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InvestMercadosACS
26/10/2026
6 min

Ressaca eleitoral: como os mercados se comportaram no pós-eleição de 2018 e 2022?

Para o pós-eleições de 2026, a avaliação do BTG Pactual é mais pessimista; taxas dos títulos brasileiros de longo prazo podem superar 8%

Ressaca eleitoral: como os mercados se comportaram no pós-eleição de 2018 e 2022?

A reação da Bolsa após uma eleição presidencial não garante que a valorização dos ativos se mantenha nos meses seguintes. Um levantamento do BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME) sobre os resultados eleitorais de 2018 e 2022 mostra que o Ibovespa subiu 26,2% nos 12 meses posteriores à vitória de Jair Bolsonaro, em 2018, mas recuou 1,8% no mesmo intervalo após a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 2022.

Mais do que a diferença no desempenho do principal índice da Bolsa brasileira, os dois episódios apresentaram trajetórias distintas para os juros e para as ações de diferentes setores.

No relatório Brazil Strategy, publicado em 26 de outubro de 2026, o banco analisou o comportamento dos retornos das ações, o desempenho setorial, as taxas de juros e as expectativas macroeconômicas um ano após cada segundo turno. Segundo os analistas, a duração de uma alta impulsionada pelas eleições depende de como as expectativas do mercado evoluem depois da votação.

Em 2018, valorização atingiu mais ações

Após a vitória de Bolsonaro, a alta da Bolsa foi acompanhada por um movimento disseminado entre as empresas analisadas pelo BTG. Considerando uma amostra fixa de cerca de 70 ações, 66,7% dos papéis registraram retorno positivo um mês após a eleição. Em 12 meses, a proporção chegou a 81,2%, enquanto o retorno mediano das ações foi de 40,7%.

O comportamento dos juros também ajuda a explicar o desempenho daquele período. Antes do segundo turno de 2018, a pesquisa Focus projetava uma Selic de 8% no fim de 2019, ante a taxa básica vigente de 6,50%. Seis meses depois, a estimativa havia recuado para 6,50% e, após 12 meses, chegou a 4,50%.

Os juros reais dos títulos brasileiros de dez anos seguiram trajetória semelhante. A taxa caiu aproximadamente 0,68 ponto percentual nos primeiros seis meses após a eleição e acumulou queda de cerca de 2,15 pontos percentuais em 12 meses.

Em 2022, perdas se concentraram em setores domésticos

Após a vitória de Lula, o desempenho da Bolsa foi diferente. Embora o Ibovespa tenha acumulado queda de 1,8% nos 12 meses seguintes à eleição, alguns setores registraram perdas mais expressivas no início do período, enquanto outros avançaram.

No primeiro mês após o segundo turno, o índice de consumo da B3 caiu 10,9%, o financeiro recuou 10,1% e o imobiliário perdeu 13,1%. Na direção oposta, o índice de materiais básicos avançou 12,8%.

A proporção de ações com retorno positivo também foi menor do que no ciclo anterior. Um mês após a eleição, 27,5% dos papéis da amostra do BTG estavam em alta. Em 12 meses, o percentual chegou a 52,2%, com retorno mediano de 1,2%.

O banco observa que a queda moderada do Ibovespa no primeiro mês após a eleição não refletiu integralmente a pressão enfrentada por setores mais expostos à economia doméstica.

Diferença entre os dois períodos

Para o BTG, a trajetória dos juros é um dos elementos que ajudam a distinguir os dois ciclos eleitorais. Em 2018, a queda das taxas de longo prazo ocorreu em paralelo à valorização de uma parcela maior das ações analisadas. Em 2022, o movimento inicial combinou juros locais mais elevados e perdas expressivas em setores cíclicos domésticos, antes de uma recuperação mais seletiva.

Os mercados, contudo, já haviam começado a se ajustar antes dos segundos turnos. Entre os fechamentos anteriores ao primeiro e ao segundo turno, o Ibovespa avançou cerca de 4% em ambas as eleições. A diferença esteve no desempenho relativo dos setores: em 2018, as empresas cíclicas domésticas superaram as exportadoras; em 2022, ocorreu o contrário.

A comparação histórica mostra, portanto, que o resultado eleitoral não determina sozinho a trajetória dos ativos nos meses seguintes. O comportamento dos juros, as expectativas macroeconômicas e a distribuição dos ganhos e perdas entre os setores também ajudam a explicar o desempenho dos mercados após a votação.

O que esperar no pós-eleições de 2026?

Para o pós-eleições de 2026, a avaliação do BTG Pactual é mais pessimista. Em relatório, o banco projeta uma queda expressiva das ações brasileiras nas semanas seguintes à reeleição de Lula, diante da perspectiva de juros de longo prazo mais elevados, desvalorização do real e menor espaço para cortes da taxa básica de juros.

O banco estima que o Ibovespa excluindo Petrobras e Vale pode recuar 17%, para cerca de 170 mil pontos. Segundo os analistas, o índice está negociado a 10,9 vezes o lucro projetado para os próximos 12 meses, um desconto de 8,4% em relação à média histórica. A expectativa é que a avaliação das ações recue para um patamar equivalente a um desvio-padrão abaixo dessa média.

A projeção para o câmbio também é negativa. O BTG estima que o real pode perder de 10% a 15% de seu valor, movimento que ampliaria a queda da Bolsa para aproximadamente 30% em dólares. Nesse cenário, investidores estrangeiros enfrentariam perdas tanto com a desvalorização das ações quanto com a conversão dos recursos para a moeda americana.

Os juros são outro ponto de atenção. Atualmente em 6,7% ao ano em termos reais, as taxas dos títulos brasileiros de longo prazo podem superar 8%, na avaliação do banco, caso não haja uma equipe econômica considerada confiável e medidas concretas para enfrentar a situação fiscal do país.

Juros elevados por mais tempo também podem limitar o ritmo de redução da Selic. A pesquisa Focus aponta para uma taxa básica de 12% ao fim de 2027, o que representaria uma redução de 1,75 ponto percentual em relação ao nível atual. Para o BTG, porém, até essa trajetória pode se mostrar otimista, a depender da política fiscal adotada pelo governo.

O relatório também identifica possíveis setores e empresas mais bem posicionados para enfrentar esse ambiente. Exportadoras de commodities, como Gerdau, Suzano e Vale, além de companhias com receitas em moeda estrangeira, como WEG e Embraer, podem se beneficiar de um real mais fraco. Empresas com baixo endividamento e negócios considerados defensivos, como Caixa Seguridade, Porto Seguro e Ambev, também tendem a apresentar desempenho relativo melhor, segundo o banco.

O BTG ainda destaca Petrobras, pela exposição ao dólar e ao petróleo e pelo pagamento de dividendos, e Itaú, entre os grandes bancos brasileiros. A avaliação, no entanto, não significa que essas ações estejam imunes a perdas em um cenário de queda generalizada do mercado.

A concretização das projeções dependerá, entre outros fatores, da condução da política fiscal e da credibilidade da equipe econômica. Para o banco, sinais de disciplina fiscal e a apresentação de medidas consistentes para os próximos quatro anos seriam importantes para conter a alta dos juros de longo prazo e criar condições para uma trajetória mais favorável dos ativos brasileiros.

AutorRebecca Crepaldi
FonteExame
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