de 50% em 2004 para 65% em 2024, crescimento de 15 pontos percentuais.

Na média da América Latina, a formalização aumentou de 38% para 46%, avanço de apenas oito pontos.

Formalização do emprego 2004 2024
Brasil 50% 65%
América Latina 38% 46%

Entre os países analisados, apenas Uruguai (79%), Costa Rica (76%) e Chile (72%) apresentam índices de formalização superiores aos do Brasil.

Apesar dodesempenho acima da média, o país não é considerado uma exceção pelo relatório. O BID afirma que o Brasil continua enfrentando desafios semelhantes aos do restante da região, como baixa produtividade, desigualdade e dificuldades para ampliar empregos de maior qualidade.

Brasil conseguiu transformar produtividade em salários

Outro ponto em que o Brasil se destaca é na relação entre produtividade e renda do trabalhador. O BID destaca que ganhos de produtividade não se traduzem automaticamente em salários maiores.

Em países como Panamá e República Dominicana, por exemplo, o PIB por trabalhador cresceu de forma significativa desde 2000, mas a renda do trabalho avançou pouco.

Brasil e Bolívia aparecem como exemplos de países onde o aumento da produtividade foi acompanhado por crescimento darenda real dos trabalhadores.

Segundo o relatório, esse é um aspecto central para melhorar o padrão de vida da população.

"Os ganhos de produtividade só elevam o nível de vida quando chegam aos trabalhadores por meio de melhores salários", resume o estudo.

Salário mínimo brasileiro é intermediário na América Latina

Apesar do avanço na formalização, o Brasil não está entre os países com os maiores salários mínimos da região.

Segundo dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) compilados pelo BID, o salário mínimo brasileiro equivalia a US$ 522,9 mensais em paridade de poder de compra (PPC) em 2023.

O valor coloca o país em umaposição intermediária no ranking latino-americano.

País Salário mínimo mensal (US$ PPC)
Bolívia 1.039,6
Equador 914,1
Costa Rica 891,6
Panamá 861,3
Chile 835,1
Argentina 833,6
Paraguai 813,7
Colômbia 726,3
Uruguai 684,5
Brasil 522,9
Peru 532,8
México 421,0
Haiti 270,7

O BID ressalta, contudo, que o valor do salário mínimo, isoladamente, não mede a qualidade do mercado de trabalho. Produtividade, formalização, qualificação profissional e capacidade de distribuir os ganhos econômicos entre os trabalhadores são fatores considerados mais relevantes para elevar o nível de vida.

Inteligência artificial e envelhecimento aumentam pressão

Além dos problemas históricos, o relatório aponta que a América Latina enfrenta novos desafios. A expansão da inteligência artificial, do trabalho remoto e das plataformas digitais deve transformar o mercado de trabalho nos próximos anos, enquanto o envelhecimento da população reduz o crescimento da força de trabalho e aumenta a pressão sobre os sistemas previdenciários.

Segundo o BID, as habilidades dos trabalhadores também estão ficando defasadas em relação às demandas das empresas.

Para enfrentar esse cenário, o banco recomenda ampliar investimentos em qualificação profissional, proteção social e sistemas de aposentadoria, além de criar políticas que estimulem a contratação formal e aumentem a produtividade da economia.

O relatório conclui que, sem avanços nessa agenda, a América Latina continuará distante dos níveis de renda e produtividade observados nas economias mais desenvolvidas.

AutorPaloma Lazzaro
FonteExame
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