Rússia amplia treinamento militar nas escolas e ensina adolescentes a usar armas
Entre os conteúdos previstos estão o funcionamento de metralhadoras, armas antitanque e granadas de mão, além de noções sobre a estrutura das Forças Armadas

A Rússia vai ampliar o treinamento militar obrigatório nas escolas a partir do novo ano letivo, que começa em 1º de setembro.
Alunos a partir de 13 anos terão aulas sobre armamentos, minas, primeiros socorros em combate, exposição química e radioativa e procedimentos em zonas de conflito. As informações são da Bloomberg.
A mudança faz parte de uma reformulação do curso “Fundamentos da Segurança e Defesa da Pátria”, determinado pelo Ministério da Educação russo. Metade das aulas semanais da disciplina deverá ser dedicada a treinamento militar básico.
Entre os conteúdos previstos estão o funcionamento de metralhadoras, armas antitanque e granadas de mão, além de noções sobre a estrutura das Forças Armadas, disciplina militar, sobrevivência e atendimento de feridos em situações de combate.
Parte desses temas já aparecia de forma limitada no ensino médio. A nova grade, porém, amplia o alcance das aulas e antecipa o contato dos estudantes com conteúdos militares.
A mudança ocorre enquanto aguerra da Rússia contra a Ucrânia entra no quinto ano e o governo de Vladimir Putin busca manter um fluxo constante de novos soldados. Segundo estimativas ocidentais citadas pela Bloomberg, a Rússia tenta recrutar cerca de 400.000 pessoas por ano, depois de acumular mais de 1,5 milhão de mortos e feridos nas Forças Armadas desde o início da invasão em larga escala, em 2022.
Veteranos da guerra já participam da rotina escolar
A militarização das escolas não se limita às disciplinas formais. Veteranos que combateram na Ucrânia vêm sendo levados a escolas e até jardins de infância para falar com estudantes.
O presidente da Duma, a Câmara dos Deputados da Rússia, Vyacheslav Volodin, defendeu em 2025 a presença de veteranos em “todas as escolas” do país para ensinar temas ligados à experiência militar.
Esse movimento já está disseminado. Uma pesquisa com mais de 2.600 diretores e professores, conduzida pela entidade estatal Sociedade do Conhecimento, mostrou que 95% das escolas realizam eventos sobre a guerra na Ucrânia. Mais de 80% convidam combatentes para conversar com alunos, enquanto quase 75% promovem aulas específicas sobre o conflito.
Jogos militares reúnem milhões de crianças
Fora das salas de aula, o governo russo também ampliou programas de treinamento militar voltados a crianças e adolescentes.
Um dos principais é o Zarnitsa, versão modernizada de jogos militares da era soviética. Os participantes são organizados em grupos de dez pessoas e recebem funções como comandante, operador de drone, sapador, médico e integrante de tropas de assalto.
As atividades incluem simulações de combate com equipamentos de laser tag, simuladores de voo em realidade virtual, movimentação em trincheiras e réplicas de fuzis.
Segundo a Bloomberg, a participação no programa passou de 800.000 crianças e adolescentes entre 7 e 17 anos, em 2024, para uma previsão de 2,5 milhões em 2026.
A organização juvenil responsável pelo programa recebe cerca de 20 bilhões de rublos por ano do orçamento federal, o equivalente a cerca de 233 milhões de dólares pela conversão citada pela Bloomberg.
Adolescentes também podem participar de treinamentos de uma semana em instalações militares da rede estatal Avangard, que reúne mais de 70 unidades pelo país. Algumas regiões abriram ainda acampamentos especializados para jovens de 14 a 17 anos, com nomes como “Tropa de Assalto” e “Infantaria”.
Aulas sobre patriotismo chegam à pré-escola
Desde setembro de 2022, escolas russas também reservam uma hora semanal para a disciplina “Conversas sobre Coisas Importantes”, voltada à visão oficial do Kremlin sobre patriotismo, história russa e a guerra na Ucrânia.
Em 2026, uma versão adaptada da atividade começou a ser introduzida em jardins de infância, com conteúdos apresentados por meio de brincadeiras.
Nas áreas ocupadas pela Rússia no leste e no sul da Ucrânia, a mudança curricular vai além do treinamento militar.
Novos livros de história aprovados pelo governo russo ensinam alunos em regiões ocupadas de Donetsk, Luhansk, Zaporizhzhia e Kherson que esses territórios sempre fizeram parte da Rússia, segundo a Bloomberg.
