São Paulo já tem quase tantos anúncios no Airbnb quanto quartos de hotel
Atividade da plataforma movimentou R$ 113 bilhões no Brasil em 2025 e passou a influenciar onde se investe, o que se constrói e onde se escolhe morar

Há algo curioso quando viajamos para uma cidade que ainda não conhecemos. Durante os primeiros dias, somos turistas. Visitamos os lugares conhecidos, procuramos os restaurantes recomendados e fotografamos aquilo que milhares de pessoas já fotografaram. Mas, quando permanecemos um pouco mais, acontece algo interessante. Descobrimos uma padaria, encontramos uma praça que não estava no roteiro e começamos a reconhecer as ruas. Por alguns dias, experimentamos uma vida que poderia ser nossa.
Talvez seja justamente essa uma das mudanças mais interessantes que o turismo experimentou nas últimas décadas. Durante muito tempo, viajar significava visitar um destino. Hoje, cada vez mais, significa experimentar outras maneiras de viver.
E poucas empresas contribuíram tanto para essa transformação quanto o Airbnb.
É claro que o aluguel de casas de temporada existia muito antes da plataforma. Famílias brasileiras alugam imóveis no litoral há gerações. A diferença é que esse mercado dependia de imobiliárias locais, indicações e algum conhecimento prévio sobre o destino. O Airbnb transformou uma atividade fragmentada em um mercado de alcance mundial. A reputação digital, os pagamentos integrados e a facilidade de encontrar acomodações reduziram obstáculos que, durante décadas, limitaram esse mercado.
Pensemos em uma pequena cidade brasileira com belas paisagens, boa gastronomia e alguns atrativos naturais. Talvez ela receba muitos visitantes durante três meses do ano e quase ninguém nos outros nove. Dificilmente essa demanda justificaria a construção de um hotel, com funcionários, custos permanentes e necessidade de ocupação relativamente constante.
Mas e se algumas dezenas de moradores começassem a oferecer suas casas durante os períodos de maior procura?
Aquela cidade poderia receber visitantes sem depender de um grande investimento hoteleiro. Restaurantes ganhariam clientes, pequenos comerciantes encontrariam oportunidades e profissionais locais poderiam oferecer passeios e serviços. A hospedagem deixaria de ser apenas uma resposta à demanda turística. Poderia também criar condições para que essa demanda surgisse.
Talvez estejamos diante de uma mudança na própria geografia do turismo.
Durante décadas, os grandes fluxos de visitantes ajudaram a consolidar regiões hoteleiras relativamente bem definidas. Hoje, um apartamento em um bairro residencial pode receber uma família de férias, um profissional em viagem de trabalho ou um casal que decidiu passar alguns dias conhecendo a cidade. E essa transformação ganhou dimensões surpreendentes.
Em junho de 2026, segundo o Inside Airbnb, a cidade de São Paulo reunia aproximadamente 42,4 mil anúncios na plataforma. Para comparação, a Prefeitura informa que a capital paulista encerrou 2025 com aproximadamente 44 mil unidades habitacionais distribuídas por 426 hotéis. Embora anúncios e unidades hoteleiras não sejam indicadores perfeitamente equivalentes, a proximidade entre os números revela a dimensão alcançada pela hospedagem alternativa.
Existe ainda outro detalhe interessante: aproximadamente 73% dos anúncios paulistanos estavam associados a anfitriões com mais de um imóvel anunciado. O dado sugere que a atividade já ultrapassou o modelo original de pessoas que alugavam ocasionalmente suas próprias residências.
Mas como os brasileiros estão utilizando essas novas possibilidades?
Uma pesquisa da Brain Inteligência Estratégica, realizada em maio de 2026, revela que os hotéis continuam sendo a modalidade mais utilizada nas viagens de lazer, mencionados por 34% dos entrevistados. As pousadas aparecem com 21%, enquanto os imóveis alugados, categoria que inclui plataformas como o Airbnb, já representam 16%.
A diferença entre gerações é ainda mais interessante. Entre os baby boomers, 13% utilizam principalmente imóveis alugados nessas viagens. O percentual chega a 16% entre os millennials e a 21% na geração Z. Entre os mais jovens, aliás, apenas 20% apontam os hotéis como sua principal forma de hospedagem, enquanto 27% preferem ficar em imóveis de amigos ou parentes.
Não significa necessariamente que os jovens estejam abandonando os hotéis. Mas será que estamos assistindo ao surgimento de uma geração para a qual viajar depende cada vez menos das estruturas tradicionais de hospedagem?
Na minha própria experiência, seja nas viagens de trabalho, seja nas férias com a família, já experimentei praticamente todas essas formas de hospedagem. E descobri que, independentemente da escolha, nenhuma modalidade oferece garantias de que a experiência corresponderá às expectativas.
As experiências podem ir do céu ao inferno, quase literalmente. Em uma de nossas viagens, o anfitrião, que havia se mudado para Amsterdã, fazia questão de nos enviar um bolo diferente a cada dois dias para o lanche da tarde. E esse foi apenas um dos mimos daquela estadia. Em outra ocasião, desta vez a trabalho, cheguei ao apartamento reservado depois das 23h e encontrei o chuveiro frio. No dia seguinte, depois de um longo dia de trabalho, voltei desejando aquele banho quente. O chuveiro continuava frio. E agora o box também estava quebrado. Foram apenas alguns dos mimos daquela hospedagem.
Mais do que a modalidade de hospedagem, são as experiências que acabam determinando nossa relação com os lugares que visitamos. Afinal, dormir em uma cidade é diferente de apenas visitá-la.
Um estudo da Fundação Getulio Vargas, encomendado pelo Airbnb, estima que a atividade associada à plataforma movimentou R$ 113 bilhões na economia brasileira em 2025, contribuindo com R$ 63 bilhões para o PIB e gerando cerca de 704 mil postos de trabalho. Para cada R$ 10 gastos em hospedagem, outros R$ 45,48 circularam em atividades como alimentação, comércio, transporte e entretenimento.
Talvez uma das transformações mais interessantes aconteça justamente onde raramente procuramos os grandes sinais de desenvolvimento urbano: nas pequenas mudanças do cotidiano dos bairros.
Uma cafeteria que antes abria apenas durante a semana começa a receber clientes aos domingos. O restaurante frequentado pelos moradores descobre uma nova clientela. Serviços de lavanderia, limpeza e manutenção encontram oportunidades que antes não existiam.
O turista que se hospeda em um bairro residencial passa a frequentar as mesmas padarias, caminhar pelas mesmas ruas e descobrir lugares que não necessariamente fazem parte dos roteiros tradicionais.
Mas essa convivência também produz novas questões. O comércio que começa a atender visitantes continuará oferecendo os mesmos produtos aos moradores? Os preços acompanharão a renda de quem vive no bairro ou o poder de compra de quem está apenas de passagem?
O Airbnb não modifica apenas a paisagem construída. Em determinados lugares, começa a modificar também a paisagem humana.
As novas possibilidades de hospedagem também alteraram a dinâmica das viagens profissionais e dos grandes eventos. Famílias podem acompanhar alguém em viagem de trabalho, visitantes podem prolongar a permanência depois de um congresso e grupos podem compartilhar uma residência durante festivais ou competições esportivas.
E, enquanto mudamos nossa maneira de viajar, começamos também a modificar os lugares que visitamos.
Em determinadas regiões, edifícios residenciais passaram a incorporar fechaduras digitais, sistemas de acesso remoto e estruturas destinadas à administração de locações temporárias. Novos empreendimentos começaram a considerar essa demanda ainda na concepção dos projetos.
Essa transformação já aparece nas pesquisas imobiliárias brasileiras. Em levantamento realizado pela Brain para a revista EXAME, identificamos que os lançamentos de apartamentos de até um dormitório em Maceió cresceram 352% em cinco anos, em uma cidade cuja expansão imobiliária está fortemente relacionada ao turismo.
É evidente que nem todos esses imóveis são destinados à hospedagem temporária. Mas o fenômeno suscita uma reflexão interessante: até que ponto o crescimento do turismo começa a determinar não apenas onde construímos, mas também o tamanho e as características dos imóveis que produzimos?
Outra pesquisa nacional da Brain ajuda a ampliar essa discussão. Em apenas um ano, a participação dos imóveis adquiridos como investimento passou de 20% para 26% do total de aquisições. Ainda que esses investimentos não estejam necessariamente relacionados ao turismo, o crescimento reforça a importância de compreender o imóvel também como instrumento de geração de renda.
Essa mudança, entretanto, traz uma contradição que não pode ser ignorada. Aquilo que torna um bairro interessante para o turista frequentemente é exatamente o que o torna desejável para seus moradores. A diversidade do comércio, a arquitetura, os restaurantes, as praças e a vida cotidiana constituem parte importante da experiência de quem chega.
Mas o que acontece quando a rentabilidade da hospedagem temporária começa a competir com a moradia permanente?
Estudos acadêmicos sobre cidades europeias, como Madri, Barcelona e Berlim, encontraram associações entre a expansão das locações de curta duração e o aumento dos aluguéis residenciais, especialmente em áreas de maior concentração dessa atividade. Os resultados variam conforme o período, a metodologia e a região analisada, mas colocam em evidência um desafio: como conciliar as oportunidades econômicas do turismo com a preservação das condições de moradia?
Durante muito tempo, construímos hotéis para quem chegava e residências para quem permanecia. O Airbnb ajudou a tornar essa divisão menos evidente. Hoje, o mesmo apartamento pode receber uma família durante as férias, um profissional por algumas semanas e um morador durante vários meses.
O imóvel permaneceu no mesmo endereço. O que mudou foi a quantidade de vidas diferentes que ele pode acomodar. E talvez a transformação mais profunda esteja justamente aí.
O turismo sempre nos permitiu conhecer outras cidades. Agora, ao oferecer a possibilidade de experimentar temporariamente a vida de seus moradores, começa também a modificar nossa percepção sobre onde gostaríamos de viver.
Quantas pessoas descobriram uma cidade durante as férias e, algum tempo depois, decidiram comprar um imóvel ali? Quantas passaram a considerar uma segunda residência depois de sucessivas viagens? Quantas perceberam que poderiam trabalhar longe dos grandes centros urbanos?
Não sabemos exatamente quantas decisões imobiliárias começaram com uma reserva de hospedagem. Mas talvez estejamos subestimando a importância dessa primeira experiência.
Afinal, antes de escolher uma cidade para morar, precisamos imaginá-la como parte da nossa vida.
E, para milhões de pessoas, essa possibilidade pode começar com algo tão simples quanto passar alguns dias na casa de alguém que nunca conheceram.
