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InvestMercados
05/06/2026
5 min

Saídas de emergentes somam US$ 215 bi e voltam ao nível do 'Dia da Libertação'

Saídas de emergentes somam US$ 215 bi e voltam ao nível do 'Dia da Libertação'

A aversão ao risco provocada pelas tensões geopolíticas no Oriente Médio levou os mercados emergentes a registrar uma das maiores ondas de saída de capital dos últimos anos. Segundo relatório do JP Morgan, os fluxos líquidos de capital dos países emergentes, incluindo a China, acumularam saídas de US$ 215 bilhões no primeiro trimestre de 2026, um patamar comparável ao observado durante a volatilidade desencadeada pelo chamado "Dia da Libertação", em abril de 2025.

Na avaliação do maior banco dos Estados Unidos, o movimento reflete principalmente a fuga de investidores estrangeiros de mercados acionários mais desenvolvidos dentro do universo emergente, como Coreia do Sul, Índia e Brasil, em meio à escalada dos riscos geopolíticos e à disparada dos preços do petróleo.

"O total dos mercados emergentes chegou a US$ 215 bilhões em saídas no trimestre como um todo, um nível comparável à volatilidade do 'Dia da Libertação' no segundo trimestre de 2025", afirma a analista Katherine Marney.

O episódio citado pelo JP Morgan remete ao anúncio feito pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em 2 de abril do ano passado. Na ocasião, Trump decretou uma ampla rodada de tarifas retaliatórias contra diversos países, alegando que os Estados Unidos vinham sendo prejudicados por parceiros comerciais que aplicavam tarifas mais elevadas sobre produtos americanos ou mantinham superávits comerciais expressivos com o país.

O anúncio provocou forte turbulência nos mercados financeiros globais e ampliou as preocupações com uma escalada das disputas comerciais.

Maior queda desde a pandemia

Os dados da balança de pagamentos de março mostraram o impacto mais agudo do atual episódio de incerteza. Segundo o JP Morgan, os fluxos líquidos de capital dos emergentes registraram naquele mês a maior queda desde março de 2020, período marcado pelo choque inicial da pandemia.

As estimativas do banco apontam que os fluxos líquidos recuaram US$ 87 bilhões apenas em março, levando o saldo trimestral para terreno negativo em US$ 7 bilhões.

No período, os mercados emergentes receberam US$ 203 bilhões em capital estrangeiro, pouco abaixo da média de US$ 230 bilhões observada nos quatro trimestres anteriores. Ao mesmo tempo, as saídas de recursos de investidores residentes somaram cerca de US$ 210 bilhões.

A China também teve papel relevante no movimento. A equipe do JP Morgan estima que o país registrou saídas líquidas de aproximadamente US$ 210 bilhões ao longo do trimestre, contribuindo para elevar o volume total de retiradas do conjunto dos emergentes.

Brasil entra no grupo mais afetado

O relatório destaca que a deterioração dos fluxos não ocorreu de forma homogênea entre os países emergentes. As saídas ficaram concentradas principalmente em mercados com bolsas mais desenvolvidas e maior participação de investidores estrangeiros.

"Mais uma vez, as grandes saídas concentraram-se em mercados com setores de ações relativamente desenvolvidos: Coreia, Índia e Brasil", afirma o banco.

Após um primeiro trimestre bastante positivo, quando o Ibovespa acumulou valorização de 16,35% em reais e de 22,65% em dólares — desempenho que colocou o índice brasileiro entre os melhores do mundo no período —, o fluxo estrangeiro passou a se deteriorar a partir da segunda quinzena de abril.

Entre 15 de abril e 1º de junho, investidores estrangeiros retiraram aproximadamente R$ 28,32 bilhões da bolsa brasileira. O valor corresponde a cerca de 41% de todo o fluxo líquido positivo acumulado até então em 2026. Até 14 de abril, o saldo estrangeiro na B3 era positivo em R$ 69,07 bilhões.

Após a sequência de retiradas, o resultado acumulado caiu para R$ 40,75 bilhões.

No intervalo analisado, houve apenas dois pregões com entrada líquida de recursos estrangeiros: 20 de abril e 8 de maio. As maiores retiradas ocorreram em 17 de abril e 15 de maio, ambas superiores a R$ 2,4 bilhões.

Petróleo pressiona, mas tecnologia e metais ajudam emergentes

Apesar da deterioração dos fluxos financeiros, o JP Morgan avalia que os mercados emergentes não enfrentam um choque externo tão severo quanto em outros episódios de crise.

A principal razão é que os impactos negativos da alta do petróleo vêm sendo parcialmente compensados pelo desempenho de setores exportadores ligados à tecnologia e aos metais.

O banco destaca que oconflito no Oriente Médio manteve elevados os prêmios de risco geopolítico e sustentou os preços do petróleo acima dos níveis anteriores. Mesmo considerando a expectativa de reabertura do Estreito de Ormuz até meados do ano, a instituição projeta preços acima de US$ 95 por barril ao longo de 2026.

Em contrapartida, países exportadores de commodities metálicas e fabricantes de tecnologia vêm encontrando uma fonte adicional de receita externa.

No Chile, por exemplo, a valorização do cobre compensou o aumento dos custos com combustíveis. Já na Ásia, o forte crescimento das exportações de semicondutores e produtos tecnológicos ajudou a amortecer os impactos do choque energético.

A Coreia do Sul é citada como exemplo desse fenômeno. Segundo o relatório, os dados alfandegários dos primeiros 20 dias de maio mostraram crescimento de cerca de 46% das exportações na comparação anual, acima da expansão de 29% das importações.

AutorClara Assunção
FonteExame
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