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Sacre Investimentos
InvestMercados
06/07/2026
7 min

Retorno de 8% chega a Tesouro IPCA mais longo: quem ganha e quem perde com isso?

Retorno de 8% chega a Tesouro IPCA mais longo: quem ganha e quem perde com isso?

O mercado de títulos públicos atrelados à inflação vive um momento de forte dualidade na economia brasileira. De um lado, as Notas do Tesouro Nacional Série B (NTN-Bs), amplamente conhecidas no varejo como Tesouro IPCA+, alcançaram patamares de juros reais extremamente elevados, cruzando a barreira histórica de 8% ao ano. De outro, o mercado institucional dá sinais de estresse severo, evidenciando uma volatilidade que exige cautela e estratégia bem definida por parte do investidor pessoa física.

Para entender se este é o momento ideal para colocar o capital nesses títulos, a reportagem ouviu analistas de mercado e cruzou os dados recentes que vêm movimentando as mesas de operação.

O paradoxo das taxas elevadas: oportunidade de "travar" retornos históricos

A escalada das taxas oferecidas pelo Tesouro Direto é o principal chamariz para o investidor de varejo atual. Conforme relatório da Genial Investimentos, o título Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais 2037 atingiu a marca de 8,00% ao ano de juro real pela primeira vez, juntando-se ao IPCA+ 2032, que também opera acima desse patamar, avançando a expressivos 8,27% e mantendo a maior taxa entre os papéis indexados à inflação.

O relatório aponta ainda que outros vencimentos seguiram o movimento de alta nos juros reais: o IPCA+ 2040 foi para 7,72%, o IPCA+ 2050 subiu para 7,41% e o IPCA+ 2060 com juros semestrais operou a 7,56%.

"As NTN-Bs oferecem uma combinação que há muito tempo não era vista: juro real elevado somado a uma proteção contra a inflação", aponta Gabriel Cecco, especialista em investimentos da Valor Investimentos.

"Para o investidor do varejo, isso possibilita travar a rentabilidade numa condição bastante atrativa, por longos anos, independente do futuro de preço."

No entanto, taxas maiores no presente significam desvalorização imediata para quem já possuía os títulos na carteira devido ao mecanismo de marcação a mercado.

Cecco adverte sobre o ponto que ainda gera confusão no varejo: "Quando falamos que o Tesouro IPCA+ está pagando uma taxa maior, isso é excelente para quem está comprando hoje, mas não necessariamente para quem já investiu antes. O preço hoje está mais alto, e quem comprou lá atrás a um preço abaixo disso está vendo seu título desvalorizado caso ele vá vender hoje."

Ruídos políticos e o estresse do mercado institucional

A disparada nos prêmios exigidos pelos investidores é alimentada por uma forte desconfiança do mercado institucional em relação às frentes fiscal e monetária do país, turbinada por fatores políticos recentes.

De acordo com a Genial Investimentos, a divulgação de novas pesquisas eleitorais elevou a cautela dos investidores, pressionando os ativos brasileiros, derrubando o Ibovespa em cerca de 1%, elevando o dólar e reforçando a percepção de que um cenário de maior disciplina fiscal tende a ser melhor recebido pelo mercado.

Conforme explica a consultora Cristiane Fensterseifer, o descolamento das decisões locais frente ao cenário internacional pesou severamente na curva de juros.

"O mercado viu a NTN-B pagando IPCA+ 8% ao ano e dizendo que não queria nem esse preço. Fed, BCE e Japão subiram juros na mesma semana, enquanto o Brasil cortou a Selic com um discurso brando. O mercado achou totalmente descolado da realidade global", contextualiza. "Também tem o nosso risco fiscal e incerteza eleitoral. Por tudo isso, o investidor institucional está exigindo um prêmio cada vez maior para financiar o governo", afirma.

O reflexo prático disso foi uma espécie de "greve" de compradores de dívida soberana nos leilões do governo. Após chegar a cancelar um leilão inteiro de NTN-Bs, o Tesouro Nacional voltou a ofertar um lote mínimo simbólico de apenas 150 mil papéis repartidos entre três vencimentos (2029, 2033 e 2040).

Mesmo com uma oferta tão reduzida, o governo não conseguiu vender a totalidade das cotas: no vencimento intermediário de 2033, apenas 34,6 mil papéis dos 50 mil ofertados foram absorvidos.

Agentes financeiros apontam que o fracasso em colocar um lote tão pequeno sinaliza que a curva de juros reais está operando de forma disfuncional, elevando a pressão para que o Tesouro Nacional realize leilões extraordinários de recompra de títulos para estabilizar os preços, nos mesmos moldes da intervenção de março de 2026, quando recomprou mais de R$ 40 bilhões em papéis.

Paralelamente, o estresse contaminou os títulos prefixados: a Genial destacou que o Prefixado 2029 subiu para 14,14% e o Prefixado 2032 avançou para 14,35%.

Vencimentos curtos são o porto seguro

Diante do cabo de guerra entre o governo e os grandes fundos, o estrategista da S4 Consultoria Bruno Komura, destaca que o investidor de varejo não precisa correr riscos desnecessários na ponta ultralonga da curva. "Dado que estamos com taxas elevadas para inflação, não precisamos alocar em títulos longos para ter uma boa rentabilidade.

Acho que o ideal é alocar em títulos curtos, até 2035", recomenda. Para ele, essa fatia pode compor entre 5% a 10% até mesmo de carteiras de perfil conservador.

Komura explica que a volatilidade diária de uma NTN-B com vencimento muito estendido, como o Tesouro IPCA+ 2060, assemelha-se à volatilidade do mercado de ações.

Como o Brasil só dispõe de títulos muito longos indexados à inflação, o risco associado à duração (duration) se eleva drasticamente nas datas distantes. No atual patamar macroeconômico, capturar taxas gordas nos prazos mais próximos protege o patrimônio sem expor o investidor à centrífuga do mercado secundário.

Além disso, o estrategista afasta o fantasma do risco de calote institucional para a pessoa física. O risco de crédito é do governo federal e, em moeda corrente local, é considerado livre de risco.

"É muito improvável que um governo dê default em moeda local. É melhor o governo 'imprimir' dinheiro e pagar, às custas de uma inflação mais alta", pontua. E caso a inflação suba por conta disso, o próprio indexador do Tesouro IPCA+ garante o reajuste do poder de compra do investidor, acrescido da taxa contratada.

Guia para a pessoa física: foco no prazo e nos objetivos

Para o pequeno investidor que olha para o Tesouro IPCA+ neste momento da economia brasileira, os especialistas são unânimes em apontar que o sucesso da aplicação depende essencialmente da disciplina em relação ao prazo de vencimento:

  1. Esqueça as cotações diárias: Gabriel Cecco enfatiza que o IPCA+ não deve ser encarado como um ativo para monitoramento de curto prazo. "Ele funciona muito melhor quando está atrelado a um objetivo de longo prazo como aposentadoria, formação de patrimônio e planejamento sucessório. Nestes casos, a volatilidade no meio do caminho perde importância, já que, no pior dos casos, você recebe exatamente o que contratou."

  2. Atenção às janelas de oportunidade: A venda antecipada só é aconselhável se houver uma reversão forte na curva de juros que valorize os papéis antigos a ponto de abrir uma janela de ganho de capital superior à taxa contratada até o vencimento. Caso contrário, carregar o título até o final elimina qualquer risco de perda.

  3. Liquidez blindada: Conforme lembra Komura, a liquidez para o investidor de varejo é assegurada pelo próprio Tesouro Direto com um prêmio de liquidez (spread) bem definido de 12 pontos-base (bps), o que garante a conversão do título em dinheiro de forma rápida caso uma emergência financeira aconteça.

O atual patamar de juros reais elevados faz das NTN-Bs de prazos curtos e intermediários uma das alternativas mais sólidas e atrativas para a preservação de patrimônio da pessoa física na renda fixa nacional, desde que o investidor alinhe o dinheiro aplicado aos prazos de vencimento dos títulos para blindar sua carteira contra o estresse que hoje assombra os investidores institucionais.

AutorPaulo Holland
FonteExame
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