Resgatada da crise, empresa fará 1ª mina subterrânea de níquel do Brasil com R$ 3,3 bi
Mineral é essencial na transição energética e é componente de baterias utilizadas em carros elétricos

Após ser resgatada de uma crise pela Appian Capital Brasil, fundo de private equity focado em mineração, a Atlantic Nickel está construindo a primeira mina subterrânea de níquel sulfetado da América Latina. O fundo injetou US$ 68 milhões na Atlantic em 2018m, quando a empresa estava em recuperação judicial. Ao longo do tempo, reestruturou e desenvolveu o negócio, que agora ficará responsável pelo projeto.
As dificuldades financeiras enfrentadas à época pela Atlantic, em parte, estavam relacionadas aos altos custos de operação. O problema estava associado ao baixo teor de níquel do minério, que exige a movimentação de grandes volumes de material para a extração do metal. A estratégia adotada pelo fundo foi tornar a operação mais eficiente.
“Esse é o modelo da Appian: achar oportunidades no mercado de mineração que outros não acreditam, e transformar isso em um negócio sustentável economicamente, do ponto de vista ambiental e através da eficiência”, diz Milson Mundinho, country manager na Appian Capital Brasil.
O fundo costuma adquirir a totalidade ou ao menos o controle dos negócios onde investe para implantar seu modelo de eficiência operacional. “É mais fácil que a gente seja controlador. Porque aí você não tem nenhum tipo de conflito com gestão de mudanças e com novas práticas operacionais”, afirma.
Evolução do projeto
Com a casa em ordem, a mina, localizada no município de Itagibá, no sul da Bahia, próximo a cidade de Ilhéus, começa a ser desenvolvida. Segundo a Appian, ela é a única produtora de níquel sulfetado do Brasil e, agora, vai ganhar um investimento de R$ 3,3 bilhões para ampliar sua capacidade com a construção do projeto subterrâneo.
Atualmente, a produção de níquel ocorre a céu aberto e tem capacidade anual de 6,5 milhões de toneladas do concentrado do minério, que também contém subprodutos como cobre, cobalto, platina, paládio e ouro.
Apenas em 2025, a operação no entorno dos município baianos de Gongogi, Ipiaú e Barra do Rocha, exportou 121 mil toneladas da commodity para a América do Norte, Europa e Ásia, por meio de 12 embarques — um resultado 6% superior se comparado ao mesmo período de 2024.
O aporte vai permitir estender a vida útil da mina para mais de 30 anos, atingindo uma produção anual de cerca de 24,5 mil toneladas de níquel.O projeto da Mina de Santa Rita está na fase de desenvolvimento de engenharia. A Appian também já iniciou os chamados early works, atividades antecipadas para reduzir riscos e evitar gargalos no cronograma. Entre elas está a abertura do túnel de acesso inicial, que já soma mais de 400 metros construídos. A expectativa é que, ao longo dos 20 anos de projeto, sejam desenvolvidos cerca de 200 quilômetros de túneis.
De onde vem o capital?
O financiamento da expansão deverá combinar capital próprio e recursos de terceiros. Segundo a Appian, parte do funding já está assegurada por meio do fundo de investimento da gestora, enquanto a companhia negocia com diferentes potenciais financiadores para levantar o restante dos recursos. Entre eles estão bancos comerciais europeus, agências de fomento de países como os Estados Unidos e o BNDES.
A estrutura de capital ainda será definida, mas a Appian trabalha, em termos clássicos, com uma participação de cerca de 30% a 40% de capital próprio e o restante via financiamento.
“Estamos falando com uma série de fontes financiadoras do projeto”, comenta Mundinho.
A definição do financiamento ainda está em andamento, mas a empresa demonstra otimismo com as negociações, já que se trata de um projeto construído a partir de uma operação já existente.
Mais atratividade
A diferença entre a produção do níquel da China e a do projeto da Atlantic Nickel está na categoria: enquanto o país asiático produz níquel laterítico, a empresa brasileira produz níquel sulfetado. Este é considerada uma matéria-prima mais adequada para determinadas aplicações, especialmente na cadeia de baterias.
Outro diferencial é a baixa pegada de carbono da produção, o que atrai consumidores e fabricantes que buscam diversificar fornecedores e reduzir as emissões de suas cadeias produtivas.
Entretanto, segundo Mundinho, essa diferenciação ainda não se traduz em um preço formalmente maior no mercado. “Ainda não se paga um prêmio”, afirma. A expectativa, no entanto, é que o mercado passe a diferenciar cada vez mais os produtos conforme suas características e a intensidade de carbono envolvida na produção.
Por enquanto, a vantagem pode estar menos no preço e mais na preferência dos compradores. “Em um cenário de queda de demanda, a preferência do comprador é por um produto premium para baterias”, disse Mundinho.
Outra vantagem da produção subterrânea, de acordo com o executivo, é que os teores de níquel aumentam. O balanço energético se torna muito mais eficiente e a pegada de carbono também.
“O mesmo volume de minério será processado, e 60% mais de produto vai sair devido aos maiores teores que a gente encontra na mina”, afirma Mundinho.A estratégia também inclui diversificar os destinos da produção, hoje distribuída entre clientes na China, Europa e América do Norte, especialmente Canadá.
O níquel é um dos materiais utilizados nas baterias de veículos elétricos e, por isso, necessário para a transição energética. O mercado de baterias deverá exigir cerca de 1,4 milhão de toneladas adicionais de níquel até 2030, segundo os dados apresentados pela Appian.
O volume se soma à oferta atual estimada em 3,6 milhões de toneladas, levando a uma necessidade total de aproximadamente 5 milhões de toneladas do mineral. Para atender a essa demanda adicional, seriam necessárias 28 novas minas de níquel, considerando um tamanho médio de 50 mil toneladas por mina.
