Santiago Fossatti, da Kaszek, e a chance da América Latina na corrida da IA

Santiago Fossatti acompanha de perto a próxima grande corrida da tecnologia. E, na visão dele, ela pode passar pela América Latina.
Enquanto Estados Unidos e China concentram os maiores investimentos em modelos de inteligência artificial, a região reúne cerca de 20% das reservas de energia do mundo e uma parcela relevante dos minerais usados em baterias.
Para Fossatti, sócio da Kaszek, maior gestora de venture capital focada em estágio inicial da América Latina, esse cenário abre espaço para que países como Brasil e Argentina tenham um papel importante na infraestrutura que sustentará a expansão da IA nos próximos anos.
A avaliação foi feita durante o Web Summit Rio 2026, evento realizado entre 8 e 11 de junho no Riocentro, que reuniu mais de 40 mil participantes, 1.572 startups e 688 investidores.
A edição deste ano foi dominada por discussões sobre inteligência artificial, soberania digital, infraestrutura tecnológica e os impactos econômicos da nova onda de inovação.
Quando Santiago Fossatti fala sobre tendências tecnológicas, o mercado costuma prestar atenção.
Argentino radicado no Brasil, ele foi o primeiro profissional contratado pela Kaszek após a criação do fundo, em 2011, e hoje lidera as operações da gestora em São Paulo.
A Kaszek foi fundada por Hernan Kazah e Nicolas Szekasy, ex-executivos do Mercado Livre, e se tornou uma das principais financiadoras do ecossistema de startups da região.
O fundo esteve entre os primeiros investidores institucionais de empresas como Nubank, QuintoAndar, Creditas, Nuvemshop, Loggi, Wellhub e Kavak.
Durante a conversa, Fossatti falou sobre o impacto da inteligência artificial na América Latina, as oportunidades abertas pela nova demanda por energia e infraestrutura, a transformação das empresas de tecnologia já consolidadas, o avanço do Open Finance e as próximas apostas da Kaszek em fintechs e IA.
A seguir, os principais trechos da entrevista.
Como a Kaszek enxerga as oportunidades trazidas pela inteligência artificial na América Latina?
A gente costuma dividir esse movimento em três camadas. No centro estão os modelos fundacionais, que deram origem à atual revolução da IA. É nessa camada que vemos os maiores investimentos acontecendo principalmente nos Estados Unidos e na China.
Para a América Latina, enxergamos duas grandes oportunidades. A primeira é a infraestrutura. Estamos olhando para geração de energia, distribuição, conectividade, data centers e até setor espacial. A região reúne cerca de 20% das reservas energéticas do mundo e uma parcela relevante dos minerais necessários para baterias. Isso coloca a América Latina em uma posição importante para atender parte da demanda criada pela inteligência artificial.
A segunda oportunidade está na criação de serviços. Estamos vendo uma nova geração de empresas usando IA para resolver problemas específicos das corporações, em áreas como jurídico, recursos humanos, saúde e seguros. Muitas dessas soluções não seriam viáveis alguns anos atrás.
Quais são os investimentos da Kaszek nessa camada de infraestrutura?
Temos investido em empresas ligadas à distribuição de energia e conectividade. Acreditamos que o avanço da inteligência artificial exigirá mais capacidade de processamento nos data centers, mas também melhor conexão até o usuário final.
Outro tema que acompanhamos de perto é o setor espacial. O Brasil representa uma parcela relevante das assinaturas da Starlink e a dimensão geográfica da América Latina cria uma oportunidade natural para soluções baseadas em satélites. Estamos analisando esse mercado com bastante atenção.
E na camada de aplicações corporativas, quais exemplos chamam mais atenção?
Temos acompanhado empresas que estão usando IA para oferecer serviços completos, e não apenas software.
A Enter, por exemplo, atua na área jurídica e recentemente se tornou o primeiro unicórnio brasileiro de IA. A Compi trabalha com automação de processos de recursos humanos. Também temos investimentos em saúde, seguros e outras áreas.
Além disso, estamos vendo empresas globais chegarem à América Latina para ajudar grandes corporações a implementar IA agêntica. Recentemente investimos em uma companhia israelense que já alcançou o status de unicórnio e está expandindo sua atuação na região.
Como as grandes empresas do portfólio da Kaszek estão reagindo à IA?
O que mais nos chama atenção é que muitas das grandes empresas construídas nas últimas décadas estão se transformando rapidamente.
Mercado Livre, Nubank, QuintoAndar, Creditas, Kavak e várias outras nasceram em ciclos tecnológicos anteriores, mas agora estão incorporando inteligência artificial em seus produtos e operações.
A forma de construir empresas muda com o tempo. O Mercado Livre nasceu com a internet. O Nubank foi impulsionado pela revolução dos smartphones. Agora estamos vendo essas mesmas empresas adotarem IA para aumentar produtividade, melhorar margens e oferecer produtos melhores aos clientes.
A América Latina pode se beneficiar mais da IA do que outras regiões?
Em alguns aspectos, sim.
Historicamente, as empresas latino-americanas investiram menos em software do que companhias de mercados mais desenvolvidos. Isso cria uma situação interessante: muitas organizações estão pulando etapas.
Em vez de adotar uma série de softwares tradicionais, elas já estão contratando soluções baseadas em IA que entregam diretamente um serviço ou um resultado.
A Enter não vende apenas software jurídico. Ela ajuda empresas a resolver processos jurídicos. A Compi não vende uma ferramenta de RH; ela resolve tarefas específicas do departamento de recursos humanos.
Essa lógica tem acelerado bastante a adoção da IA na região.
Quais são os principais desafios para os empreendedores nesse cenário?
A velocidade da mudança.
A inteligência artificial é provavelmente a tecnologia que evolui mais rapidamente que qualquer outra criada até hoje. Os melhores fundadores são aqueles que conseguem antecipar essas transformações e adaptar suas empresas.
As organizações passam a combinar trabalho humano com agentes de IA, criando novos modelos operacionais. Isso exige uma capacidade constante de evolução.
Ao mesmo tempo, existe uma oportunidade enorme apenas na implementação da tecnologia que já existe hoje. Ainda há uma distância relevante entre o que a tecnologia permite fazer e o que as empresas efetivamente utilizam.
A adoção de IA pelas empresas latino-americanas está acontecendo rapidamente?
Sim. Estamos vendo muitas empresas ganharem produtividade em um ritmo muito acelerado.
A combinação entre tecnologias já disponíveis e a evolução contínua dos modelos cria um ambiente muito favorável para adoção.
Também acreditamos que tanto as empresas quanto a mão de obra da região costumam se adaptar rapidamente às mudanças tecnológicas, o que ajuda a acelerar esse processo.
Como a Kaszek vê o momento atual das fintechs brasileiras?
O Brasil se tornou uma referência global em inovação financeira.
O Banco Central teve um papel importante ao estimular concorrência e inovação por meio de iniciativas como Pix e Open Finance. Isso abriu espaço para uma geração de empresas muito relevantes, como Nubank, Creditas e Cora.
Mas acreditamos que o mercado continua evoluindo.
Uma tendência que acompanhamos de perto é a expansão do crédito privado. Investimos, por exemplo, na Canastra, que oferece infraestrutura para operações desse mercado. Vemos muito potencial nessa transformação.
Quais fintechs mais chamam atenção atualmente?
Um caso muito interessante é a Arca, anteriormente conhecida como DolarApp.
Investimos na empresa ainda no início da trajetória. Ela criou um banco global baseado em stablecoins, permitindo que o usuário tenha uma única conta para operar em vários países.
A plataforma combina conta internacional, investimentos e cartão de crédito em um único ambiente. É uma proposta muito alinhada ao novo perfil de pessoas que trabalham globalmente, viajam com frequência ou recebem em moedas diferentes.
A execução tem sido muito forte e a empresa já alcançou milhões de clientes.
Ainda há espaço para inovação financeira no Brasil?
Sem dúvida.
Continuamos vendo inovação tanto no mercado voltado ao consumidor final quanto nas soluções para empresas.
Também observamos companhias que não nasceram como instituições financeiras incorporando serviços financeiros aos seus negócios. Muitas aproveitam o relacionamento já existente com os clientes para oferecer pagamentos, crédito e outras soluções.
