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28/10/2026
12 min

Reservou um Airbnb? Parte do valor ajuda a acolher vítimas de desastres e violência doméstica

AIrbnb.org, organização sem fins lucrativos da empresa de estadias, pretende oferecer um milhão de noites gratuitas por ano; em entrevista à EXAME, diretor-executivo detalha expansão para novos públicos e atuação no país

Reservou um Airbnb? Parte do valor ajuda a acolher vítimas de desastres e violência doméstica

O Airbnb anunciou nesta quarta-feira, 28, um novo modelo de financiamento que prevê destinar US$ 500 milhões ao Airbnb.org nos próximos cinco anos, vinculando parte da receita de suas reservas ao atendimento de pessoas em situações de emergência.

A iniciativa pretende ampliar a oferta de hospedagens temporárias gratuitas para vítimas de desastres, famílias que precisam viajar para tratamentos médicos e sobreviventes de violência doméstica, entre outros grupos.

A mudança estabelece uma doação de US$ 0,10 por estadia realizada na plataforma, sem custos adicionais para hóspedes ou redução dos pagamentos aos anfitriões. A meta é permitir que o Airbnb.org, organização independente e sem fins lucrativos criada pela empresa em 2020, ofereça um milhão de noites de acomodação gratuita por ano.

O anúncio marca uma mudança na forma como a companhia financia sua atuação social. Em vez de depender apenas de contribuições voluntárias e repasses específicos, o novo mecanismo associa parte dos recursos destinados à organização ao volume de hospedagens realizadas na plataforma.

Na prática, quanto maior a quantidade de estadias, maior poderá ser o volume de doações. O alcance do compromisso, no entanto, depende do desempenho das reservas e da capacidade de expansão dos programas, fatores que a própria empresa reconhece como riscos para suas projeções.

Em entrevista à EXAME, Christoph Gorder, diretor-executivo do Airbnb.org, afirma que a decisão representa uma nova etapa de um projeto que começou com a mobilização espontânea de anfitriões durante um desastre natural nos Estados Unidos.

"A história começou há mais de dez anos, quando passamos a hospedar pessoas em situações de desastre. Alguns anfitriões decidiram espontaneamente que queriam ajudar seus vizinhos, abrir suas casas e oferecer um lugar para ficar", conta.

Segundo Gorder, cerca de mil anfitriões se mobilizaram naquele primeiro momento. A experiência deu origem a um modelo que, anos depois, passou a contar com uma estrutura institucional própria.

"Agora estamos entrando na próxima fase desse compromisso. À medida que o Airbnbcresce, poderemos ajudar mais pessoas", afirma.

De uma resposta ao furacão Sandy a uma operação em 134 países

A origem do Airbnb.org remonta a 2012, quando o furacão Sandy atingiu Nova York e deixou moradores sem acesso às próprias casas. Uma anfitriã decidiu disponibilizar gratuitamente seu imóvel para receber pessoas desabrigadas, movimento que posteriormente foi acompanhado por outros participantes da plataforma.

A iniciativa continuou de maneira informal até 2020, quando o Airbnb criou o Airbnb.org como uma entidade independente, com conselho de administração próprio.

Desde então, a organização contabiliza mais de 1,6 milhão de noites de hospedagem gratuita oferecidas a mais de 250 mil pessoas. Segundo Gorder, o atendimento já alcançou 134 países, incluindo o Brasil.

O avanço também aparece na quantidade de emergências atendidas. Em 2023, o Airbnb.org respondeu a oito desastres. Em 2026, até a data do anúncio, foram mais de 200 ocorrências.

A expansão representa uma mudança na estratégia de atendimento. Inicialmente concentrada em grandes catástrofes, a organização passou a atuar também em eventos regionais de menor escala, nos quais poucas famílias podem precisar de acomodação temporária.

"Começamos trabalhando com grandes desastres. Depois percebemos que existiam muitos desastres regionais menores e que também tínhamos imóveis disponíveis nas proximidades. Então, por que não ajudar nessas situações?", explica Gorder.

O executivo argumenta que a principal diferença entre o modelo do Airbnb.org e iniciativas tradicionais de financiamento social está na utilização da infraestrutura tecnológica e da rede de hospedagens já existente.

"Uma dificuldade que muitas empresas enfrentam é entender como usar seus produtos, processos e público para apoiar causas sociais. No nosso caso, não se trata apenas de o Airbnb fazer uma doação financeira, mas de usar a própria plataforma para ajudar pessoas que precisam", diz.

A estrutura permite que a organização disponibilize créditos para que beneficiários reservem acomodações adequadas às suas necessidades. Isso pode incluir imóveis próximos de familiares, com recursos de acessibilidade, espaço para crianças ou possibilidade de receber animais de estimação.

A seleção das pessoas atendidas não ocorre diretamente pela plataforma. O Airbnb.org trabalha com organizações sem fins lucrativos e órgãos públicos, responsáveis por identificar famílias e indivíduos que necessitam de acomodação temporária.

Os beneficiários não pagam pela estadia, enquanto os anfitriões recebem pela hospedagem. O Airbnb também afirma que não obtém lucro com essas reservas e que cobre os custos operacionais da organização, permitindo que a totalidade das doações públicas seja destinada às acomodações.

Por que o Airbnb.org está ampliando sua atuação para além dos desastres?

A nova etapa de financiamento será acompanhada pela diversificação dos grupos atendidos. Além de pessoas deslocadas por desastres e refugiados, o Airbnb.org pretende ampliar os programas voltados a famílias em deslocamento por motivos médicos e iniciar atendimento a sobreviventes de violência doméstica e exploração.

Para Gorder, a decisão surgiu da constatação de que a necessidade de hospedagem temporária não se limita a enchentes, furacões ou outras situações de calamidade.

"Percebemos que existem diferentes necessidades de acomodação emergencial durante os 365 dias do ano, mesmo quando não há desastres. Começamos a pensar em como aproveitar a plataforma para ajudar também nesses momentos", afirma.

Um dos focos é o deslocamento de pacientes e familiares que precisam permanecer temporariamente em cidades diferentes de onde vivem para realizar tratamentos médicos.

O programa começou em novembro do ano passado, no México, e, segundo o executivo, já está presente em 16 países, incluindo o Brasil. A previsão é ultrapassar 20 países até o fim de 2026.

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No mercado brasileiro, o Airbnb.org trabalha com organizações que já atuam no atendimento a pacientes e familiares, como o Instituto Beabá e o INCAvoluntário, citados por Gorder durante a entrevista.

A proposta é integrar a oferta de acomodação a redes de apoio existentes, sem substituir os serviços prestados por hospitais e instituições especializadas.

"São organizações que já têm décadas de experiência apoiando pacientes. Elas oferecem transporte, assistência psicológica, serviços médicos e outros tipos de apoio. Nós entramos em um sistema que já existe", explica.

Entre as parcerias internacionais anunciadas estão a Leukaemia Foundation, na Austrália; a B.C. Friends of Children, no Canadá; a Fundación Xana, na Espanha; e a Children's Miracle Network, nos Estados Unidos.

Outra frente de atuação será o atendimento a pessoas que precisam deixar suas residências para escapar de situações de violência doméstica ou exploração.

A organização planeja iniciar o programa com projetos-piloto limitados, em parceria com instituições especializadas, incluindo a Peace House, no estado americano de Utah.

A expansão, porém, envolve desafios diferentes daqueles encontrados em respostas a desastres naturais. Para o executivo, questões relacionadas à segurança de vítimas e anfitriões exigem cuidados adicionais na seleção das acomodações e na definição dos procedimentos de atendimento.

"É muito mais complicado do ponto de vista da segurança. Precisamos ser cuidadosos na maneira como desenhamos o programa e nas organizações com as quais trabalhamos", afirma.

Segundo Gorder, a demanda por esse tipo de atendimento já chegou à organização por diferentes caminhos, incluindo pedidos de anfitriões, governos e entidades sociais. "A acomodação é fundamental nessas situações. Mas precisamos garantir que tanto os hóspedes quanto os anfitriões estejam seguros", diz.

O Airbnb.org também pretende ampliar o apoio a veteranos de guerra nos Estados Unidos que enfrentam doenças graves ou tratamentos intensivos, por meio de parcerias com a Fisher House Foundation, Dream Foundation e Operation Healing Forces.

Brasil como prioridade na expansão do Airbnb.org na América do Sul

Entre os mercados considerados estratégicos para a ampliação das atividades, o Brasil ocupa uma posição central nos planos da organização.

Gorder afirma que a combinação entre a quantidade de acomodações disponíveis, a ocorrência de desastres e a necessidade de deslocamento de pacientes cria condições para expandir os programas no país.

"O Brasil é muito importante. É um país enorme, com muitos imóveis no Airbnb e muito exposto a desastres. Milhões de brasileiros já foram deslocados por desastres e muitos também precisam viajar para grandes centros urbanos em busca de tratamento médico", afirma.

Na avaliação do executivo, o país deverá concentrar uma parcela relevante dos esforços regionais. "Quando olhamos para toda a América Latina, o Brasil certamente seria nossa principal prioridade na América do Sul", diz.

A expectativa de crescimento, no entanto, ainda não vem acompanhada de metas públicas específicas para o país. A organização não detalhou quanto dos US$ 500 milhões previstos deverá ser destinado ao mercado brasileiro nem quantas pessoas pretende atender localmente nos próximos anos.

Gorder afirma que o novo financiamento deverá aumentar os recursos disponíveis e a visibilidade dos programas, mas não apresentou uma projeção numérica para a expansão brasileira. "Acredito que nosso trabalho no Brasil vai crescer exponencialmente nos próximos anos", afirma.

A atuação no país já inclui respostas a desastres naturais, com destaque para as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024. Na ocasião, a organização acionou sua rede de parceiros e anfitriões para viabilizar acomodações temporárias.

A experiência também evidenciou uma dificuldade operacional para organizações de alcance internacional: identificar rapidamente as necessidades locais e estabelecer contato com instituições capazes de chegar às pessoas afetadas.

Nas enchentes do Rio Grande do Sul, anfitriões tiveram protagonismo

Para Luiz Kumer, anfitrião do Airbnb em Gramado, na Serra Gaúcha, a atuação durante as enchentes de 2024 mostrou a importância das redes locais na resposta a emergências.

Natural de Encantado, município do interior do Rio Grande do Sul, Kumer começou a oferecer hospedagens pela plataforma em junho de 2021, quando adquiriu um imóvel em Gramado e se mudou para a cidade.

No fim de 2022, passou a atuar como líder de comunidade, função voluntária na qual participa da articulação entre anfitriões e a plataforma. Foi durante as enchentes que conheceu mais de perto a operação do Airbnb.org. "Quando aconteceram as enchentes no estado, o Airbnb fez a ativação do Airbnb.org. Nós, que éramos líderes de comunidade, tanto aqui quanto em Porto Alegre, fazíamos a conexão entre a plataforma e as ONGs", relata à EXAME.

Segundo Kumer, os líderes locais ajudavam a identificar organizações, coletar informações e encaminhar contatos para que o Airbnb.org conduzisse seu processo de seleção das instituições responsáveis por apoiar a oferta de acomodações. O trabalho de articulação ganhou importância diante da velocidade com que a emergência se desenvolveu.

"Foi uma coisa que aconteceu praticamente de uma semana para outra. Não tivemos tempo para nos organizar. Precisamos fazer tudo correndo", lembra. Embora Gramado tenha sofrido impactos menores do que outras regiões do estado, a proximidade com municípios atingidos permitiu a mobilização de anfitriões e moradores para atividades de apoio.''

Kumer participou de ações em cidades como Três Coroas e Igrejinha, onde grupos de voluntários distribuíram cestas básicas, arrecadaram doações e ajudaram na limpeza de casas e bairros atingidos pela água. Sua principal contribuição ao Airbnb.org, porém, foi conectar a organização a entidades e pessoas que conheciam as necessidades da região.

"O Airbnb é uma multinacional, e o Airbnb.org tem sede nos Estados Unidos. Então acaba sendo muito difícil chegar lá na ponta. Como líderes de comunidade, fazemos esse papel de conectar os anfitriões e, nesse caso, as ONGs locais à organização", explica.

A experiência evidencia uma característica do modelo: embora a infraestrutura de reservas e os recursos financeiros tenham alcance internacional, a identificação das famílias atendidas depende da atuação de organizações e agentes com conhecimento das comunidades afetadas.

Para Kumer, essa estrutura também permite que os próprios anfitriões participem da resposta, sem necessariamente abrir mão da remuneração pela estadia.

"Tem muitas pessoas que dependem dessa renda. Quando acontece um desastre, elas também podem ter seus rendimentos afetados. Então, ao mesmo tempo que o anfitrião está ajudando outra pessoa, também pode manter uma fonte de receita", afirma.

O anfitrião considera que o apoio temporário pode ter importância mesmo fora de situações de calamidade pública, especialmente quando uma família precisa deixar sua residência por um período determinado.

"Não precisa ser necessariamente em um estado de calamidade. Existem situações pontuais em que as pessoas precisam de ajuda, e poder viabilizar uma acomodação nesses momentos também faz diferença", diz.

Como os anfitriões participam e de onde virão os recursos?

O novo financiamento anunciado pelo Airbnb não exige adesão dos anfitriões nem qualquer ação dos hóspedes. A companhia fará automaticamente a doação de US$ 0,10 por estadia elegível, sem repassar esse custo aos usuários ou reduzir o pagamento dos proprietários dos imóveis.

A contribuição não será realizada em reservas canceladas antes do check-in, momento de entrada na acomodação, nem em reservas de experiências ou serviços oferecidos pela plataforma.

Além dos repasses feitos pela empresa, os anfitriões poderão continuar contribuindo voluntariamente com o Airbnb.org.

Entre as possibilidades estão oferecer descontos em hospedagens destinadas aos beneficiários ou doar uma porcentagem dos ganhos obtidos na plataforma.

Segundo Gorder, alguns anfitriões optam por destinar 1% ou 2% de seus recebimentos mensais à organização, enquanto outros oferecem reduções de preço quando uma acomodação é reservada para pessoas atendidas pelos programas.

A decisão não altera a remuneração dos anfitriões que não desejarem contribuir. O executivo afirma que o envolvimento dessa comunidade tem peso na estrutura do Airbnb.org porque a própria iniciativa surgiu a partir de anfitriões que decidiram receber pessoas desabrigadas.

"Trabalhamos muito próximos dos anfitriões, ouvindo suas opiniões e ideias. Muitos fazem doações e oferecem descontos. Eles são parceiros fundamentais nesse processo", diz.

A empresa informou que os US$ 500 milhões representam um compromisso de financiamento projetado para cinco anos, e não um valor já integralmente transferido ao Airbnb.org. O montante efetivamente destinado à organização poderá variar conforme o volume de estadias realizadas e outros fatores considerados nas projeções corporativas.

A ampliação dos programas também dependerá da capacidade de estabelecer parcerias com organizações locais e desenvolver estruturas de atendimento adequadas a públicos com diferentes necessidades. No caso das vítimas de violência doméstica, por exemplo, ainda será necessário avaliar os resultados dos projetos-piloto antes de uma expansão mais ampla.

Para Gorder, um desafio adicional será tornar os programas conhecidos entre as famílias que poderiam utilizá-los. "Um dos nossos grandes desafios hoje é que as pessoas ainda não sabem que podem contar conosco", afirma.

No Brasil, onde a organização pretende ampliar tanto a resposta a desastres quanto o atendimento a pessoas em deslocamento por razões médicas, o avanço dependerá da articulação entre a rede de anfitriões, organizações sociais e instituições responsáveis por identificar os beneficiários.

AutorLetícia Ozório
FonteExame
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