São Martinho (SMTO3): 1T27 é misto, mas etanol de milho se destaca; vale comprar a ação?
A São Martinho (SMTO3) apresentou um primeiro trimestre de safra 2026/27 misto, com melhora nos indicadores operacionais, mas pressão sobre preços, margens e geração de caixa. Em comum, BTG Pactual, XP e BB Investimentos mantiveram uma postura cautelosa e neutra em relação às ações, apesar de reconhecerem sinais positivos para a companhia. O principal destaque […]

A São Martinho (SMTO3) apresentou um primeiro trimestre de safra 2026/27 misto, com melhora nos indicadores operacionais, mas pressão sobre preços, margens e geração de caixa. Em comum, BTG Pactual, XP e BB Investimentos mantiveram uma postura cautelosa e neutra em relação às ações, apesar de reconhecerem sinais positivos para a companhia.
O principal destaque do balanço foi a recuperação da operação agrícola. A moagem de cana cresceu 3,9% na comparação anual, enquanto a produtividade agrícola avançou 7%, beneficiada pela normalização das condições climáticas durante a entressafra. A produção de ATR também aumentou 4,3% no período.
Por outro lado, o ambiente de preços continuou pressionando os resultados. A receita líquida somou R$ 1,53 bilhão no 1T27, queda de 17,6% em relação ao mesmo período da safra anterior. Já o Ebitda (métrica do mercado para avaliar a geração de caixa de uma empresa) ajustado recuou 27,7%, para R$ 582 milhões, com margem de 38,1%.
O etanol foi o principal detrator. A receita da commodity caiu cerca de 26%, refletindo uma combinação de menores volumes vendidos (-23%) e preços mais baixos. A estratégia da São Martinho de postergar parte relevante das vendas de etanol para o segundo semestre da safra também pesou na comparação.
No açúcar, o cenário foi semelhante: o volume vendido aumentou 14,5%, mas a queda de 25,7% nos preços mais do que compensou o avanço das vendas.
Custos também entram no radar
Apesar da pressão sobre as receitas, houve alguma compensação pelo lado dos custos. O CPV caixa caiu cerca de 11%, favorecido principalmente pelo menor Consecana e pela redução dos volumes comercializados.
Ainda assim, o BTG considera que os custos ficaram acima do esperado. O custo caixa unitário, excluindo outras receitas, recuou apenas 2% a/a, enquanto o banco esperava uma diluição maior em função da melhora da produtividade agrícola.
Segundo o BTG, o Ebit ajustado por tonelada de TRS ficou em R$ 156, 57% abaixo da estimativa do banco e 60% menor que no 1T26.
Para o BB Investimentos, as despesas com vendas também merecem atenção. Elas subiram 13,4%, principalmente devido aos maiores custos logísticos e portuários relacionados às exportações de açúcar.
O lucro líquido da companhia foi de R$ 38,1 milhões, queda de 39% na comparação anual.
Etanol de milho ganha protagonismo
Se açúcar e etanol de cana pressionaram os números, o etanol de milho apareceu como um importante amortecedor da queda de rentabilidade.
O BTG destaca que a operação de milho gerou R$ 76 milhões de Ebit no trimestre, quase dois terços do Ebit consolidado. A margem chegou a 32,5%, mais de quatro vezes superior à registrada no negócio de cana.
Outro diferencial está nos custos. A São Martinho produziu etanol de milho a aproximadamente R$ 1,50 por litro, contra cerca de R$ 2,50 por litro no etanol de cana, segundo o banco.
O BB também chama atenção para a importância crescente da operação. Embora represente cerca de 9% do ATR produzido pela companhia, o etanol de milho respondeu por R$ 82,5 milhões do EBITDA, ou 14,2% do total.
Na avaliação do banco, a atividade ajuda a diversificar as receitas, reduz a exposição a eventos climáticos e adiciona subprodutos como DDGS e óleo de milho ao portfólio.
A estratégia, portanto, parece ganhar cada vez mais relevância dentro da tese de investimento da São Martinho.
Capex elevado pode limitar geração de caixa
O problema é que essa expansão exige investimentos elevados.
A São Martinho prevê R$ 2,9 bilhões de capex na safra 2026/27, principalmente para ampliar a produção de etanol de milho na Unidade Boa Vista, além de projetos de biometano e expansão da irrigação.
O investimento reforça a competitividade estrutural da companhia, mas aumenta a pressão sobre o caixa no curto prazo. A dívida líquida chegou a R$ 5,2 bilhões, alta de 5% em um ano.
A geração operacional de caixa também piorou. Segundo o BB, ficou em R$ 219 milhões, contra R$ 584 milhões um ano antes.
A XP, por outro lado, destacou uma dinâmica melhor que a esperada no trimestre: a queima de caixa ficou em R$ 248 milhões negativos, ante estimativa de R$ 653 milhões negativos, beneficiada por uma dinâmica mais favorável de capital de giro e menores custos caixa.
Açúcar pode ser o próximo gatilho
Apesar do balanço pressionado, os bancos identificam sinais de melhora no ambiente de commodities.
O BTG destaca que os preços globais do açúcar subiram mais de 10% em agosto, superando 17 centavos de dólar por libra-peso. O movimento ocorreu em meio à alta dos preços domésticos na Índia e pode favorecer uma recuperação das margens do setor.
A São Martinho já protegeu cerca de 70% da produção própria de açúcar restante da safra atual, mas menos de 2% do volume esperado para a próxima safra. Com os preços atuais acima dos níveis médios dos contratos já realizados, o BTG espera que a companhia acelere as operações de hedge.
O BB também vê potencial de alta para o açúcar diante da possibilidade de efeitos do El Niño sobre a produção de países relevantes, como Índia e Tailândia.
No etanol, a queda dos preços começa a estimular a demanda, o que pode ajudar a criar algum suporte para a commodity nos próximos meses.
Afinal, vale comprar São Martinho?
Por enquanto, os bancos ainda não enxergam gatilhos suficientes para uma recomendação mais agressiva.
O BTG mantém recomendação neutra para SMTO3 e preço-alvo de R$ 25, embora reconheça que o cenário de curto prazo começa a apresentar ventos favoráveis.
A XP também considera que os fundamentos melhoraram nas últimas semanas, mas avalia que essa recuperação ainda precisa aparecer de forma mais clara nos resultados antes de provocar uma reprecificação relevante da ação. Os analistas contam com recomendação neutra e preço-alvo de R$ 14,80.
Já o BB Investimentos mantém recomendação neutra e preço-alvo de R$ 21. Para o banco, a São Martinho continua sendo uma companhia de elevada qualidade operacional, mas inserida em um ciclo setorial menos favorável, com menores preços, margens comprimidas e necessidade elevada de investimentos.
A leitura conjunta dos três bancos é de que a São Martinho tem ativos e vantagens competitivas para atravessar o ciclo ruim, mas ainda falta uma combinação mais convincente de preços, margens e geração de caixa para destravar a ação.
