Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
Mercado ImobiliárioACSFII
13/08/2026
6 min

Resia leva MRV a prejuízo de R$ 646 milhões, mas margem recorde mostra guinada no Brasil

Enquanto a operação americana registrou uma perda de R$ 647,3 milhões no trimestre, a principal operação do grupo seguiu em trajetória oposta

Resia leva MRV a prejuízo de R$ 646 milhões, mas margem recorde mostra guinada no Brasil

A MRV&CO encerrou o segundo trimestre de 2026 com prejuízo líquido de R$ 645,8 milhões, mas o resultado negativo foi concentrado em uma operação específica: a Resia, subsidiária da companhia nos Estados Unidos.

Enquanto a operação americana registrou uma perda de R$ 647,3 milhões no trimestre, a principal operação do grupo seguiu em trajetória oposta. O resultado da Resia foi impactado por baixas contábeis de US$ 110 milhões (aproximadamente R$ 561 milhões) em ativos em processo de venda, dentro da estratégia da companhia de acelerar a reciclagem de ativos nos Estados Unidos.

Já a MRV Incorporação, que reúne as operações de construção no Brasil, apresentou melhora operacional, com avanço de margens, geração de caixa e crescimento do lucro. A unidade registrou lucro líquido ajustado de R$ 155 milhões no período, alta de 28,2% na comparação anual e de 16,5% em relação ao trimestre anterior.

No consolidado, a companhia registrou receita operacional líquida de R$ 3 bilhões no segundo trimestre e margem bruta de 30,2%. A MRV Incorporação também atingiu uma margem bruta de 31,2%, o maior nível dos últimos sete anos.

"A estratégia da companhia para a Resia está concentrada emgeração de caixa e redução da alavancagem, mesmo que isso provoque impactos negativos no resultado contábil de curto prazo", explica Ricardo Paixão, CFO da MRV&CO.

No primeiro semestre de 2026, a holding gerou R$ 467 milhões em caixa, impulsionada principalmente pela reciclagem de ativos. A dívida líquida do grupo encerrou o trimestre em R$ 5,9 bilhões.

Em 2026, a companhia anunciou US$ 401 milhões em vendas de ativos da Resia, movimento que deve contribuir para uma redução relevante da dívida líquida do grupo. Entre as operações estão a venda dos empreendimentos Ten Oaks e Rayzor Ranch, concluídas em julho, em uma transação de aproximadamente R$ 700 milhões, além de novas vendas anunciadas em agosto que devem gerar cerca de R$ 800 milhões em recebimentos futuros.

A expectativa da companhia é que a liquidação desses ativos reduza a dívida líquida consolidada em cerca de R$ 1,5 bilhão.

Melhor margem em sete anos

A melhora operacional da MRV está concentrada na incorporação brasileira. A unidade registrou receita operacional líquida de R$ 2,75 bilhões no trimestre, enquanto o Ebitda acumulado em 12 meses atingiu R$ 2,1 bilhões, crescimento de 50,6% em relação ao ano anterior.

A MRV Incorporação também gerou R$ 148,7 milhões em caixa ajustado no trimestre, acumulando R$ 266 milhões no primeiro semestre de 2026.

A margem bruta de 31,2% registrada no período foi o maior nível dos últimos sete anos. A evolução é resultado principalmente de uma melhora na relação entre preço de venda e custo de construção.

“A companhia tem conseguido reajustar os preços dos imóveis, no mínimo, em linha com a inflação, enquanto os custos de construção avançam em ritmo inferior. Esse movimento criou um espaço maior entre receita e despesa, que contribui para uma melhora gradual da rentabilidade”, explica.

A expectativa é que a margem reportada continue avançando nos próximos trimestres até se aproximar das margens das novas vendas, que já saem com rentabilidade próxima de 35%.

Além da dinâmica de preços e custos, a melhora operacional está ligada a uma série de iniciativas adotadas nos últimos anos. Entre elas estão uma gestão mais disciplinada do landbank, com maior uso de permutas para reduzir custos de terrenos, a otimização dos produtos desenvolvidos e a transformação da construção em uma operação mais industrializada.

A estratégia, chamada de Construction Powerhouse, busca transformar a construção civil em uma operação mais previsível e rentável. A iniciativa faz parte da chamada “equação da margem” da companhia, com foco em eficiência operacional, redução de custos e menor risco de execução.

Um dos pilares é tratar a construção como uma operação industrial, com maior produtividade e padronização dos processos. Atualmente, a MRV afirma produzir cerca de 170 apartamentos por dia útil.

A companhia também busca integrar seus 28 núcleos regionais em uma plataforma única, utilizando processos padronizados e tecnologia própria. A estratégia inclui ainda o Global Sourcing, unidade de suprimentos da empresa na China voltada à redução de custos de materiais.

Outro ponto da iniciativa é a redução da complexidade operacional, com menor variedade de itens em estoque (SKUs) e maior controle sobre a execução das obras por meio de indicadores como o Índice de Produtividade (IP).

Paixão também destaca que a melhora da margem reflete uma mudança no perfil dos empreendimentos entregues. A companhia está encerrando obras de “safras piores”, lançadas em períodos de menor rentabilidade, e avançando com projetos mais recentes, contratados com margens superiores.

Distratos pressionam margem, mas melhoram carteira

Outro movimento adotado pela MRV no trimestre foi a aceleração de distratos, ou seja, o cancelamento de contratos de clientes com maior fragilidade financeira e maior inadimplência.

A companhia realizou cancelamentos seletivos principalmente nas linhas Flex e FB, que apresentavam maior risco de crédito.

A medida teve um impacto negativo pontual sobre a margem bruta do trimestre, mas faz parte de uma estratégia para melhorar a qualidade da carteira de recebíveis e reduzir riscos futuros.

Segundo a administração, a lógica é substituir contratos problemáticos por novas vendas realizadas com margens superiores.

“Estamos falando de clientes de renda mais alta e de apartamentos também mais caros. Alguns deles passaram a ter um perfil de crédito pior, mais endividado. Então, o que a gente fez foi pegar alguns que já estavam apresentando atraso nas parcelas e optamos por realmente distratar essas vendas, entendendo que esse é um cliente que poderia dar trabalho mais à frente”, afirma Paixão.

Segundo a companhia, os novos contratos da MRV Incorporação já são fechados com margens próximas de 35%, acima da margem reportada de 31,2% no trimestre.

O movimento também busca reduzir o chamado pro soluto, parcela de crédito concedida diretamente pela incorporadora ao cliente.

A carteira de pro soluto totalizava R$ 3,63 bilhões em junho de 2026, queda de 5,2% em relação ao ano anterior. Já a carteira de financiamento direto após a entrega das chaves chegou a R$ 2,3 bilhões, alta de 32,1%.

Segundo a companhia, manter uma carteira mais saudável é fundamental para acelerar a geração de caixa e reduzir o risco financeiro.

Luggo e Urba têm desempenho misto

As demais subsidiárias tiveram impactos menores no resultado consolidado.

A Urba, operação de loteamentos, registrou lucro líquido de R$ 800 mil no trimestre. A unidade também apresentou seu melhor volume de vendas para um segundo trimestre, com R$ 127 milhões comercializados, alta de 50,5% em relação ao mesmo período de 2025.

Já a Luggo, braço de locação residencial, teve prejuízo líquido de R$ 9,9 milhões no trimestre.

A subsidiária também faz parte da estratégia de reciclagem de ativos da companhia. A MRV assinou um memorando de entendimentos para vender três empreendimentos da operação por R$ 166 milhões, valor superior ao registrado contabilmente.

AutorLetícia Furlan
FonteExame
Distribuído por