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TecnologiaCPTO
12/10/2026
6 min

Sam Bankman-Fried: como o prodígio de US$ 32 bilhões perdeu tudo em nove dias — e foi preso

Do pufe ao lado da mesa à prisão, o fundador da FTX construiu uma imagem em que ambição financeira e missão moral pareciam inseparáveis

Sam Bankman-Fried: como o prodígio de US$ 32 bilhões perdeu tudo em nove dias — e foi preso
RESUMO +

Sam Bankman-Fried apresentou sua carreira como um caminho para enriquecer e financiar causas sociais. À frente da Alameda Research e da FTX, construiu negócios, uma imagem pública e relações com investidores e políticos. O colapso da corretora revelou o uso indevido de recursos dos clientes. Condenado a 25 anos de prisão, ele tenta reverter a decisão.

Desde muito jovem, Sam Bankman-Friedacreditava no altruísmo eficaz — conceito que engloba uma pessoa ganhar o máximo de dinheiro que conseguir para doar tudo mais tarde em sua vida.

Bankman-Fried levava esse raciocínio ao limite. Em entrevista à The Economist, publicada em 2022, afirmou que participaria de um jogo de cara ou coroa, arriscando o fim do mundo se ganhar fizesse duas vezes mais bem do que mal — e que não pararia de jogar até dar certo. Naquele exercício hipotético, a possibilidade de ganhar mais justificava continuar arriscando, mesmo quando a perda poderia ser total.

Para ele, o mercado financeiro oferecia um caminho para colocar a lógica em prática. Depois de estudar física no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês) e trabalhar na Jane Street, empresa de negociação de ativos financeiros, Bankman-Fried fundou a Alameda Research, em 2017, para explorar diferenças nos preços das criptomoedas. A firma comprava onde um ativo custava menos para vendê-lo onde valia mais.

Dois anos depois, criou a FTX, uma plataforma na qual clientes podiam comprar e vender criptomoedas e negociar contratos ligados a esses ativos. Enquanto a Alameda operava no mercado, a FTX oferecia a estrutura para que outras pessoas negociassem e cobrava taxas pelas transações.

A cada etapa,o crescimento dos negócios ampliava os recursos que, segundo sua promessa, poderiam financiar causas sociais.

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Aos poucos, a missão ganhou um personagem reconhecível. Bankman-Fried aparecia de bermuda e camiseta, com os cabelos desalinhados, e dirigia um Toyota Corolla. Durante o julgamento, Caroline Ellison, ex-executiva da Alameda, afirmou que ele considerava o cabelo e o carro úteis à sua imagem pública. No escritório, dormia em um pufe ao lado da mesa, embora houvesse camas disponíveis.

O pufe se tornou parte da história contada sobre ele. Andy Croghan, que trabalhou com Bankman-Fried, relatou ao The New York Times que organizava a chegada de visitantes importantes enquanto o fundador ainda dormia. Eles podiam vê-lo antes de ele acordar e entrar na reunião. Segundo Croghan, a intenção era cultivar uma aura em torno do empresário.

Até suas distrações alimentavam a reputação. Durante uma apresentação a investidores da Sequoia Capital, Bankman-Fried jogou League of Legends. A gestora investiu e depois publicou um perfil que incluía o episódio. O hábito que poderia levantar dúvidas sobre sua atenção virou uma anedota sobre o fundador de uma empresa em expansão.

Em janeiro de 2022, a FTX foi avaliada em US$ 32 bilhões. Bankman-Fried circulava entre políticos, investidores e celebridades. Quando a queda das criptomoedas atingiu outras empresas naquele ano, seus negócios ofereceram financiamento a concorrentes em dificuldades. Ele parecia ter dinheiro suficiente para ajudar a sustentar o setor enquanto construía a fortuna que prometia doar.

Em novembro, porém, os clientes da FTX descobriram que não conseguiam retirar os próprios recursos. A corretora entrou em colapso, e a investigação revelou que o dinheiro dos usuários havia sido usado para financiar investimentos, pagar dívidas da Alameda e fazer outras despesas. A pergunta deixou de ser quanto bem Bankman-Fried poderia fazer com sua fortuna — e virou quanto daquela fortuna havia sido construída com dinheiro que não lhe pertencia.

A confiança dispensava controles

A estrutura administrativa não acompanhava o tamanho do negócio. A FTX não tinha um conselho independente nem um diretor financeiro responsável por organizar suas contas, segundo um estudo de caso do MIT. Decisões e informações permaneciam concentradas em um grupo próximo ao fundador.

A separação entre a corretora e a Alameda também era diferente daquela apresentada aos clientes. Segundo o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, a firma de negociação tinha privilégios que lhe permitiam retirar recursos da FTX sem se submeter às mesmas restrições dos demais usuários.

Quando credores cobraram dívidas da Alameda, dinheiro dos clientes da corretora foi usado para pagá-las. Os recursos também financiaram investimentos e contribuições políticas. Para quem depositava na plataforma, a expectativa era que os valores continuassem disponíveis para saque.

A crise ganhou força depois de uma reportagem da CoinDesk mostrar que parte relevante dos ativos da Alameda estava ligada ao FTT, token criado pela própria FTX. O patrimônio apresentado pela firma dependia, assim, de um ativo associado ao negócio de seu fundador.

A corrida de saques expôs o problema. Uma tentativa de resgate pela Binance fracassou, e a FTX pediu proteção judicial contra credores em 11 de novembro de 2022. Bankman-Fried deixou o comando.

Sede da FTX: a empresa declarou falência em novembro de 2022 após uma corrida de saques e revelações de uso indevido de fundos (Divulgação/Divulgação)

Os parceiros passaram a testemunhas

Caroline Ellison, Gary Wang e Nishad Singh, integrantes do núcleo que administrava os negócios, admitiram participação nos crimes e colaboraram com a investigação. No julgamento, suas versões confrontaram a defesa de Bankman-Fried, que negava ter cometido fraude deliberadamente.

Ellison descreveu a influência do fundador sobre as decisões da Alameda e a preparação de informações financeiras para credores. Também levou ao tribunal detalhes de como ele pensava a própria reputação: a aparência informal, segundo ela, era uma escolha consciente.

Bankman-Fried contestou essa interpretação. Em seu depoimento, atribuiu o cabelo e as roupas à falta de tempo e ao conforto. O homem, cuja apresentação pública havia ajudado a conquistar investidores, precisava explicar, diante de um júri, quanto daquele personagem tinha sido construído.

Em novembro de 2023, ele foi considerado culpado nas sete acusações submetidas ao júri. Em março de 2024, recebeu uma pena de 25 anos de prisão. A Justiça também determinou o confisco de US$ 11 bilhões.

Devolver depois não apaga o uso indevido

A recuperação de recursos no processo de falência passou a integrar a discussão sobre o caso. A defesa tentou usar a possibilidade de ressarcimento dos clientes como argumento para questionar a condenação.

Em junho, a Corte de Apelações do Segundo Circuito manteve a decisão. O tribunal distinguiu duas questões: recuperar dinheiro posteriormente e ter autorização para utilizá-lo. A perspectiva de devolver os valores não anulava a fraude cometida quando os recursos foram desviados.

Em setembro, Bankman-Fried pediu à Suprema Corte dos Estados Unidos que analisasse sua condenação. O pedido não equivale à aceitação do caso pelos ministros.

A promessa de sua carreira era ganhar dinheiro para decidir como distribuí-lo. A condenação estabeleceu o limite que faltava àquela conta — ele não podia decidir, também, o destino do dinheiro dos outros.


AutorTamires Vitorio
FonteExame
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