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Sacre Investimentos
InvestMercadosCMDT
26/08/2026
5 min

Resgatada da crise, empresa fará 1ª mina subterrânea de níquel do Brasil com R$ 3,3 bi

Mineral é essencial na transição energética e é componente de baterias utilizadas em carros elétricos

Resgatada da crise, empresa fará 1ª mina subterrânea de níquel do Brasil com R$ 3,3 bi

Após ser resgatada de uma crise pela Appian Capital Brasil, fundo de private equity focado em mineração, a Atlantic Nickel está construindo a primeira mina subterrânea de níquel sulfetado da América Latina. O fundo injetou US$ 68 milhões na Atlantic em 2018m, quando a empresa estava em recuperação judicial. Ao longo do tempo, reestruturou e desenvolveu o negócio, que agora ficará responsável pelo projeto.

As dificuldades financeiras enfrentadas à época pela Atlantic, em parte, estavam relacionadas aos altos custos de operação. O problema estava associado ao baixo teor de níquel do minério, que exige a movimentação de grandes volumes de material para a extração do metal. A estratégia adotada pelo fundo foi tornar a operação mais eficiente.

“Esse é o modelo da Appian: achar oportunidades no mercado de mineração que outros não acreditam, e transformar isso em um negócio sustentável economicamente, do ponto de vista ambiental e através da eficiência”, diz Milson Mundinho, country manager na Appian Capital Brasil.

O fundo costuma adquirir a totalidade ou ao menos o controle dos negócios onde investe para implantar seu modelo de eficiência operacional. “É mais fácil que a gente seja controlador. Porque aí você não tem nenhum tipo de conflito com gestão de mudanças e com novas práticas operacionais”, afirma.

Evolução do projeto

Com a casa em ordem, a mina, localizada no município de Itagibá, no sul da Bahia, próximo a cidade de Ilhéus, começa a ser desenvolvida. Segundo a Appian, ela é a única produtora de níquel sulfetado do Brasil e, agora, vai ganhar um investimento de R$ 3,3 bilhões para ampliar sua capacidade com a construção do projeto subterrâneo.

Atualmente, a produção de níquel ocorre a céu aberto e tem capacidade anual de 6,5 milhões de toneladas do concentrado do minério, que também contém subprodutos como cobre, cobalto, platina, paládio e ouro.

Apenas em 2025, a operação no entorno dos município baianos de Gongogi, Ipiaú e Barra do Rocha, exportou 121 mil toneladas da commodity para a América do Norte, Europa e Ásia, por meio de 12 embarques — um resultado 6% superior se comparado ao mesmo período de 2024.

O aporte vai permitir estender a vida útil da mina para mais de 30 anos, atingindo uma produção anual de cerca de 24,5 mil toneladas de níquel.

O projeto da Mina de Santa Rita está na fase de desenvolvimento de engenharia. A Appian também já iniciou os chamados early works, atividades antecipadas para reduzir riscos e evitar gargalos no cronograma. Entre elas está a abertura do túnel de acesso inicial, que já soma mais de 400 metros construídos. A expectativa é que, ao longo dos 20 anos de projeto, sejam desenvolvidos cerca de 200 quilômetros de túneis.

De onde vem o capital?

O financiamento da expansão deverá combinar capital próprio e recursos de terceiros. Segundo a Appian, parte do funding já está assegurada por meio do fundo de investimento da gestora, enquanto a companhia negocia com diferentes potenciais financiadores para levantar o restante dos recursos. Entre eles estão bancos comerciais europeus, agências de fomento de países como os Estados Unidos e o BNDES.

A estrutura de capital ainda será definida, mas a Appian trabalha, em termos clássicos, com uma participação de cerca de 30% a 40% de capital próprio e o restante via financiamento.

“Estamos falando com uma série de fontes financiadoras do projeto”, comenta Mundinho.

A definição do financiamento ainda está em andamento, mas a empresa demonstra otimismo com as negociações, já que se trata de um projeto construído a partir de uma operação já existente.

Mais atratividade

A diferença entre a produção do níquel da China e a do projeto da Atlantic Nickel está na categoria: enquanto o país asiático produz níquel laterítico, a empresa brasileira produz níquel sulfetado. Este é considerada uma matéria-prima mais adequada para determinadas aplicações, especialmente na cadeia de baterias.

Outro diferencial é a baixa pegada de carbono da produção, o que atrai consumidores e fabricantes que buscam diversificar fornecedores e reduzir as emissões de suas cadeias produtivas.

Entretanto, segundo Mundinho, essa diferenciação ainda não se traduz em um preço formalmente maior no mercado. “Ainda não se paga um prêmio”, afirma. A expectativa, no entanto, é que o mercado passe a diferenciar cada vez mais os produtos conforme suas características e a intensidade de carbono envolvida na produção.

Por enquanto, a vantagem pode estar menos no preço e mais na preferência dos compradores. “Em um cenário de queda de demanda, a preferência do comprador é por um produto premium para baterias”, disse Mundinho.

Outra vantagem da produção subterrânea, de acordo com o executivo, é que os teores de níquel aumentam. O balanço energético se torna muito mais eficiente e a pegada de carbono também.

“O mesmo volume de minério será processado, e 60% mais de produto vai sair devido aos maiores teores que a gente encontra na mina”, afirma Mundinho.

A estratégia também inclui diversificar os destinos da produção, hoje distribuída entre clientes na China, Europa e América do Norte, especialmente Canadá.

O níquel é um dos materiais utilizados nas baterias de veículos elétricos e, por isso, necessário para a transição energética. O mercado de baterias deverá exigir cerca de 1,4 milhão de toneladas adicionais de níquel até 2030, segundo os dados apresentados pela Appian.

O volume se soma à oferta atual estimada em 3,6 milhões de toneladas, levando a uma necessidade total de aproximadamente 5 milhões de toneladas do mineral. Para atender a essa demanda adicional, seriam necessárias 28 novas minas de níquel, considerando um tamanho médio de 50 mil toneladas por mina.

AutorRebecca Crepaldi
FonteExame
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