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Sacre Investimentos
EconomiaCMDT
16/07/2026
4 min

Renegociação de dívidas rurais: medida é ‘tapa-buraco’ e não resolve todo o problema, diz pesquisador do Insper

Renegociação de dívidas rurais: medida é ‘tapa-buraco’ e não resolve todo o problema, diz pesquisador do Insper

A medida provisória que cria um programa para renegociação das dívidas rurais representa um passo importante para aliviar a crise financeira enfrentada pelo agronegócio brasileiro, mas ainda deixa de fora uma parcela relevante dos passivos dos produtores. Essa é a avaliação de Leandro Gilio, pesquisador e professor do Insper Agro Global, em conversa ao Money Times.

Segundo Gilio, o setor atravessa um cenário de endividamento recorde, consequência da disparada dos custos de produção nos últimos anos, movimento que não foi acompanhado pela evolução dos preços das commodities agrícolas.

“Os produtores já vinham enfrentando um problema grave com relação ao endividamento. A gente tem o endividamento em nível recorde e também um nível recorde de recuperações judiciais”, afirma.

Na avaliação do pesquisador, o aumento dos custos, combinado com a queda dos preços em diversas cadeias produtivas, reduziu significativamente as margens dos produtores, dificultando tanto o pagamento das dívidas quanto a contratação de novos financiamentos.

“O produtor acabou ficando com a margem muito apertada ou muito endividado, com grande dificuldade de realizar novas contratações de empréstimos e investimentos.”

Crédito travado reduz efeito do Plano Safra

Para Gilio, o elevado endividamento compromete inclusive a eficácia do Plano Safra.

Segundo ele, de pouco adianta o governo anunciar volumes recordes de recursos se parte dos produtores não consegue acessar o crédito por já apresentar restrições financeiras.

“Muitos produtores estavam com dificuldade de acesso ao crédito. Um Plano Safra recorde acaba perdendo a efetividade porque eles nem conseguem acessar os recursos devido às dificuldades que vêm enfrentando.”

Ele acrescenta que o cenário pode se tornar ainda mais desafiador diante dos riscos climáticos associados ao retorno do El Niño, que tende a elevar a incerteza sobre a produção agrícola.

Medida é um “tapa-buraco”

Apesar das limitações, Gilio considera que a MP era uma demanda necessária do setor.

Na visão dele, a iniciativa funciona como um mecanismo emergencial para aliviar a situação financeira dos produtores mais pressionados.

“É necessário, sim, uma medida que é um certo tapa-buraco, por conta desse endividamento muito alto que a gente está assistindo.”

O pesquisador destaca positivamente a possibilidade de renegociação das dívidas em prazos longos, entre oito e dez anos, permitindo que produtores recuperem parte da capacidade financeira para voltar a investir.

Dívidas com tradings e revendas ficam de fora

O principal ponto de atenção levantado por Gilio é o alcance limitado da medida.

Segundo ele, a MP contempla apenas operações ligadas ao sistema bancário, deixando de fora débitos que muitos produtores mantêm com tradings, revendas de insumos e outros fornecedores da cadeia do agronegócio.

“A ação contempla as dívidas que envolvem o sistema bancário. Não entram várias dívidas que os produtores têm com as tradings, com as revendas de insumos e diretamente com outros agentes do setor.”

Na prática, afirma, muitos agricultores continuarão enfrentando dificuldades financeiras mesmo após renegociarem os financiamentos bancários.

“Ela acaba ficando um pouco limitada, porque o produtor muitas vezes também tem dificuldade de renegociar as dívidas diretamente relacionadas à sua atividade, que não passam pelos bancos.”

Produção de alimentos e inflação

Para o pesquisador, a renegociação também tem impacto sobre a economia como um todo.

Ele argumenta que produtores excessivamente endividados tendem a reduzir investimentos no campo, o que pode afetar a produção agrícola e, consequentemente, pressionar os preços dos alimentos.

“É uma medida necessária para que existam investimentos no setor. Dificuldade do produtor em investir é bastante impactante em termos de produção, e dificuldade na produção de alimentos pode impactar a inflação.”

Sem prejuízo aos bons pagadores

Questionado sobre críticas de que a medida poderia penalizar produtores que mantiveram suas obrigações financeiras em dia, Gilio avalia que esse risco é limitado.

Segundo ele, os bons pagadores continuam sendo beneficiados pelo mercado por meio de melhores condições de crédito e taxas de juros mais competitivas.

“Não acho que ela seja negativa aos bons pagadores. Eles continuam tendo melhores condições no mercado. Na verdade, é uma medida para remediar a condição ruim pela qual os produtores estão vivendo hoje.”

AutorPasquale Augusto
FonteMoney Times
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