Reserva de emergência ‘turbinada’? Conheça os ETFs de renda fixa que prometem ser mais baratos que o Tesouro Selic e os CDBs
Com alíquota de Imposto de Renda de 15%, fundos de índice de renda fixa surgem como possíveis substitutos de outros ativos para a reserva de emergência

A reserva de emergência é sempre definida como o primeiro investimento a se ter na carteira. Ela deve ser aplicada em ativos de baixíssimo risco de crédito, com facilidade no resgate, sem oscilação de preços e num valor que dê conta de segurar as pontas da vida financeira quando algo dá errado.
Não é à toa que — no caso de quem já se livrou da poupança — os títulos mais procurados para compor a reserva de emergência sejam o Tesouro Selic e os CDBs ou “caixinhas” dos bancos digitais com retorno de 100% do CDI.
Mas, agora, o mercado já dispõe de uma outra opção de investimento para essa finalidade, e ele é negociado num ambiente antes inimaginável para se investir o colchão financeiro: a bolsa de valores.
Estamos falando dos Exchange Traded Funds (ETFs), fundos de investimento atrelados à performance de índices do mercado.
De maneira geral, os ETFs replicam o desempenho de indicadores como índices de ações, fundos imobiliários, commodities, moedas, criptomoedas e até de renda fixa.
Dentro desta classe, há aqueles que replicam o desempenho de índices de crédito privado, títulos públicos e até ativos internacionais.
Mas gestoras de peso no mercado têm lançado versões desse produto voltadas justamente para a reserva de emergência, com carteiras que contêm:
- Tesouro Selic, na maior parcela do portfólio; e
- Uma mini parte de Tesouro IPCA+ de longo prazo, que não passa de 10% da carteira.
Essa composição faz com que esses fundos de índice sigam a variação da taxa básica de juros praticamente à risca e se tornem mais baratos do que investir diretamente no Tesouro Selic via Tesouro Direto ou em um CDB que pague 100% do CDI.
Entre as instituições financeiras que oferecem ativos como esse estão BTG Pactual Asset (LIQB11), Investo (LFTB11), XP Asset (LTBX11), Itaú Asset (CDIB11) e a AUVP (AUPO11) – esse último em parceria com a gestora do BTG.
Mas como exatamente esse investimento funciona? É recomendado para todo mundo? Trata-se de uma reserva de emergência “turbinada”?
Fundo de renda fixa negociado em bolsa?
Cabe destacar que, embora sejam negociados na B3, os ETFs de renda fixa não têm o mesmo comportamento, nem o mesmo risco, das ações e outros investimentos de renda variável. Eles são investimentos de renda fixa mesmo.
O investidor compra as cotas diretamente pelo home broker, mas a oscilação dos preços reflete — no caso desses fundos indexados à Selic e ao IPCA — o movimento dos juros e da inflação, seguindo a mesma lógica de desempenho dos títulos que integram sua carteira.
Desembarcada no Brasil em 2004, a indústria de ETFs começou a ganhar força principalmente nos últimos dois anos, com participação relevante da renda fixa.
Os ETFs de renda fixa têm múltiplas vantagens em comparação aos fundos de investimento tradicionais e mesmo ao investimento direto em títulos públicos e bancários.
Eles não têm IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), como outras aplicações de renda fixa, nem come-cotas, cobrança de imposto de renda semestral feita nos fundos de investimento tradicionais.
Mas talvez a principal vantagem seja a alíquota de IR única, cobrada diretamente na fonte quando a cota é vendida.
Ela pode ser mais baixa que as da renda fixa tradicional, sujeita à tabela regressiva, cujas alíquotas variam com o tempo que o investidor permanece com o ativo:
- 22,5% para aplicações com prazo de até 180 dias;
- 20% para aplicações com prazo de 181 dias até 360 dias;
- 17,5% para aplicações com prazo de 361 dias até 720 dias;
- 15% para aplicações com prazo acima de 721 dias.
Já nos ETFs de renda fixa, a cobrança de IR varia de acordo com o prazo médio da carteira do fundo, e não de acordo com o tempo que o investidor permaneceu investido:
- 25% se a carteira do fundo tiver até 180 dias;
- 20% para prazo médio de 181 e 720 dias; e
- 15% para prazo acima de 720 dias.
Um ETF composto totalmente por Tesouro Selic é enquadrado na alíquota de 25% do Imposto de Renda, porque, por definição, o prazo médio da carteira é próximo de zero, independentemente dos prazos dos títulos que a compõem.
Para driblar essa cobrança nos fundos de índice focados em reserva, as gestoras passaram a incluir um pequeno percentual de IPCA+ de longo prazo, de modo que o prazo médio da carteira seja sempre acima de 720 dias.
Ou seja, esses ETFs têm cobrança de somente 15% de Imposto de Renda sobre os ganhos, independentemente do tempo que o dinheiro levou para ser resgatado.
Em outras palavras, se resgatar o dinheiro num prazo curto — uso típico de uma reserva de emergência —, o investidor paga menos imposto no ETF de renda fixa do que nos ativos tradicionais.
Essa estratégia tem história...
Vale revisitar uma polêmica do mercado financeiro que deu origem a essa estratégia.
Desde 2022, a gestora Investo tem o ETF LFTS11, composto por títulos do Tesouro Selic com vencimento de dois anos. Na época, o entendimento sobre a tributação dos ETFs de renda fixa era de que esse prazo era suficiente para enquadrar o ativo na alíquota de 15%, o que se mostrava bastante vantajoso.
No entanto, um ano depois, a casa de análise Spiti apontou que a forma como o LFTS11 apurava a tributação estava errada, e o correto deveria ser 25%, devido ao prazo médio de repactuação do Tesouro Selic ser de um dia.
O mistério levou pouco mais de seis meses para ser solucionado, e o ETF da Investo saiu perdedor. Ele de fato precisaria começar a cobrar a alíquota de Imposto de Renda maior.
De fato, outros ETFs de Tesouro Selic do mercado também são tributados em 25%, e, embora disponíveis na bolsa para qualquer investidor, costumam ser direcionados aos institucionais, como outros fundos de investimento.
A solução encontrada pela Investo foi criar um outro fundo de índice, que investe 90,91% em Tesouro Selic e 9,09% no Tesouro IPCA+, com vencimento em 2060 para alongar o prazo médio da carteira.
O LFTB11 atualmente é o maior ETF de renda fixa em número de cotistas. O ativo possui 62 mil investidores, um patrimônio líquido de R$ 5,1 bilhões e inspirou a criação de outros ETFs com esse modelo no mercado.
As diferenças tributárias em relação ao Tesouro Selic
Além do IR de 15%, os investidores desses ETFs pagam taxa de administração:
| Gestora | Ticker | Preço da cota¹ | Taxa de administração² |
| XP Allocation Asset | LTBX11 | R$ 26,17 | 0,14% |
| BTG Pactual Asset | LIQB11 | R$ 100,76 | 0,15% |
| BTG Pactual Asset / AUVP | AUPO11 | R$ 108,49 | 0,15% |
| Itaú Asset | CDIB11 | R$ 51,14 | 0,15% |
| Investo | LFTB11 | R$ 124,69 | 0,19% |
²Percentual cobrado ao ano sobre todo o patrimônio investido.
Fonte: Levantamento realizado pelo Seu Dinheiro
Já nos títulos do Tesouro Direto há a cobrança da taxa de custódia, que é de 0,20% ao ano, maior do que qualquer uma das taxas de administração das gestoras.
No Tesouro Selic, porém, aportes de até R$ 10 mil são isentos de cobrança. Acima desse valor, o percentual é cobrado somente sobre o excedente.
Outro diferencial é o IOF. Enquanto os ETFs são totalmente isentos, resgates anteriores a 30 dias no Tesouro Selic, em CDBs e fundos de renda fixa tradicionais ficam sujeitos à cobrança, que começa em 96% sobre o rendimento e reduz gradativamente até o fim do primeiro mês de aplicação.
Nem tudo são flores
Apesar das vantagens tributárias e das taxas de administração baixas, os ETFs de renda fixa têm alguns pontos que jogam contra. O principal deles é o tempo que leva entre a venda da cota e o dinheiro cair na conta.
Nos fundos de índice, é preciso seguir os horários de operação da bolsa de valores, e a liquidação demora um dia útil.
No Tesouro Selic esse processo também não é imediato. Para solicitações até 13h durante a semana, o dinheiro cai na conta no mesmo dia. Depois desse horário, só no dia seguinte, também sempre em dias úteis.
Porém, no mercado já existem produtos que permitem o resgate quase que instantâneo. Alguns CDBs que rendem 100% do CDI podem ser negociados 24 horas por dia, bem como o Tesouro Reserva, novo título voltado para a reserva de emergência lançado pelo Tesouro Direto neste ano.
Vale lembrar também da exposição ao Tesouro IPCA+, que gera um pouco de volatilidade nos ETFs. Com esses títulos na carteira, as cotas podem oscilar um pouco para cima e para baixo no curto prazo em uma intensidade maior que o Tesouro Selic “puro”.
Porém, na visão dos gestores por trás dos produtos, esse é um risco controlado devido ao baixo percentual da carteira que está alocada nos ativos indexados à inflação.
Tiago Lima, sócio e head de distribuição da BTG Pactual Asset — responsável pelo LIQB11, lançado em julho, e o AUPO11 —, chega a defender que se trata de uma “cereja de bolo” positiva.
“O Tesouro IPCA+ potencialmente gera até prêmio para o investidor. Dificilmente o cotista vai ter algum retorno negativo por isso”, explica.
Afinal, serve para a reserva de emergência?
A resposta é sim, mas sob uma condição.
Esses ativos têm chamado a atenção do investidor pessoa física devido às vantagens tributárias, mas existem algumas ressalvas sobre ser usado como reserva de emergência.
Os ETFs são, de fato, bastante interessantes como uma aplicação de renda fixa conservadora, inclusive para objetivos de curto prazo.
Eles são mais baratos do ponto de vista tributário — no caso das carteiras que combinam Selic e IPCA+ de longo prazo —, o valor de uma cota em todas as gestoras é menor do que o investimento mínimo no Tesouro Selic (cerca de R$ 190) e, diferentemente do título do Tesouro Direto, não é preciso reinvestir o valor quando chega o vencimento dado que o próprio ETF já faz isso automaticamente.
Lima, do BTG, reforça que esse tipo de produto “pode e deve ser utilizado como reserva de emergência”.
Já outros especialistas destacam que, pensando na liquidez de um dia útil, o ideal é fazer uma estratégia mista.
Raul Sena, fundador da AUVP e influenciador digital conhecido como Investidor Sardinha, não recomenda deixar 100% do dinheiro da reserva de emergência no ETF.
Para ele, o recomendável é manter o equivalente a dois meses de despesas em uma conta poupança, no Tesouro Reserva ou em CDBs que possuem negociação 24 horas.
O restante, segundo Sena, deve ficar investido nos ETFs para aproveitar as vantagens desse tipo de ativo.
