Santander Brasil tem lucro abaixo do esperado e rentabilidade em queda no 2º tri
Banco reportou R$ 3 bilhões de lucro recorrente e ROAE de 12,5%, enquanto migra a carteira para segmentos de menor risco e menor spread

O Santander Brasil (SANB11) abriu a temporada de balanços dos grandes bancos com números que refletem a estratégia de trocar volume por qualidade na carteira de crédito. O banco registrou queda de lucro e de rentabilidade no segundo trimestre de 2026, pressionado por provisões mais altas e por uma margem financeira em compressão, ao mesmo tempo em que reduziu a exposição ao crédito de maior risco. O resultado foi divulgado nesta quarta-feira, 29, antes da abertura do mercado na B3.
Lucro líquido recorrente
O lucro líquido gerencial recorrente somou R$ 3,014 bilhões no segundo trimestre, com recuo de 20,4% frente ao primeiro trimestre e de 17,6% na comparação com o mesmo período de 2025. O patamar ficou abaixo do consenso, que apontava lucro em torno de R$ 3,4 bilhões a R$ 3,5 bilhões para o período.
O desempenho dá sequência à trajetória de queda vista no início do ano, quando o banco havia reportado lucro de R$ 3,788 bilhões no primeiro trimestre, pressionado pelo que a instituição chamou de cenário macroeconômico desafiador. É também o primeiro balanço divulgado após a troca no comando do banco, com a saída de Mario Leão e a chegada de Gilson Finkelsztain, ex-CEO da B3.
Lucro líquido contábil
O lucro líquido contábil, número que inclui os efeitos não recorrentes e sai diretamente da demonstração de resultado, ficou em R$ 2,667 bilhões, queda de 28,4% no trimestre e de 25,8% em doze meses. A diferença vem, principalmente, de uma provisão trabalhista não recorrente de R$ 291 milhões contabilizada no período.
Rentabilidade (ROAE)
A rentabilidade, medida pelo retorno sobre o patrimônio líquido médio (ROAE), recuou para 12,5%, com perdas de 3,4 pontos percentuais no trimestre e de 3,8 pontos na comparação anual. O indicador mede quanto de lucro o banco gera sobre o capital dos acionistas e é o principal termômetro de eficiência na alocação de capital de um banco. O patamar atual está bem distante da meta de ROE de 20% que o banco projeta alcançar no médio prazo.
Provisões e custo de crédito (PDD)
O resultado de provisão para devedores duvidosos (PDD) totalizou R$ 7,654 bilhões, alta de 20,6% no trimestre e de 11,5% no ano. A despesa bruta de provisão avançou 21% na comparação trimestral, para R$ 8,26 bilhões, enquanto as receitas de recuperação de crédito somaram R$ 607 milhões.
O banco atribuiu a elevação a alguns efeitos pontuais, como reforços de provisão em casos do atacado e a revisão dos critérios de baixa a prejuízo, além de um ambiente de crédito ainda desafiador, com impactos concentrados em carteiras específicas como empresas, agronegócio e segmento massivo.
O custo de crédito de 12 meses anualizado, indicador que mostra quanto o crédito consome em perdas ao longo de um ano, ficou em 3,81%, alta de 0,1 ponto no trimestre e queda de 0,1 ponto no ano. A cobertura da carteira em estágio 3 (as operações já inadimplentes ou com recuperação comprometida) caiu para 65%, ante 67,1% um ano antes.
Inadimplência
O índice de inadimplência acima de 90 dias, padrão de mercado para medir calote, ficou em 3,3% no consolidado, estável frente ao primeiro trimestre e com avanço de 0,7 ponto percentual em doze meses. A pressão se concentrou na pessoa física, cujo índice subiu para 5,1%, alta de 0,2 ponto no trimestre e de 1,1 ponto no ano, ante 4,9% no primeiro trimestre e 4% um ano antes, refletindo baixa renda e agronegócio em um cenário de juros altos e endividamento elevado das famílias. Na pessoa jurídica, o indicador ficou em 1,6%.
O banco pondera que parte dessa alta reflete uma mudança contábil: o Santander passou a levar mais operações antigas a prejuízo, o que empurra o índice para cima sem significar, necessariamente, mais clientes deixando de pagar.
Já o índice de curto prazo, de 15 a 90 dias, que funciona como indicador antecedente de tendência, recuou levemente para 3,3%, sinal de que a originação mais seletiva ainda não se refletiu no atraso longo.
Margem financeira
A margem financeira bruta, resultado da intermediação entre o que o banco ganha emprestando e o que paga para se financiar, atingiu R$ 15,341 bilhões, com queda de 3% no trimestre e de 0,4% em doze meses. A margem com clientes, ligada ao spread de crédito, somou R$ 16,058 bilhões, recuo de 3,2% no período, enquanto a margem com o mercado, ligada à tesouraria, teve resultado negativo de R$ 718 milhões, uma melhora de 7% frente aos R$ 771 milhões negativos do trimestre anterior.
O spread médio recuou para 10,03% ao ano, queda de 0,53 ponto percentual em doze meses. O movimento reflete o efeito mix da estratégia do banco. Ao reduzir a exposição ao segmento massivo, que cobra taxas mais altas por embutir mais risco, e migrar para alta renda, imobiliário e grandes empresas, a instituição troca operações caras e arriscadas por operações mais baratas e seguras, o que comprime o spread médio da carteira por composição.
Receitas de serviços e tarifas
As comissões, que reúnem a receita não ligada a juros, como cartões, seguros, consórcios e mercado de capitais, somaram R$ 5,334 bilhões, queda de 1,9% no trimestre e alta de 2,5% no ano. No recorte anual, os destaques positivos vieram de cartões, com avanço de 10,5%, administração de recursos, com alta de 26,4%, e corretagem e colocação de títulos, com crescimento de 14,8%. A retração trimestral refletiu menores receitas em corretagem e colocação de títulos, seguros e operações de crédito.
Carteira de crédito ampliada
A carteira de crédito ampliada encerrou junho em R$ 714,769 bilhões, avanço de 1,3% no trimestre e de 5,8% no ano. O crescimento anual foi puxado pela financeira, com alta de 15,3%, seguida das pequenas e médias empresas, com 11,5%, e das grandes empresas, com 6,8%.
Na pessoa física, a carteira ficou praticamente estável no ano, com o retrato claro da troca de perfil em curso. Cartão de crédito cresceu 13% e crédito imobiliário avançou 10,6%, enquanto o consignado caiu 14,7% e o crédito pessoal recuou 8,6%, alinhados à estratégia de reduzir a exposição ao segmento massivo. O banco manteve a disciplina na alocação de capital e o índice de Basileia em 15,3%, alta de 0,3 ponto no ano.
