Safra vê risco de recessão econômica em 2027 e rebaixa recomendações para bancos
Relatório cita juros elevados, desaceleração da demanda por crédito e maior risco de inadimplência para justificar cortes nas recomendações de Itaú, Bradesco e BB

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O Banco Safra rebaixou nesta quinta-feira, 5, suas recomendações para os bancos Itaú Unibanco e Bradesco e para o Banco do Brasil diante do risco crescente de recessão no Brasil em 2027, juros altos e maior inadimplência. O banco Nubank manteve desempenho acima da média, embora seu preço-alvo tenha caído de US$ 19 para US$ 15.
O risco crescente de uma recessão na economia brasileira em 2027 começa a pesar sobre as perspectivas para o setor bancário. Em relatório divulgado nesta quinta-feira, 5, o Banco Safra revisou para baixo suas recomendações para bancos tradicionais, citando um cenário de juros elevados por mais tempo, demanda mais fraca por crédito e aumento dos riscos de inadimplência.
O banco rebaixou a recomendação para Itaú Unibanco (ITUB4) e Bradesco (BBDC4), de desempenho acima da média para neutro, e paraBanco do Brasil (BBAS3), de neutro para desempenho abaixo da média.A única instituição que manteve a recomendação de desempenho acima da média foi o Nubank (NU), cuja estrutura de crédito, segundo o Safra, deve proporcionar resiliência relativa em um ambiente econômico mais adverso.
A revisão reflete uma mudança nas premissas de avaliação das instituições. "Como o mercado estima um risco maior de recessão em 2027, decidimos adotar/utilizar premissas de lucros mais conservadoras e taxas de desconto mais altas", afirmou a instituição."Um ciclo de crédito mais rigoroso exige uma postura mais cautelosa. Os bancos brasileiros enfrentam um ambiente mais desafiador, com demanda de crédito mais fraca, absorção limitada dos custos de crédito pela receita e riscos crescentes de qualidade dos ativos", disse no documento.
Outro ponto de preocupação é o vencimento dos períodos de carência de empréstimos concedidos a pequenas e médias empresas, as PMEs, por meio de programas com garantia do governo. Na avaliação do Safra, o movimento também pode pressionar as provisões dos bancos no curto prazo, à medida que empresas com dificuldades financeiras precisem retomar os pagamentos.
A revisão teve impacto direto nos preços-alvo calculados pelo banco. Para o Itaú, a estimativa passou de R$ 51 para R$ 47. No caso do Bradesco, caiu de R$ 22 para R$ 17. Para o Banco do Brasil, recuou de R$ 26 para R$ 19.
Entre as premissas alteradas, o Safra elevou a taxa livre de risco em reais para 11%, um aumento de 1 ponto percentual, mantendo o prêmio de risco de ações em 5%. O banco também reduziu o preço-alvo do Nubank de US$ 19 para US$ 15 e o do Inter de US$ 7 para US$ 5.
O relatório aponta três riscos principais para o setor. "Uma recessão mais profunda, pior qualidade dos ativos, mudanças regulatórias e concorrência irracional", elencou o banco.
"A NU também enfrenta riscos de execução relacionados ao México e aos EUA, exposição cambial e desvalorização do setor de tecnologia global. Um cenário macroeconômico mais favorável, menor Ke e normalização de crédito mais rápida são os principais riscos positivos para nossa postura cautelosa em relação ao setor", disse.
Juros altos e economia mais fraca pressionam os bancos
A avaliação do Safra ocorre em um momento de deterioração das expectativas para a economia brasileira. Nesta quarta, 4, o Comitê de Política Monetária (Copom) interrompeu o ciclo de cortes da Selic emanteve a taxa básica em 13,75% ao ano. A decisão reforçou a perspectiva de juros elevados por mais tempo, justamente quando famílias e empresas já enfrentam maior comprometimento de renda.
O Banco Central também revisou para cima suas projeções de inflação. A estimativa para 2027 passou de 3,9% para 4,7%, enquanto a projeção para o segundo trimestre de 2028, atual horizonte relevante da política monetária, ficou em 3,5%, acima da meta de 3%.
A combinação de juros restritivos, inflação e desaceleração econômica pode afetar os bancos por diferentes canais. De um lado, reduz a disposição de famílias e empresas para contratar novos empréstimos. De outro, aumenta o custo de financiamento dos tomadores e a probabilidade de atrasos e inadimplência, exigindo que as instituições reservem mais recursos para cobrir possíveis perdas.
O pessimismo também aparece entre os gestores de recursos. Pesquisa da XP Investimentos divulgada ontem mostrou que 95% das 20 gestoras multimercados consultadas têm uma visão negativa sobre a economia brasileira, ante 55% em setembro. Nenhuma apresentou uma perspectiva positiva.
Na Bolsa, a mudança de percepção também foi expressiva. Pela primeira vez no ano, a parcela de gestores vendidos em ações brasileiras superou a dos comprados: 30% apostam na queda do mercado, enquanto 25% mantêm posições compradas. Em setembro, 70% estavam comprados e nenhuma gestora tinha posição vendida.
Bradesco já sente o peso maior das provisões
Os resultados do terceiro trimestre de Bradesco e Itaú ajudam a dimensionar os desafios apontados pelo Safra. No Bradesco, emborao lucro líquido recorrente tenha alcançado R$ 7,1 bilhões entre julho e setembro, alta de 14,6% em um ano, as despesas com provisões para devedores duvidosos (PDD) avançaram em ritmo mais acelerado.
A PDD expandida somou R$ 10,6 bilhões, aumento de 24,3% na comparação anual. O custo do crédito subiu para 3,7%, ante 3,5% no trimestre anterior e 3,3% um ano antes.
A inadimplência acima de 90 dias chegou a 4,6% em setembro, contra 4,3% em junho e 4,1% um ano antes. A deterioração foi mais intensa entre micro, pequenas e médias empresas, segmento em que o indicador passou de 3,7% para 4,9% em 12 meses.
O avanço das provisões consumiu boa parte do crescimento da margem financeira. Enquanto a margem financeira total aumentou R$ 2,7 bilhões em um ano, para R$ 21,4 bilhões, as despesas com provisões cresceram R$ 2,1 bilhões no mesmo intervalo. Já a margem com clientes descontada das provisões recuou 2% na comparação anual, para R$ 9,9 bilhões.
O CEO do Bradesco, Marcelo Noronha,reconheceu que o ambiente econômico deve continuar pressionando os indicadores de crédito. Em entrevista após a divulgação dos resultados, afirmou que as projeções dos economistas apontam para um crescimento de apenas 1% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2027.
"Os dados remetem a um crescimento de inadimplência generalizada no mercado", disse o executivo.
Noronha também afirmou que o banco espera uma pressão mais prolongada sobre a inadimplência e o custo do crédito, diante do comprometimento da renda das famílias, dos juros elevados e da desaceleração econômica.
Apesar disso, o executivo defendeu que a instituição está mais preparada para atravessar um ciclo adverso do que em períodos anteriores, com uma carteira mais concentrada em operações com garantias e clientes de menor risco.
Itaú vê cenário pior em 2027, mas mantém inadimplência controlada
No Itaú, o cenário de preocupação com a economia também apareceu nas declarações da administração. O CEO Milton Maluhy afirmou que o banco trabalha com uma perspectiva de menor crescimento econômico, aumento do desemprego e juros restritivos por mais tempo no próximo ano.
"Não somos imunes, naturalmente", afirmou o executivo durante a apresentação dos resultados do terceiro trimestre.
Segundo Maluhy, famílias e empresas já chegam mais pressionadas a esse cenário. O comprometimento de renda dos consumidores está elevado, enquanto as empresas precisam refinanciar suas dívidas a taxas de juros maiores.
O executivo também relatou uma desaceleração da demanda por crédito em todos os segmentos. Entre as grandes empresas, a incerteza tem levado empresários a reduzir os prazos das operações de financiamento e adiar investimentos.
Os números do Itaú, porém, mostram uma situação de crédito mais confortável do que a observada no Bradesco. Obanco registrou lucro recorrente gerencial recorde de R$ 12,6 bilhões no terceiro trimestre, crescimento de 6,7% em um ano. A carteira de crédito alcançou R$ 1,54 trilhão, alta de 10,2% em 12 meses.
A inadimplência acima de 90 dias ficou em 2% no consolidado, avanço de 0,1 ponto percentual no trimestre. Entre pequenas e médias empresas, o indicador chegou a 2,1%, ante 1,6% em junho de 2025. O custo do crédito somou R$ 10,4 bilhões, aumento de 10,2% em um ano, em ritmo semelhante ao crescimento da carteira.
Maluhy destacou que o banco mantém provisões adequadas e tem acelerado o reconhecimento de perdas quando identifica sinais de deterioração. Também ressaltou que a carteira está concentrada em clientes considerados mais resilientes e em operações com garantias. "Eu acho que a gente nunca esteve tão preparado para enfrentar qualquer que seja o cenário", afirmou.
Ainda assim, a instituição não espera ficar imune a uma eventual piora da economia. O executivo afirmou que a estratégia será preservar a disciplina na concessão de crédito e reforçar o controle de despesas diante de um ambiente de crescimento mais limitado.
Próximos balanços ainda vão mostrar o quadro do setor
Os próximos resultados devem ajudar a ampliar essa leitura. O Banco do Brasil divulga seu balanço do terceiro trimestre na próxima quarta, 11 de novembro, após o fechamento do mercado. Já o Nubank apresenta os números no dia seguinte, na quinta, 12.
