Risco fiscal e eleições entram no radar de estrangeiros e brasileiros e 'tiram o sono'

Estrangeiros e brasileiros nunca estiveram tão alinhados na leitura sobre o Brasil, mas o problema é que ambos passaram a enxergar os mesmos riscos. Segundo relatório da Ágora Investimentos, o mercado financeiro convergiu para uma visão comum de que o principal fator de preocupação deixou de ser a trajetória dos juros e passou a ser o cenário político e fiscal.
O diagnóstico ajuda a explicar, na prática,a perda de força do fluxo estrangeiro para a bolsa brasileira desde a segunda quinzena de abril, movimento destacado em um levantamento da XP Investimentos.
A pesquisa trimestral do Bradesco BBI, analisada pela Ágora, recém-divulgada, mostra que o investidor não abandonou o mercado brasileiro, mas reduziu o apetite por risco. A avaliação da casa é que "o mercado tirou o pé do acelerador, mas não desceu do carro".
Na prática, os gestores seguem posicionados em ativos brasileiros, mantêm pouco dinheiro em caixa e continuam acreditando que osmercados emergentes podem entregar desempenho superior ao dos desenvolvidos. Mas o entusiasmo, contudo, diminuiu. "O clima entre os investidores é de cautela, mas sem pânico. O que mudou foi o tom: as apostas ficaram um pouco menores, o apetite por risco diminuiu e o entusiasmo com o real esfriou", afirma o relatório.
O ponto considerado mais relevante pela Ágora é a convergência entre investidores locais e estrangeiros. Segundo a instituição, há bastante tempo não se via uma percepção tão semelhante entre os dois grupos.
"Curiosamente, um fenômeno raro aconteceu: estrangeiros e brasileiros passaram a pensar de forma bastante parecida sobre o país. É como se os dois grupos, que costumavam discutir o caminho, tivessem finalmente concordado com o GPS", diz um trecho do documento.
Apesar da convergência na leitura macroeconômica, as estratégias permanecem distintas. Enquanto investidores estrangeiros seguem privilegiando empresas de crescimento, os brasileiros continuam concentrando suas apostas em companhias maduras e negociadas a múltiplos mais baixos.
Eleição é a principal preocupação dos gestores
O alinhamento na percepção também aparece quando o assunto são os riscos para o mercado. A pesquisa mostra que aeleição presidencial, em outubro, passou a ocupar o topo das preocupações dos gestores, superando até mesmo as discussões sobre a trajetória da Selic.
"Se você perguntar a um gestor o que mais tira o sono hoje, a resposta será quase unânime: as eleições de outubro", diz a Ágora.
Segundo o levantamento, dois em cada três investidores apontam o pleito como o principal catalisador para os ativos brasileiros nos próximos meses. Ao mesmo tempo, três em cada quatro gestores afirmam que o risco fiscal é hoje a maior preocupação para o mercado. "Curiosamente, 62% já cravaram um palpite sobre quem vence — e a leitura converge com as pesquisas eleitorais e casas de apostas online", afirma a Ágora.
A mudança de foco representa uma inversão em relação aos últimos meses, quando o debate sobre o ciclo de cortes da taxa básica de juros dominava as conversas. Agora, segundo a corretora do Bradesco, a política fiscal e as incertezas eleitorais assumiram o protagonismo.
Mesmo assim, a casa avalia que parte do pessimismo pode estar exagerada. Enquanto sua equipe econômica projeta a Selic encerrando o ano em 13,75%, o mercado precifica apenas mais um corte, levando a taxa para 14%. Na visão da instituição, essa diferença abre espaço para reprecificação caso os indicadores econômicos surpreendam positivamente.
"Quando o mercado exagera no pessimismo, uma surpresa positiva costuma valer muito", afirma o relatório, lembrando a reação dos ativos após a divulgação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) abaixo do esperado. Em junho, o indicador apresentou alta de 0,16% após ter subido 0,58% em maio. Foi a menor taxa para um mês de junho desde 2023 e também ficou abaixo do piso das projeções que variavam entre 0,24% e 0,37%.
Varejo perde espaço nas carteiras
Esse ambiente de maior cautela também mudou a composição das carteiras. Os investidores passaram a concentrar recursos em setores considerados defensivos, como bancos, elétricas e telecomunicações, que hoje reúnem mais de dois terços das preferências dos gestores.
A justificativa é a busca por empresas com receitas previsíveis e maior capacidade de distribuição de dividendos em um cenário de juros elevados e ruído fiscal.
Na direção oposta, ações ligadas ao consumo, varejo, construção civil e outros segmentos cíclicos domésticos perderam espaço nas carteiras. Para a Ágora, porém, esse movimento pode ter criado uma oportunidade. "Quando todo mundo corre para o mesmo lado do barco, o outro lado tende a ficar barato demais", afirma.
Fluxo estrangeiro volta a se estabilizar
A percepção mais cautelosa dos investidores ajuda a explicar ocomportamento recente do fluxo estrangeiro para a bolsa brasileira. Segundo relatório da XP, junho registrou saída líquida de R$ 7,7 bilhões de capital estrangeiro, resultado de retiradas de R$ 7,8 bilhões no mercado à vista, parcialmente compensadas por uma entrada de R$ 100 milhões em contratos futuros.
O movimento deu continuidade à reversão iniciada em meados de abril. Até aquele momento, os investidores estrangeiros acumulavam entradas de R$ 69,1 bilhões em ações brasileiras no ano. Ao fim do primeiro semestre, esse saldo havia diminuído para R$ 33,8 bilhões no mercado à vista.
Na avaliação da XP, a mudança de direção ocorreu por uma combinação de fatores externos e domésticos. Oressurgimento da tese de inteligência artificial voltou a atrair recursos para mercados como Estados Unidos, Coreia do Sul e Taiwan, enquanto a piora das expectativas para inflação e juros no Brasil e o aumento do ruído político doméstico reduziram o interesse relativo pela bolsa brasileira.
Ainda assim, os primeiros dados de julho mostram uma estabilização desse movimento. O relatório aponta entradas líquidas de R$ 1,1 bilhão no mercado à vista e R$ 800 milhões em contratos futuros. Segundo a XP, essa melhora coincidiu com a divulgação de um IPCA mais benigno e com o aumento das dúvidas em torno da tese de inteligência artificial, fatores que voltaram a favorecer mercados emergentes.
Apesar da redução do fluxo, os estrangeiros seguem sendo os principais participantes da B3. Em junho, responderam por 60% do mercado, participação superior à média histórica de 52,9%, enquanto investidores institucionais representaram 23,7% das negociações e pessoas físicas, 12,8%.
Para a Ágora, o cenário continua desafiador, mas não justifica abandonar a bolsa brasileira. A instituição avalia que os ativos locais seguem negociando a preços descontados, em um momento em que o mercado incorpora umcenário bastante pessimista para juros, política e crescimento.
"O Brasil está barato, mal-humorado e prestes a receber notícias melhores do que o mercado espera", resume o relatório. Segundo a casa, a combinação de valuations baixos, lucros resilientes e expectativas excessivamente negativas pode abrir espaço para uma reação dos ativos caso parte dos riscos não se materialize nos próximos meses.
