Republicanos ampliam gastos com anúncios diante de risco de perder maioria no Congresso dos EUA
Alta dos combustíveis e insatisfação com o custo de vida pressionam candidatos do partido de Trump, que reforçam campanhas até em estados tradicionalmente republicanos

RESUMO +
A poucas semanas das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, os republicanos acrescentaram US$ 434 milhões aos gastos com anúncios para disputas no Congresso, segundo a empresa de análise eleitoral AdImpact. A ofensiva alcança estados antes considerados seguros, como Kansas e Flórida, diante da insatisfação econômica, da impopularidade de Donald Trump e do avanço democrata nas pesquisas.
Os candidatos republicanos às eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos ampliaram significativamente os gastos com publicidade eleitoral diante da queda nos índices de apoio ao partido, a poucas semanas da votação de novembro.
Nas últimas três semanas, a legenda aumentou em US$ 434 milhões os investimentos em anúncios para disputas pelo Senado e pela Câmara dos Representantes, segundo o Financial Times (FT), incluindo estados antes não considerados competitivos, segundo dados da empresa de análise eleitoral AdImpact.
Oaumento representa uma alta de 46% nos gastos com publicidade nas disputas ao Senado e de 36% nas campanhas para a Câmara, diz o FT. A ofensiva ocorre em meio ao avanço dos preços, impulsionado em parte pelo encarecimento dos combustíveis durante a guerra com o Irã, que tem prejudicado a popularidade do presidente Donald Trump e favorecido os democratas em temas considerados prioritários pelos eleitores.
O impacto é particularmente acentuado em áreas rurais e em comunidades agrícolas. O diesel está sendo comercializado, em média, por cerca de US$ 6,30 por galão, preço mais de 70% superior ao registrado um ano antes. Apesar da pressão sobre o orçamento das famílias e dos custos de produção, Trump classificou como “farsa” a preocupação com a acessibilidade econômica e minimizou as queixas sobre a alta dos preços dos combustíveis.
Partido fragmentado
A postura do presidente tem aumentado a apreensão entre republicanos, que temem perder suas estreitas maiorias no Congresso. Charles Franklin, professor da Faculdade de Direito da Universidade Marquette e diretor de seu programa de pesquisas eleitorais, afirmou ao FT que Trump enfrenta uma situação especialmente desfavorável em relação ao custo de vida, uma das principais preocupações dos eleitores. Segundo ele, o presidente registra índices de aprovação ainda piores nesse tema do que na avaliação geral.
O desgastetambém levou alguns candidatos republicanos a se distanciarem de políticas presidenciais. Mike Rogers, ex-integrante da Câmara que disputa uma vaga no Senado por Michigan, e a senadora Susan Collins, do Maine, criticaram as tarifas impostas por Trump sobre produtos canadenses, que afetam as economias locais em ambos os estados fronteiriços.
A dificuldade em defender a agenda econômica do governo tornou vulneráveis até mesmo os redutos tradicionais do Partido Republicano. No Kansas, onde os democratas não vencem uma eleição para o Senado desde 1932, pesquisas recentes apontam empate técnico entre o senador republicano Roger Marshall e o democrata Adam Hamilton, pastor que tenta se apresentar como um candidato de centro.
Desde 22 de setembro, os republicanos elevaram de US$ 5 milhões para US$ 21 milhões os investimentos em publicidade no estado para defender a reeleição de Marshall. Os democratas aproveitaram a oportunidade e acrescentaram US$ 20 milhões aos gastos com anúncios na disputa.
Na Flórida, outro estado tradicionalmente republicano, o partido também ampliou os recursos destinados à defesa da vaga no Senado anteriormente ocupada por Marco Rubio, atual secretário de Estado dos Estados Unidos. Até 14 de outubro, os republicanos haviam investido US$ 22,5 milhões em publicidade na disputa, contra apenas US$ 7 milhões três semanas antes.
Em outras corridas, porém, o cenário levou os republicanos a reverem a distribuição de recursos. O braço do partido responsável pelas campanhas ao Senado retirou investimentos de algumas disputas, incluindo as da Carolina do Norte e da Geórgia. Na Carolina do Norte, Trump venceu por mais de três pontos percentuais em 2024, mas o candidato democrata ao Senado agora aparece com uma vantagem de dez pontos percentuais. O partido também redirecionou recursos de algumas disputas na Câmara dos Representantes.
Em estados decisivos, por outro lado, as duas legendas intensificaram os investimentos na reta final da campanha. A eleição para o Senado no Texas já concentrou mais de US$ 503 milhões em publicidade nas primárias e na disputa geral, tornando-se a corrida mais cara do atual ciclo eleitoral. Nas últimas três semanas, os gastos republicanos com anúncios no estado dispararam em 131%, atingindo US$ 232 milhões.
Mesmo assim, segundo as pesquisas mais recentes compiladas pelo RealClearPolitics, o democrata James Talarico mantém uma vantagem de aproximadamente três pontos percentuais sobre o republicano Ken Paxton, procurador-geral do Texas, que enfrenta controvérsias políticas e recebeu o apoio de Trump em maio.
Os democratas também aumentaram os gastos em disputas que passaram a ser consideradas competitivas. Em Iowa, que não elege um democrata para o Senado desde 2008, o candidato do partido elevou em 79% os investimentos em anúncios nas últimas três semanas. Uma pesquisa da Universidade Suffolk, de Boston, indica que ele conta com o apoio da maioria dos eleitores independentes.
A preferência desse grupo pode ser decisiva para o resultado das eleições. Scott McLean, professor de ciência política da Universidade Quinnipiac, em Connecticut, observa que eleitores independentes indecisos tendem a votar contra quem está no poder, sobretudo em períodos de preocupação econômica. Segundo ele, os democratas têm vantagem sobre os independentes que vivem nos subúrbios.
O resultado, contudo, dependerá da capacidade de cada partido de mobilizar seus próprios eleitores indecisos e de conquistar o voto independente, diz o Financial Times. Para os republicanos, o desafio é convencer o eleitorado a permanecer fiel à legenda apesar da insatisfação econômica e da impopularidade de Trump. A escalada dos gastos publicitários evidencia a preocupação do partido com a disputa e com a dificuldade de preservar sua maioria no Congresso.
