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27/07/2026
7 min

Retrofit de R$ 45 milhões cria polo teatral em prédio histórico do centro de SP

Retrofit de R$ 45 milhões cria polo teatral em prédio histórico do centro de SP

O Edifício Alberto Salvatore, localizado nas primeiras quadras da Brigadeiro Luís Antônio, próximo à Catedral da Sé no Centro de São Paulo, abrigava em 2021 a casa noturna Lions Nightclub nos primeiros andares circulares e tinha o restante do prédio retangular praticamente abandonado. No mesmo ano o Instituto Brasileiro de Teatro (iBT) comprou o imóvel integralmente por R$ 20 milhões, iniciando um projeto que levaria quatro anos e R$ 25 milhões em reformas para ser inaugurado ao público como centro cultural.

"A gente adquiriu o prédio pensando em colocar o teatro como protagonista, como um ponto de encontro da classe artística. Queríamos um espaço para formação, ensaios e troca, mas que também fosse um ativo capaz de gerar receita para o instituto", afirma Oliver Tibeau, diretor de Cultura e membro do conselho do iBT, à EXAME.

Segundo ele, o prédio passou quase um ano apenas em processo de limpeza antes do início das intervenções, depois de décadas acumulando ocupações distintas e longos períodos de abandono.

Ao longo da reforma, o instituto buscou preservar ao máximo a arquitetura original do edifício projetado por Guilherme Malfatti, irmão da célebre artista modernista Anita Malfatti, ao mesmo tempo em que adaptou os espaços para diferentes usos culturais. Inaugurado em agosto de 2025, o local  ganhou oito salas de ensaio, espaços performáticos em todos os andares, um café. 

O que é o iBT

Fundado em 2021 como organização privada sem fins lucrativos, o Instituto Brasileiro de Teatro tem como missão declarada popularizar o teatro no Brasil e funcionar como ponte entre a iniciativa privada, artistas e público.

"Acho que o teatro carrega um estigma, principalmente para o público jovem, que não vai ao teatro. A gente fala sem medo, nossa missão é deixar o teatro pop e descolado, que aqui seja um lugar que as pessoas queiram vir tirar uma foto", diz Tibeau.

A instituição atua nacionalmente com formações, oficinas, residências e captação de recursos, e tem no centro cultural em São Paulo seu principal ativo físico.

Retrofit: projeto custou ao todo R$ 45 milhões (iBT / Divulgação)

O projeto arquitetônico foi conduzido por uma cenógrafa de teatro, escolha dos cinco fundadores do instituto.

"Todo o desenho de luz, todo o desenho de som e a arquitetura foi feita em conjunto com os fundadores. Uma arquiteta que é cenógrafa de teatro: isso foi uma preocupação nossa, que os conceitos que a gente tinha na cabeça pudessem ser traduzidos", diz Tibeau.

O resultado é um prédio onde todos os espaços foram concebidos para receber performance. Do térreo com calçada portuguesa que se prolonga para dentro do centro, como convite implícito ao passante, até a fachada externa, que já serviu de cenário para um grupo de teatro vertical que faz rapel.

A mantenedora do iBT é a Viva do Brasil, organização dedicada à gestão de parques urbanos e espaços culturais com atuação em São Paulo e Recife. O portfólio da Viva inclui o Parque Apipucos, o Parque Dona Lindu e o Parque da Jaqueira, todos em Recife, além doreinaugurado Nu Cine Copan.

Arquitetura mantida: o projeto arquitetônico foi conduzido por uma cenógrafa de teatro, escolha deliberada dos cinco fundadores do instituto (iBT / Divulgação)

O modelo de negócio da organização se baseia em locação de espaços, produção de eventos, parcerias de alimentação e entretenimento e gestão cultural.

As fontes de receita

O investimento total no projeto de R$ 45 milhões, somando compra e reforma, foi estruturado como parceria entre o iBT e a iniciativa privada.

Para sustentar a operação, o instituto combina quatro fontes de receita: leis de incentivo fiscal, patrocínios diretos, locação de espaços para eventos e uma política própria de cessão gratuita de salas de ensaio para companhias independentes.

No campo das leis de fomento, o iBTcapta via Lei Rouanet e ProAC, além de emendas parlamentares, como a de R$ 200 mil do deputado federal Orlando Silva, via Ministério da Cultura, destinada ao projeto Clariô em Cena, atualmente em análise.

Tibeau reconhece, porém, que a dependência exclusiva dessas fontes representa um risco. "Algumas leis municipais e estaduais estão correndo o risco de não existirem mais, com as mudanças no ICMS e no ISS. A gente fica muito suscetível", diz. A meta de médio prazo do instituto é garantir a subsistência sem depender das leis de incentivo, usando-as como complementação.

Entre os patrocinadores diretos ao instituto está a Ambev, no segundo ano consecutivo de parceria. Antes dela, a Electrolux integrou o portfólio de apoiadores. "As empresas mudam, pois é uma captação anual que a gente faz", explica Tibeau. Cada projeto pode ter um patrocinador diferente, com captação atrelada a espetáculos ou iniciativas específicas.

Espaço para eventos

A locação de espaços para eventos é, hoje, a principal alavanca comercial do centro cultural. O prédio tem capacidade para receber até 1.200 pessoas quando todos os ambientes são integrados, o subsolo, o palco praça e o salão do térreo.

Eventos da Heineken e do Spotify já passaram pelo espaço, além da campanha publicitária do filme "Martin Supreme", estrelado por Timothee Chalamet. "A gente não tem espaços assim no centro, né. Um lugar com essa vista, com essa arquitetura, que consiga receber eventos desse porte", diz Tibeau.

Para além da receita, os eventos têm uma função estratégica declarada: trazer para o teatro um público que de outra forma não chegaria até ele. "A gente sabe que para fazer isso tem que fazer essas parcerias", afirma Tibeau.

A curadoria dos eventos é descrita como próxima à da Casa de Francisca — espaço de referência na cena musical paulistana, também localizada na Sé —, com olhar para um perfil mais cool.

O equilíbrio entre locação comercial e cessão gratuita é gerido por cota: a cada três meses, 30 grupos de teatro ensaiam no espaço sem custo. Muitos desses grupos migram para temporadas pagas no próprio iBT. "A gente dá a sala, e depois compra as apresentações para eles se apresentarem aqui", explica Tibeau.

O SESC enviou representantes ao instituto recentemente para entender o modelo de comunicação — área em que o iBT investe de forma incomum para o setor, que historicamente não aloca recursos para divulgação.

O futuro do iBT

O centro cultural completa um ano com três andares ainda em reforma. O próximo a ser concluído é o Mirante, no andar mais alto, que será convertido em espaço de eventos com vista panorâmica da cidade, ampliando a capacidade de locações e, com ela, a receita operacional.

A programação teatral, até recentemente espaçada, passa a ter frequência semanal, com espetáculos às sextas, sábados e domingos. O instituto planeja também uma curadoria própria de shows musicais, produzidos diretamente pelo iBT — não apenas recebidos como locação. "A gente quer produzir eventos de música que possam atrair mais público", diz Tibeau.

Uma das últimas novidades é a chegada da Pivô, galeria de arte contemporânea com sede no Copan, que instalou seu escritório no iBT e iniciará uma residência artística em parceria com o instituto.

A Mostra Internacional de Teatro de São Paulo também tem escritório no prédio. "A gente acredita nessa união de forças. A gente não tem um caráter competitivo — a gente quer que as pessoas estejam circulando aqui", diz Tibeau.

A região imediata ao edifício, na fronteira entre a Sé e a Bela Vista, ainda não acompanhou o ritmo das políticas de requalificação do Centro visto na República, onde o movimento de retrofit já é próspero.

Porém, Tibeau aponta sinais de mudança. O exemplo da Casa de Francisca, os prédios em processo de retrofit nas quadras vizinhas e o interesse crescente de investidores que procuram o instituto para entender "o caminho das pedras" mostram, para ele, que a região está no radar do setor imobiliário.

"A tendência é isso começar a se dissipar para essa região e chegar na Sé. Tem muitos prédios aqui que poderiam passar pela mesma transformação", diz.

AutorPaloma Lazzaro
FonteExame
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