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Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
11/08/2026
8 min

SC supera R$ 1 bilhão em inovação industrial, da plataforma ao espaço

Rede do SENAI/SC reúne dez institutos, 344 projetos para 417 empresas e mobiliza R$ 385 milhões em três centros tecnológicos de óleo e gás em Joinville

SC supera R$ 1 bilhão em inovação industrial, da plataforma ao espaço

A 30 metros de altura, na lateral de uma plataforma de petróleo, uma equipe precisa preparar, inspecionar e pintar o casco enquanto o mar se move abaixo. Em Joinville, um robô criado por pesquisadores do SENAI-SC substitui parte dessa operação, reduz o tempo de serviço e afasta trabalhadores de uma das etapas mais arriscadas da manutenção offshore. A mesma rede participou do desenvolvimento de um nanossatélite lançado pela SpaceX e ampliou, em Chapecó, a capacidade de análises para a indústria de alimentos.

Esses projetos ajudam a explicar por que a estrutura catarinense chegou a 2026 com uma carteira acumulada de R$ 1,02 bilhão em inovação. O valor soma iniciativas executadas e em andamento desde 2014 — não se trata, portanto, de um orçamento anual — e reúne 344 projetos para 417 empresas. O portfólio vai de robótica, manufatura avançada e sistemas embarcados a bioeconomia, inteligência artificial, transição energética e tecnologias espaciais.

Para Fabrízio Machado Pereira, diretor regional do SENAI/SC, o marco representa a consolidação de uma capacidade construída durante mais de uma década para resolver problemas concretos da indústria. O teste decisivo ocorre na fábrica, quando a pesquisa precisa se transformar em produtividade, segurança, qualidade e competitividade.

A rede acompanha o mapa econômico de Santa Catarina. São três Institutos SENAI de Inovação e sete de Tecnologia, com competências em sistemas embarcados, manufatura, processamento a laser, alimentos e bebidas, meio ambiente, têxtil, cerâmica, madeira e mobiliário, mobilidade elétrica, energias renováveis e excelência operacional. As unidades estão distribuídas entre Florianópolis, Joinville, Chapecó, Blumenau, Brusque, Criciúma, São Bento do Sul e Jaraguá do Sul.

No Oeste, o Instituto SENAI de Tecnologia em Alimentos e Bebidas foi credenciado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária — MAPA para análises físico-químicas de produtos de origem animal e microbiologia de alimentos. Tornou-se o único laboratório catarinense habilitado nesse escopo. Uma nova sede, prevista para 2027, deverá ampliar a área em Chapecó de cerca de 900 para 3,5 mil metros quadrados, dando mais escala ao atendimento de uma região que concentra grandes agroindústrias exportadoras.

A expansão mais pesada ocorre no Norte catarinense. Três centros tecnológicos em implantação em Joinville mobilizam R$ 385 milhões em parceria com a Petrobras e ampliam a infraestrutura voltada a óleo e gás, robótica, processamento a laser e manufatura de equipamentos de alta complexidade. O maior é o Centro Tecnológico de Manufatura e Sistemas Cibermecânicos — Cetemo, com R$ 283 milhões e mais de 3 mil metros quadrados previstos.

O Cetemo deverá desenvolver, fabricar e testar componentes críticos usados pela indústria de petróleo e gás, muitos ainda importados. Outros R$ 102 milhões estão associados ao Centro Tecnológico de Robótica — CT ROB e ao CT Laser. Embora tenham nascido de demandas offshore, as estruturas poderão atender também às cadeias automotiva, aeroespacial, naval, de energia, mineração e transportes.

Um dos nomes à frente desse trabalho é o engenheiro Luís Gonzaga Trabasso, pesquisador-chefe dos institutos de Sistemas de Manufatura e de Processamento a Laser. Entre os projetos conduzidos com a Petrobras está o RDC-R, robô desenvolvido desde 2015 para preparar superfícies, inspecionar e pintar costados de plataformas e embarcações.

Os números mostram a mudança de escala. O equipamento pode pintar cerca de 200 metros quadrados por hora, enquanto o método convencional alcança aproximadamente 20 metros quadrados por dia. Também reduz de 20 para seis o número de profissionais envolvidos, encurta o serviço de 35 para 14 dias e pode cortar os custos de manutenção em até 84%.

O ganho econômico vem acompanhado de uma redução concreta de risco. Em vez de manter trabalhadores suspensos a aproximadamente 30 metros de altura sobre o mar, parte relevante da operação passa a ser automatizada. O projeto gerou três patentes e teve a tecnologia transferida pela Petrobras a prestadoras de serviços, etapa essencial para transformar pesquisa em solução fabricada e contratada pelo mercado.

Se Joinville desenvolve máquinas para trabalhar sobre o oceano, Florianópolis ajudou a levar engenharia catarinense ao espaço. O VCUB1 foi lançado em 15 de abril de 2023, na Califórnia, a bordo de um Falcon 9, da SpaceX. Liderado pela Visiona, o projeto contou com a participação do Instituto SENAI de Inovação em Sistemas Embarcados, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais — INPE e do Instituto de Aeronáutica e Espaço — IAE.

A missão terminou em 10 de fevereiro de 2025, quando o nanossatélite reentrou na atmosfera e se desintegrou como previsto. Depois de quase dois anos em órbita, com os subsistemas funcionando até o fim, o equipamento havia validado tecnologias nacionais de navegação, gestão de bordo, comunicação e câmera e coletado quase 500 mil quilômetros quadrados de imagens da Terra.

A experiência também alimentou o Catarina-A2, desenvolvido pelo SENAI dentro da Constelação Catarina, programa liderado pela Agência Espacial Brasileira — AEB. Em março de 2026, o nanossatélite concluiu testes de vibração e termovácuo no INPE e ficou tecnicamente pronto para os preparativos de lançamento. Financiado com R$ 5 milhões de emendas da bancada catarinense, deverá gerar dados para meteorologia, agricultura, defesa civil, logística e monitoramento ambiental. O voo ainda depende da contratação e da disponibilidade de um veículo lançador.

A diversidade da carteira aparece também em projetos distantes da metalmecânica. O Banana Têxtil, desenvolvido com empresas como Musa da Terra, Eurofios, Altenburg e Pacoa Eco, criou processos para transformar fibras do pseudocaule da bananeira em tecido e barbante com perspectiva industrial. A solução conecta agricultura, moda e economia circular ao converter um resíduo abundante em matéria-prima de maior valor.

Outra pesquisa, concluída em 2026, reuniu 34 pesquisadores e R$ 6,5 milhões em tecnologias para proteína cultivada. Entre os resultados estão alternativas de meios de cultura, uma plataforma multiômica apoiada por inteligência artificial e biomoléculas com uso potencial nas indústrias de alimentos, cosméticos e medicamentos.

Conexão entre pesquisa e demandas

Na transição energética, o MagBras reúne R$ 73 milhões, 28 empresas — entre elas 12 mineradoras —, sete instituições científicas e tecnológicas e três fundações. Iniciado em junho de 2025, o programa tem 36 meses para estruturar no Brasil o ciclo de produção de ímãs permanentes de terras raras, da pesquisa mineral à fabricação e reciclagem. Esses componentes são estratégicos para motores elétricos, equipamentos industriais e tecnologias de baixo carbono.

O salto mais difícil continua sendo o que separa o protótipo da linha de produção. Em projetos com a General Motors — GM, o Smart Die System foi criado para ajustar ferramentas e controlar a estamparia, elevando de 12 para 20 peças por minuto a capacidade observada em testes. Outra solução, o Spark Eyes, verifica em tempo real milhares de pontos de solda de um automóvel e tem potencial de replicação em outras fábricas do grupo.

Com a CNH, pesquisadores de Florianópolis desenvolveram um sistema de visão computacional para automatizar funções de colhedoras de cana. A solução foi testada na Flórida, apresentada à divisão global da companhia na Bélgica e originou 14 pedidos de patente no Brasil, Estados Unidos, China e Índia. É um exemplo de como a engenharia criada em Santa Catarina pode entrar em produtos e processos globais sem permanecer fisicamente no Estado.

Para sustentar essa carteira, o modelo combina contratos empresariais, recursos não reembolsáveis e mecanismos de compartilhamento do risco tecnológico. Entram nessa composição instrumentos da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial — Embrapii, da Financiadora de Estudos e Projetos — Finep, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social — BNDES, do Rota 2030, da Plataforma Inovação para a Indústria, incentivos do SENAI e parcerias com companhias, universidades, startups, fundações e instituições científicas.

A lógica é reduzir a distância financeira entre uma boa ideia e a etapa cara em que ela precisa ser testada, certificada e colocada para funcionar em escala industrial. Para as empresas, o modelo permite dividir o risco de pesquisas que podem exigir anos de desenvolvimento antes de chegar ao mercado.

Na avaliação de Gilberto Seleme, presidente da Federação das Indústrias de Santa Catarina — FIESC, o avanço da rede reforça a capacidade do Estado de conectar conhecimento científico às demandas do setor produtivo. “Os institutos do SENAI estão agora impulsionando o reconhecimento do Estado como um polo de tecnologia e inovação estratégico para o país”, afirma.

O marco de R$ 1,02 bilhão mostra que Santa Catarina passou a disputar projetos de alta complexidade em cadeias que vão do agronegócio ao petróleo e da fábrica ao espaço. A próxima medida de sucesso será menos o tamanho da carteira e mais a quantidade de tecnologias que conseguirão ganhar escala, mercado e produtividade fora dos laboratórios.

AutorRafael Martini
FonteExame
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